sábado, 26 de março de 2011

Spinoza_Na História e Na Biografia

1] A odisséia dos judeus
A História dos Judeus, a partir da Dispersão, é pura epopéia. Expelidos da pátria depois da queda de Jerusalém [70 e.C], e por contingências das guerras e do comercio espalhados por todas as nações de todos os continentes; perseguidos e dizimados pelos adeptos das grandes religiões – Cristianismo e Islamismo, nascidas do próprio judaísmo; impelidos pelo regime feudal da posse da terra e impedidos pelo regime das corporações profissionais de penetrar nas industrias; encurralados em guetos superlotados; caçados pela populaça e roubados pelos reis; construindo com o seu dinheiro e a sua atividade comercial as cidades e centros indispensáveis a civilização; excomungados e fora da lei, insultados e injuriados; além disso, sem nenhuma estrutura política, sem nenhuma compulsão legal para a unidade, sem sequer uma língua única, este admirável povo, entretanto, manteve-se em corpo e alma, preservou sua integridade racial e cultural, guardou ciumentamente seus velhos rituais e todas as suas tradições, esperou, com infinita paciência, o dia da liberdade e emergiu por fim, mais forte do que nunca, enobrecido em todos os campos pela contribuição dos seus gênios e triunfalmente foi empossado, após dois mil anos de vida errante, no território da pátria primitiva. Que drama pode rivalizar a variedade destas cenas e a gloria e a justiça desse desenlace? Que obra de ficção pode equiparar-se ao romance desta realidade?

A dispersão dos judeus começou muitos séculos depois da queda da Cidade Santa; através de Tito, Sidon e outros portos espalharam-se por todos os recôncavos do Mediterrâneo – Atenas e Antioquia, Alexandria e Cartago, Roma e Marselha, e chegaram a Espanha. Em seguida a destruição do Templo a dispersão assumiu aspecto de migração em massa, e por ultimo o fluxo seguia duas correntes  - uma, ao longo do Danúbio e do Reno, e daí, mais tarde, para a Polônia e a Rússia; outra, rumo a Portugal e Espanha, com a conquista dos mouros [711 e.C]. Na Europa Central os judeus se distinguiram como mercadores e financistas; na Península absorveram o ‘lore’ filosófico, matemático e medico dos árabes e desenvolveram cultura própria nas grandes escolas de Cordova, Barcelona e Sevilha. Nesse trato do continente os judeus representaram durante os séculos doze e treze papel importantíssimo, no transmitir a antiga cultura do Oriente aos europeus ocidentais. Foi em Cordova que Moisés Maimonides [1135-1204], o maior físico dos tempos, escreveu o seu famoso comentário da Bíblia, Guia dos Perplexos; foi em Barcelona que Hasdai Cresças [1370-1430] lançou as heresias que abalaram o judaísmo.

Os judeus da Espanha floresceram e prosperaram até a conquista de Granada por Fernando, em 1492, e a final expulsão dos mouros. Perderam então a liberdade de que vinham gozando sob o domínio leniente do Islam: a Inquisição cai sobre eles com o dilema – batismo e pratica do cristianismo ou exílio e confisco dos bens. Não que a Igreja lhes fosse violentamente hostil – certos papas repetidamente protestaram contra as barbaridades da Inquisição; mas o rei da Espanha achava negocio encher seu tesouro com as riquezas lentamente acumuladas pelo povo advena. Quase ao mesmo tempo que Colombo descobria a América, Fernando descobria os judeus.

A grande maioria aceitou a menos cruel das alternativas e procurou em redor de si um lugar de refugio. Muitos fugiram por mar para Genova e outros portos da Itália; repelidos, recuaram para a costa da África onde inúmeros foram mortos e estripados – por causa das jóias que constava trazerem engolidas. Pequena quantidade localizou-se em Veneza. Outros financiaram a viagem de Colombo, um homem talvez da sua raça, na esperança de que o navegador lhes encontrasse uma pátria nova. Muitos embarcaram nos frágeis navios da época e se meteram pelo Atlântico, até encontrar na generosa Holanda abrigo e equidade. Entre estes estava uma família de judeus portugueses de nome Espinhosa.

