sábado, 26 de março de 2011

Spinoza_O Progresso do Intelecto

Abrindo o livro imediato de Spinoza damos já no começo com uma das gemas da literatura filosófica. Conta como abandonou tudo pela filosofia.

*Depois que a experiência me ensinou que todas as coisas comuns da vida são vãs e fúteis, e quando vi que todas as coisas que eu temia e que me temiam nada tinham de bom ou de mau em si, salvo no que podem afetar o espírito, determinei inquirir se não havia algo verdadeiramente bom, capaz de comunicar sua bondade e por meio da qual o espírito pudesse ser impressionado com exclusão de tudo mais. Determinei investigar se me era possível descobrir e atingir a faculdade do gozo eterno de uma continua felicidade...Atentei nas vantagens que as honras e as riquezas conferem e vi que eu teria de ser excluído da sua aquisição, caso desejasse seriamente investigar meu assunto...Mais um homem possui honras e riquezas, mais o seu prazer cresce, e em conseqüência mais e mais as procura aumentar – e quando não as alcança o sofrimento é profundo. A fama tem isso contra si, que se as procuramos havemos que dirigir nossa vida de modo a agradar a fantasia dos homens, evitando o que os desgoste e fazendo o que lhes agrade...Mas a dedicação a uma coisa eterna e infinita unicamente ela nos dá ao espírito um prazer continuo, livre de decepções...O maior dos bens é o conhecimento da união do espírito com o universo...Quanto mais o espírito sabe, mais compreende sua força e a ordem da natureza; quanto mais compreende sua força, mais apto será para dirigir-se e estabelecer suas regras; e quanto mais compreende a ordem da natureza, mais facilmente será capaz de libertar-se das coisas inúteis; aqui está todo o método.

Só do conhecimento, portanto, vem poder e liberdade; e a única felicidade continua está na prossecução do conhecimento e na alegria da compreensão. Entrementes, porém, o filósofo deve permanecer homem e cidadão – e qual seu método de vida durante a caça a verdade? Spinoza estabelece uma simples regra de vida com a qual se conformou fielmente.

1_Falar de maneira compreensível ao povo e por ele fazer tudo quanto não nos prive de atingir nossos objetivos;
2_Gozar unicamente os prazeres necessários a conservação da saúde;
3_Por fim, ganhar unicamente o necessário para a manutenção da vida e da saúde, e para o custeio do que não se oponha ao que procuramos. [*De Emendatione]
   
Mas estabelecendo essas proposições Spinoza se vê defrontado de um problema: Como posso saber se meu conhecimento é conhecimento, se posso confiar em meus sentidos quanto ao material que levam a razão, e se minha razão merece confiança, na sua apreciação desse material trazido pelos sentidos? Não será prudente examinar o veiculo antes de nos confiarmos a ele? Não será prudente fazermos o possível para melhorá-lo? “Antes de mais nada”, diz Spinoza baconicamente, “um meio tem que ser achado para melhorar e clarificar o intelecto”. Quer dizer, havermos de distinguir cuidadosamente entre as várias formas de conhecimento a fim de adotarmos o melhor.

Primeiramente, há os conhecimentos por ouvir dizer, como o que me faz conhecedor do dia em que nasci. Em segundo, há vagas experiências, conhecimentos “empíricos” no sentido depreciativo, como quando um médico sabe que um tratamento não possui base cientifica mas que por “impressão geral” é “usualmente” empregado. Em terceiro, imediata dedução, ou conhecimento obtido pelo raciocínio, como quando concluo sobre a imensidade do sol com base na diminuição dos objetos a medida que deles nos afastamos. Este tipo de conhecimento é superior aos anteriores, mas ainda assim sujeito a súbitas refutações da experimentação direta; por milhares de anos a ciência raciocinou deste modo sobre um “éter” que agora já não encontra nenhum favor entre os físicos. Logo, a melhor forma de conhecimento é a quarta, que provêm da imediata dedução e direta percepção [como quando vemos que 6 é o numero que falta na proporção de 2:4::3:x, ou quando percebemos que o todo é maior que a parte. Spinoza crê que os homens versados em matemáticas conhecem desta maneira intuitiva a mor parte de Euclides; admite, porém, com tristeza, que “o que podemos conhecer por este processo é bem pouco”.

Na Ética, Spinoza reduz as primeiras duas formas de conhecimento a uma; e denomina conhecimento intuitivo a percepção das coisas sub specie eternitatis – ou em suas relações eternas. Daí a fundamental distinção do filosofo [base do seu sistema] entre a “ordem temporal” – o “mundo” das coisas incidentes – e a “ordem eterna” – o mundo das leis e da estrutura.

Vamos ver como se distinguem:

*É preciso notar que não admito aqui como serie de causas e entidades reais uma serie de coisas individuais mutáveis, mas sim a serie de coisas fixas e eternas. Porque para a fraqueza do homem seria impossível seguir a serie das coisas individuais mutáveis, não só por serem de numero infinito como também em vista das inúmeras circunstancias ocorrentes numa mesma coisa, cada uma das quais podendo ser a causa da existência da coisa. Na realidade a existência de coisas particulares não tem conexão com a sua essência e não é uma verdade eterna. Todavia não há necessidade de que compreendamos a série de coisas individuais, mutáveis, porque a essência delas só pode ser encontrada nas coisas fixas e eternas e nas leis nelas inscritas como verdadeiros códigos e de acordo com as quais foram criadas e dispostas. Estas coisas individuais e mutáveis dependem tão essencial e intimamente das fixas que sem estas não poderiam existir, nem ser concebidas. [*Bacon, Novum Organum,II.]

Se quando estudamos a obra prima de Spinoza tivermos diante dos olhos esta passagem, muito da sua Ética, que parece desesperadoramente complexa, se tornará perfeitamente compreensível.      

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