Depois disso a Espanha decaiu e a Holanda prosperou. Os judeus construíram sua primeira sinagoga em Amsterdam, no ano de 1598; e quando, setenta e cinco anos mais tarde, construíram outra – a mais magnificante da Europa, os seus vizinhos cristãos os auxiliaram a financiar a empresa. Os judeus mostravam-se felizes, a julgarmos pelo aspecto eufórico dos mercadores e rabinos que Rembrandt imortalizou em suas telas. Mas lá pelo meio do século dezessete a calma foi perturbada por aguda controvérsia na sinagoga. Uriel da Costa, um apaixonado moço que havia caído sob a influencia cética da Renascença, escreveu um tratado onde atacava com vigor a crença em outra vida. Esta sua atitude não era contraria a velha doutrina judaica; mas a Sinagoga compeliu-o a retratar-se em publico, receosa de incorrer no desfavor de uma comunidade que recebera os judeus generosamente, mas que podia reagir com aspereza contra uma heresia que vinha ferir a verdadeira essência do cristianismo. A formula da retratação e da penitencia mandava que o paciente se deitasse na soleira da sinagoga para que todos os membros da congregação lhe passassem sobre o corpo. Humilhado a fundo, Uriel lançou uma denuncia terrível contra seus perseguidores e suicidou-se [*Gutzkow pôs com muito sucesso esta historia em drama].

Isto, em 1647. Por essa época Baruch Spinoza, “o maior judeus dos tempos modernos” [*Renan, Marc Aurele], era um menino de quinze anos e o mais querido estudante da sinagoga.

2] A educação de Spinoza
Foi esta odisséia dos judeus que fez dele irrevogavelmente, apesar de excomungado, um judeu. Embora seu pai fosse negociante prospero, o filho não sentiu nenhuma inclinação para essa carreira, preferindo gastar o tempo na sinagoga, a absorver a religião e a historia de sua raça. Era um estudante notável e já olhado pelos mais velhos como futuro luminar do judaísmo. Cedo passou da Bíblia para o estudo meticuloso do Talmud, e deste para os escritos de Maimonides, Levi Ben Gerson, Ibn Ezra e Hasdai Crescas; sua voracidade levou-o até a filosofia mística de Ibn Gebirol e as sutilizes cabalísticas de Moisés de Cordova.

Impressionou-o a identificação de Deus com o universo – idéias de Moises de Cordova; seguiu esta idéia em Bem Gerson, que ensinava a eternidade do mundo; e também em Hasdai Crescas, que admitia ser a matéria do universo o corpo de Deus. Em Maimonides achou uma analise favorável da doutrina de Averroes sobre a imortalidade impessoal; no Guia dos Perplexos, porém, encontrou mais perplexidade do que Rumo. O grande rabino propunha mais questões do que as explanava; e Spinoza ficou com as traduções e improbabilidades do Velho Testamento a lhe latejarem no cérebro, apesar das soluções dadas por Maimonides.

Os mais hábeis defensores da fé são os seus maiores inimigos, porque a excessiva sutileza engedra duvidas, e estimula o espírito da analise. Isso aconteceu a Spinoza ao ler Maimonides, e ainda mais ao ler os comentários de Ibn Ezra, no qual os problemas da velha fé são formulados mais diretamente, e muitas vezes abandonados como insolúveis. Quanto mais Spinoza meditava, mais as singelas certezas da velha fé se fundiam na duvida.

A curiosidade o levou a estudar o que os pensadores do mundo cristão haviam escrito sobre os grandes problemas de Deus e do destino humano. Para isso aprendeu latim com um mestre holandês, Van den Ende, e lançou-se a um campo mais largo de experiência e conhecimento. Seu novo professor era um tanto herético, analista de credos e governos, espírito audaz que deixou o remanso da biblioteca para juntar-se a uma conjura contra o rei da França, vindo a morrer no cadafalso em 1674. Van den Ende tinha uma linda filha que se tornou a rival do latim nas afeições de Spinoza; com tal estimulo até um rapaz hoje estudaria essa língua. Mas a rapariga não  tinha cérebro na altura de compreender Spinoza e logo que outro pretendente apareceu, cheio de presentes, abandonou-o. É de crer que foi isso o que o transformou em filosofo.

Seja como for, Spinoza senhoreou-se do latim e penetrou desassombrado no acervo do pensamento medieval europeu. Parece ter estudado Sócrates, Platão e Aristóteles; mas pendeu para os grandes atomistas, Demócrito, Epicuro e Lucrecio; os estóicos deixaram nele indelével marca. Estudou os filósofos escolásticos, dos quais tomou não só a terminologia como também o método geométrico de exposição por meio de axioma, definição, proporção, prova, escolio e corolário. Estudou Bruno [1548-1600], o magnífico rebelde cujo ardor ‘nem todas as neves do Cáucaso poderiam arrefecer’, sempre a mudar de país e de credo e, na ânsia de investigar e perquerir “incapaz de regressar pela porta de onde entrava”, até que a Inquisição o condenou a ser morto “o mais misericordiosamente possível e sem derrame de sangue” – isto é, queimado vivo. Que riqueza de idéias havia no cérebro desse romântico filho da Itália! A idéia central da unidade; a de que toda realidade é uma substancia – uma em origem e uma em causa; a de que Deus e esta unidade se confundem. Para Bruno, espírito e matéria eram unos; cada partícula da realidade se compunha inseparavelmente do físico e do psíquico. O objeto da filosofia, portanto, consistia em aprender a unidade na diversidade, em ver o espírito na matéria, em descobrir a síntese em que as contradições se fundem, em elevar-se ao supremo conhecimento da unidade universal que é o equivalente intelectual do amor de Deus. Cada qual destas idéias se integrou na estrutura intima do pensamento de Spinoza.

Finalmente foi influenciado por Descartes [1596-1650], pai, na moderna filosofia, da tradição subjetiva e idealística [como Bacon o foi da tradição objetiva e realista]. Para os seus seguidores franceses e para os seus inimigos ingleses, a noção central em Descartes era do primado da consciência, daí a proposição de que o espírito conhece a si mesmo mais direta e imediatamente do que pode conhecer qualquer outra coisa. O espírito conhece o “mundo externo” unicamente através das sensações e percepções que esse mundo externo lhe proporciona. Conseqüentemente, toda filosofia deve começar com o eu pensante individual. “Eu penso, logo sou” [Cogito, ergo sum].talvez houvesse algo do individualismo da Renascença neste ponto de partida; e o certo é que resultou numa cornucópia de conseqüências para ulteriores especulações.

A grande parada de epistemologia iria começar com Leibnitz, Locke, Berkeley, Hume e Kant, desfechando numa Guerra dos Cem Anos, que ao mesmo tempo estimulou e devastou a moderna filosofia.

Este lado do pensamento de Descartes não interessou Spinoza; ele não iria perder-se no labirinto da epistemologia [*Epistemologia significa, etimologicamente, a lógica [logos] da compreensão [episteme], isto é, a origem, natureza e valor do conhecimento]. O que o interessava no filosofo francês era a concepção de uma “substancia” homogênea em todas as formas de matéria e outra substancia homogênea em todas as formas de espírito; esta separação da realidade em duas substancias ultimas representava um desafio a paixão unificadora de Spinoza e agiu como semente fecunda sobre as acumulações do seu pensamento. O que o atraiu em Descartes foi também o desejo de submeter tudo no universo, exceto Deus e a alma, a lei mecânicas e matemáticas -  idéias que já vinham de Galileu e Leonardo, talvez como reflexo do desenvolvimento mecânico das cidades italianas. Dado o impulso inicial por Deus, dizia Descartes [repetindo Anaxágoras dois mil anos depois], tudo mais, na astronomia, na geologia e em todos os processos e desenvolvimentos não-mentais, pode ser explicado como partindo de uma substancia homogênea que existisse a principio sob forma desintegrada [a hipótese nebular de Laplace e Kant]; e todos os movimentos dos animais e do corpo humano se tornam movimento mecânico ou ação reflexa -  a circulação do sangue, por exemplo. Tudo no mundo e todos os corpos – é tudo maquina. Fora do mundo, porém, Deus; e dentro do corpo, a alma.

3]Excomunhão
Foram estes os antecedentes mentais do, na aparência calmo, mas internamente agitado moço que em 1656 [ele nascera em 1632] se viu intimado a comparecer perante os velhos da sinagoga para defender-se de heresias. Será certo que lhe perguntaram ser verdade que andava a propalar que o corpo de Deus era o mundo da matéria, que os anjos eram alucinações, que a alma não passava da vida e que o Velho Testamento nada dizia sobre a imortalidade?

Não podemos responder. Só sabemos que lhe foi oferecida uma unidade correspondente a 500 dólares em troca de manter-se, pelo menos na aparência, leal a sinagoga e a velha fé [*Graetz, History of the lews]. Spinoza recusou a oferta – e a 27 de julho de 1656 foi solenemente excomungado de acordo com o rito hebreu.

“Durante a leitura da excomunhão o gemer de uma grande tuba esmorecia a espaços, e as luzes, muito intensas no começo da cerimônia, iam-se extinguindo uma a uma até se apagarem todas – símbolo da extinção da vida espiritual no excomungado; por fim a congregação se retirava em trevas” [*Willis, Benedcit de Spinoza].

Van Vloten nos dá a formula usada nessa excomunhão:

Os chefes do Conselho Eclesiástico fazem publico que, já bem convencidos dos atos e opiniões erradas de Baruch Spinoza, procuraram por todos os meios e com varias promessas desvia-lo do mau caminho. Mas não conseguiram fazê-lo mudar de idéia; ao contrário, como se acham cada vez mais certos das horríveis heresias publicamente por ele confessadas, e diante da insolência com que tais heresias são difundidas, do que eram testemunho muitas pessoas de credito na presença do próprio dito Spinoza, ele as aceita como provadas. Feito o estudo da matéria pelo Conselho Eclesiástico, o mesmo resolve, como resolvido tem, que o dito Spinoza seja anatematizado e desligado do povo de Israel, e que a partir deste momento seja colocado em anátema com a seguinte maldição:
_Com assentimento dos anjos e santos nós anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch de Spinoza, com audiência da comunidade sagrada, em presença dos sagrados livros onde os seiscentos e treze preceitos estão escritos, pronunciando contra ele a maldição com que Elisha amaldiçoou os filhos e mais todas as maldições do Livro da Lei. Amaldiçoado seja de dia e amaldiçoado seja de noite; dormindo e acordado, indo e vindo. O Senhor que nunca o perdoe ou o receba; e que a ira do Senhor não cesse contra este homem e o carregue e todas as maldições do Livro da Lei e apague seu nome debaixo do céu e o afaste de todas as tribos de Israel, sobrecarregado com todas as maldições contidas no Livro da Lei – e possam todos que são obedientes ao Senhor ser salvo neste dia.
Por esta advertimos a todos que ninguém com ele deve ter contato por gesto ou palavra, nem por escrito; ninguém lhe deve prestar assistência, nem permanecer no mesmo teto que o abrigar, nem se aproximar dentro da distancia de quatro cúbitos, nem ler nada por ele citado ou escrito por sua mão.

Não sejamos precipitados em julgar os chefes da sinagoga; eles enfrentavam uma situação muito delicada. Certo que haviam de ter hesitado em agir tão intolerantes como a Inquisição que os expulsara da Espanha. Mas a gratidão dos judeus pela Holanda que os recebera exigia a excomunhão de um homem cujas duvidas vinham ferir em ponto vital o Cristianismo, tanto quanto o Judaísmo. O Protestantismo não era naquele tempo a filosofia liberal de hoje; as guerras de religião haviam arrastado ambos os partidos a se entrincheirarem ferozmente dentro dos respectivos credos, mais caros agora em conseqüência do sangue derramado. Que diriam as autoridades holandesas de uma comunidade judaica que lhes pagava a tolerância e a proteção produzindo na mesma época um Costa e um Spinoza? Além disso, a unanimidade religiosa parecia aos velhos o único meio de preservar o pequeno grupo judeu de Amsterdam, com uma unidade que mantivesse a sobrevivência judaica no mundo. Se eles estivessem em seu próprio país, sob leis próprias e com força habilitada a manter a coesão interna e o respeito externo, poderiam mostrar-se mais tolerantes; mas sua religião era o seu patriotismo e sua fé;  a sinagoga, o centro da vida social e política; e a Bíblia, cuja veracidade Spinoza impugnava, a verdadeira “pátria portátil” da raça dispersa. Natural que sob tais circunstancias considerassem a heresia como traição e a tolerância como suicídio.

Preferíamos talvez que eles arrostassem os riscos; mas é perigoso julgar fora do quadro do momento. Talvez Menasseh Bem Israel, chefe espiritual dos judeus de Amsterdam, pudesse encontrar alguma formula conciliatória dentro da qual a sinagoga e o filosofo coexistissem em paz; mas por esse tempo estava o grande rabino em Londres, convencendo Cromwell a abrir as portas da Inglaterra aos judeus. Os fados conspiravam para que Spinoza não pertencesse a um clan – e sim ao mundo.

4] Retiro e Morte
Spinoza recebeu a excomunhão com serena coragem, dizendo: “Não me compele a nada”. Mas isto era assobiar no escuro; na verdade o jovem estudante se viu amarga e dolorosamente só. Nada mais horrível do que a solidão; e poucas formas de solidão piores que o isolamento de um judeu no seu povo. Spinoza já havia sofrido com a perda da velha fé; arrancar do espírito aquelas raízes fora operação dolorosa que deixara fundos sinais. Se houvesse penetrado em outro grupo, abraçado alguma ortodoxia das que reúnem os homens como carneiros em busca do calor, poderia encontrar na situação de converso eminente algo do que perdera com a expulsão do clan. Mas Spinoza preferiu viver sozinho. Seu pai, que o olhara com a esperança da família, mandou-o embora de casa; sua irmã procurou lesá-lo de uma pequena herança [*Spinoza levou o caso aos tribunais; depois de ganhar a demanda desistiu da herança em favor da irmã]; seus amigos passaram a evitá-lo. Não admira que haja tão pouco humor em suas obras, como não admira que as vezes transpareça o seu amargor contra os Guardiões da Lei.

Os que desejam achar a causa dos milagres, e estudam as coisas da natureza como filósofos, em vez de se deslumbrarem diante delas como metecaptos, breve são tidos como ímpios e heréticos e como tais proclamados pelos que as massas adoram como interpretes da natureza e dos deuses. Porque estes homens sabem que quando a ignorância é posta de lado, cessa o deslumbramento -  único meio pelo qual sua autoridade é mantida [*Ética].

A experiência culminante veio logo depois da excomunhão. Certa noite ia ele pela rua quando um piedoso facínora lhe deu uma demonstração de sua teologia de faca em punho. Spinoza desviou-se rápido e escapou com um leve ferimento no pescoço. Concluiu que há pouca segurança no mundo para um filosofo e foi viver no calmo sótão de uma casa da estrada de Outerdek, perto de Amsterdam. Foi provavelmente nessa época que mudou o nome de Baruch para Benedito. Seus hospedeiros eram cristãos da seita menonita, e talvez por esse motivo puderam compreender o herético. Simpatizaram-se com o seu rosto triste [os que muito sofrem, em vez de amargos, fazem-se meigos], e ficavam deleitados quando ocasionalmente ele vinha a noite fumar cachimbo na sala, nivelando o seu espírito com o daquela boa gente. Spinoza começou a ganhar a vida no ensino de meninos na escola Van den Ende, e depois deu-se ao trabalho de polir lentes, como levado pela inclinação de lidar com material refrator. Havia aprendido a ótica durante sua vida entre os judeus, cuja tradição manda que cada estudante seja treinado em qualquer oficio manual não somente porque o estudo ou o professorado honesto raro permite ganhar a vida, como também pelo que disse Gamaliel: “Os homens instruídos que não adquirem um oficio acabam transformados em patifes”.

Cinco anos depois [1660] o hospedeiro mudou-se para Rhynsburg, perto de Leyden -  e Spinoza foi também. A casa que ocupou ainda existe, na rua que tem hoje seu nome. Foram anos de altas locubrações. Muitas vezes ficou em seu quarto dois ou três dias sem sair, não vendo a ninguém e com as modestas refeições lá mesmo tomadas. O trabalho de polimento dava-se estritamente para viver; Spinoza amava de mais a sabedoria para tornar-se um “homem bem sucedido”. Colerus, que o conheceu nessa casa, e com base no depoimento dos que com ele trataram pessoalmente escreveu breve historia de sua vida, diz: “Era muito cuidadoso em suas contas, que pagava de quatro em quatro meses, não despendendo nem mais nem menos do que podia despender anualmente. Costumava dizer as pessoas da casa que era como a serpente que forma um circulo reunindo a cauda a boca – para indicar que nada lhe ficava no fim do ano”. Mas vivia feliz na sua modéstia. A alguém que o aconselhou a confiar na revelação em vez de na razão, respondeu:”Ainda que não me venham os frutos que com a minha natural compreensão procuro, nem por isso fico menos contente; porque, perseguindo-os, sou feliz e passo meus dias na serenidade e na alegria, em vez de passá-los suspirando na tristeza”. “Se Napoleão tivesse a inteligência de Spinoza”, diz um grande sábio, “teria vivido em um sótão e escrito quatro livros” [*Anatole France:Mr Bergeret em Paris].

Aos retratos de Spinoza que chegaram até nós temos a acrescentar alguns traços de Colerus. “Era de mediana estatura. Feições regulares, pele um tanto morena, cabelos pretos e crespos, sobrancelhas negras e bastas, denunciando claramente a descendência de judeus portugueses. No trajar, muito descuidado, a ponto de quase confundir-se com os cidadãos da mais baixa classe. Um conselheiro de estado que veio vê-lo, encontrou-o em trajes bastante sórdidos; censurou-o por isso e ofereceu-lhe roupas novas. Spinoza retrucou que um homem não melhora com usar belas roupas, e acrescentou: “Não é razoável envolver o que nada vale em envoltório precioso” [*Pollok:Life and Philosophy of Spinoza]. A sua filosofia sartorial, entretanto, não era ascética. “Não é o desarranjo e o sórdido externo que nos faz sábios”, escreveu, porque o afetado desleixo pelo aspecto externo evidencia uma pobreza de espírito na qual a verdadeira sabedoria não pode encontrar abrigo”.

Foi durante os cinco anos passados em Rhynsburg que escreveu o pequeno ensaio sobre o Melhoramento do Intelecto [De Intellectus Emendatione], e a Etica Demonstrada Geometricamente [Ethica More Geométrico Demonstrata]. Esta ultima obra foi concluída em 1665; mas pode dez anos nenhuma tentativa fez para publicá-la. Em 1668 Adriano Koerbagh viu-se condenado a dez anos de prisão por ter impresso opiniões similares as de Spinoza – e morreu após dezoito meses de cárcere. Quando em 1675 Spinoza foi a Amsterdam “espalhou-se o rumor”, escreveu ele a seu amigo Oldenburg, “de que um livro meu ia aparecer para provar que Deus não existe. Esta noticia, pesa-me dizê-lo, foi por muita gente aceita como verdadeira. Certos teólogos [os autores prováveis do boato] aproveitaram-se para dar queixa contra mim. E havendo eu recebido de alguns amigos fieis, os quais também me asseguraram que os teólogos não desistiam de me por a mão em cima, determinei adiar a publicação do livro para melhor oportunidade”.

Somente depois da morte de Spinoza apareceu a Etica [1677], juntamente com um inconcluso tratado sobre a política [Tractatus Politicus] e o Tratado do Arco-Iris. Todas estas obras foram escritas em latim, porque era o latim então a língua universal da filosofia e da ciência. Um Breve Tratado sobre Deus e o Homem, escrito em holandês, foi descoberto por Van Vloten em 1852; aparentemente um esboço da Ética. Os únicos livros que publicou em vida foram Os Princípios da Filosofia Cartesiana [1663] e o Tratado Sobre a Religião e o Estado [Tractatus Theologico-Politicus], que apareceu anônimo em 1670. Imediatamente foi esta obra distinguida com a inclusão no Index Expurgatorius, tendo o curso vedado pelas autoridades civis; graças a essa assistência teve considerável circulação secreta, disfarçada como livro de medicina ou história. Incontáveis livros foram escritos para refutá-la; um deles considerava Spinoza “o pior ateu que ainda existiu sobre a face da terra”; Colerus fala de uma refutação como sendo um “tesouro de infinito valor que jamais perecerá” [*Pollok] – mas esta referencia é o único vestígio que resta de tal tesouro. Além desses castigos públicos Spinoza recebeu numerosas cartas que pretendiam convertê-lo; a de um seu amigo discípulo, Albert Burgh, que se passara para o catolicismo, merece ser citada como exemplo.

* V.declara que afinal encontrou a verdadeira filosofia. Mas como sabe que a sua filosofia é melhor que todas que já foram ensinadas no mundo e o são agora e serão no futuro? Deixando de parte o futuro, já examinou V. todas as filosofias antigas e modernas, professadas aqui, na Índia e no mundo inteiro? E supondo que as examinasse todas, como sabe que escolheu a melhor? Como se atreve a pôr-se acima dos patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, doutores e professores da Igreja? Miserável comida de vermes, como pode enfrentar a eterna sabedoria com essas inomináveis blasfêmias? Que fundamento tem a sua deplorável e maldita doutrina? Que diabólico orgulho o enche, para dar opinião sobre mistérios que os próprios católicos declaram incompreensíveis?

Ao que Spinoza respondeu:

*Você, que declara ter afinal encontrado a melhor religião, ou, antes, os melhores mestres nos quais firmar a credulidade, como sabe que são os melhores de quantos já tem ensinado a religião, ou a ensinam, ou a ensinarão no futuro? Já examinou V. todas as religiões, antigas e modernas, professadas aqui, na Índia e em todo o mundo? E supondo que devidamente as examinasse, como sabe que escolheu a melhor?

O suave filosofo sabia reagir quando queria.

Mas todas as cartas recebidas não eram assim. Muitas provinham de homens cultos e colocados em altas posições. Os correspondentes mais dignos de nota foram Henry Oldenburg, secretario da recém fundada Royal Society of England; Von Tschirnhaus, um jovem alemão, nobre e inventor; Huygnes, cientista holandês; Leibnitz, que o visitou em 1676; Louis Meyer, medico de Haia e Simon De Vries, rico mercador de Amsterdam. Esta ultimo admirava-o tanto que lhe pediu para aceitar um donativo correspondente a mil dólares. O filosofo recusou; mais tarde, ao fazer o testamento, quis deixar para Spinoza toda sua fortuna – mas o filosofo o dissuadiu, insistindo para que as riquezas passassem a um irmão de De Vries. Quando esse mercador morreu deixou uma anuidade correspondente a 250 dólares para ser paga ao filosofo, o qual recusou de novo dizendo: ”A natureza contenta-se com pouco – e não posso ser mais exigente que ela”; por fim, insistido, aceitou parte da renda – 150 dólares.

Outro amigo, Jan De Witt, magistrado da republica holandesa, dotou-o com uma anuidade correspondente a 50 dólares. O próprio Luiz XIV, finalmente lhe ofereceu larga pensão sob clausula de que lhe dedicaria o seu próximo livro. Delicadamente o filosofo recusou.

Para agradar amigos e correspondentes, Spinoza mudou-se em 1665 para Voorburg, subúrbio de Haia; e em 1670, para a própria Haia. Durante estes últimos anos ligou-se intimamente a De Witt, e quando De Witt e seu irmão foram brutalmente mortos na rua pela populaça, como o responsável da derrota das tropas holandesas pelas francesas em 1672, Spinoza rompeu em lagrimas e só compelido pela força deixou de repetir o gesto de Antonio, indo denunciar o crime no local em que fora cometido. Não muito depois o príncipe de Conde, na chefia do exercito francês invasor da Holanda, convidou-o a comparecer ao seu quartel general para receber uma pensão do rei da França e ser apresentado a vários admiradores. Spinoza, que era mais um “bom europeu” do que um holandês, não pôs objeção em aceitar o convite. Quando tornou para Haia, a noticia dessa visita já se tinha espalhado. Spinoza estava hospedado com Van den Spyck, o qual mostrou receio de ver sua casa assaltada. Spinoza acalmou-o dizendo: ”Posso facilmente livrar-me da pecha de traição; mas se o povo mostrar o menor intuito de molestar-me, ou atacar a casa, irei ao seu encontro embora me façam a mim o que fizeram a De Witt” [*Willis]. Quando o povo soube que Spinoza não passava de um filosofo, convenceu-se de que tratava de um ser inofensivo – e acalmou-se.

A vida de Spinoza, como vemos desses incidentes, não era tão reclusa e miserável como habitualmente se pensa. Vivia em segurança econômica, possuía amigos influentes, tomava interesse  na política e metera-se em aventuras que quase lhe custaram a vida. Que tivesse aberto o seu caminho apesar da excomunhão, e conquistado o respeito dos contemporâneos, é fato que se conclui da oferta que lhe foi feita em 1673 de uma cadeira na Universidade de Heidelberg; oferta em termos dos mais honrosos e promissores:”a mais completa liberdade de pensamento, que Sua Alteza está certa não será abusada para combalir a religião estabelecida e o estado”. Spinoza respondeu de um modo característico:

Honrado Senhor: Tivesse sido meu desejo professar numa faculdade e esse desejo seria agora amplamente satisfeito com a aceitação do lugar que Sua Alteza Sereníssima, o Príncipe Palatino, me deu a honra de oferecer, com a nota muito valiosa aos meus olhos de liberdade de palavra. Mas não sei que preciosos limites essa liberdade de filosofar possa ter de modo a não interferir com a religião estabelecida e o estado...Vêde, pois, honrado senhor, que não olho para posição mais alta que a de que gozo; e que por amor a paz, que de outro modo não estou certo de conseguir; tenho de abster-me de penetrar no professorado público.

O derradeiro capitulo fechou-se em 1677. Spinoza estava apenas com quarenta e quatro anos de idade e seus amigos sabiam que chegara ao fim. Provinha de ascendentes tuberculosos; e o confinamento em que vivera bem como a atmosfera poenta em que trabalhara não eram de molde a contrabater as desvantagens herdadas. Sua respiração tornava-se cada vez mais difícil; os pulmões esvaiam-se reconciliou-se com o fim prematuro, apenas receando que o livro, ao qual consagrara a vida e que não pudera publicar, fosse perdido ou destruído um dia. Fechou o manuscrito numa escrivaninha e deu a chave ao seu hospedador, pedindo-lhe que a entregasse depois de sua morte a Jan Rieuwertz, editor de Amsterdam.

Num domingo, 20 de fevereiro, a família em cuja casa morava foi a igreja, nada vendo de grave no estado do hospede. Ficara com ele o dr. Meyer. Quando voltaram, estava o filosofo já morto, nos braços desse amigo. Muita gente lhe guardou o corpo, porque os simples o amavam pela sua suavidade, como os cultos o amavam pela sua sabedoria. Filósofos e magistrados vieram tomar parte no acompanhamento a morada derradeira – e homens de vários credos encontraram-se ao pé do tumulo.

Nietzsche diz em qualquer parte que o ultimo cristão morrera na Cruz. Tinha-se esquecido de Spinoza.  

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