sexta-feira, 18 de março de 2011

Francis Bacon _ Ensaios

Sua ascensão ao poder parecia realizar o sonho platônica de um filosofo-rei. Pois, paralelamente a sua elevação ao poder político, Bacon subira as culminações da filosofia. É quase incrível que o vasto saber e a atividade literária daquele homem fossem apenas incidentes e distrações de uma tumultuosa carreira política. Sua divisa era que melhor se vive quando se vive ocultamente – bene vixit qui bene latuit. Ele não podia saber precisamente se preferia a vida contemplativa ou a vida ativa. Aspirava a ser filosofo e estadista, como Sêneca, embora suspeitasse que esta dupla direção de sua vida reduziria seu alcance e suas realizações. ”É difícil saber-se o que mais prejudica ou embaraça o espírito”,escreve ele [*Valerius Terminatus, ad fin]., “se a contemplação associada a vida ativa ou se a exclusiva contemplação em um retiro. Ele compreendia que o estudo não podia ser por si um fim ou a sabedoria, e que o saber não aplicado em ação constituía pálida vaidade acadêmica. “Empregar muito tempo em estudos é negligencia; utilizar-se em excesso deles como atavio do espírito é afetação; e formar juízo somente com suas regras é ter alma de escolástico...Os homens de habilidades praticas condenam os estudos; os simples admiram-nos e os sensatos os utilizam; pois os estudos não nos ensinam os meios de usá-los; existe acima deles uma sabedoria adquirida pela observação” [*”Sobre os Estudos”].Esta é uma nota nova que assinala o fim do escolasticismo – isto é, o divorcio entre o conhecimento e seu uso e a observação -  e coloca a experiência e seus resultados no trono da filosofia inglesa, fazendo-a culminar no pragmatismo. Não que Bacon por um só momento cessasse de amar os livros e a meditação; em palavras que lembram Sócrates ele escreve:”Sem a filosofia eu não desejaria viver” [*Dedicatória de A Sabedoria dos Antigos]; e descreve-se como sendo, em ultima análise, “um homem naturalmente mais fadado para as letras do que para qualquer outra coisa, e conduzido pelo destino, contra a vocação de seu gênio” [isto é, caráter], “para a vida ativa” [*De Aumentis, VIII,3]. Sua primeira obra publicada esteve a pique de receber o nome de “Elogio da Ciência” [1592]; seu entusiasmo pela filosofia obriga-nos a uma citação:

Meu elogio seria endereçado ao próprio espírito. O espírito é o homem. Não são os prazeres dos sentimentos maiores que os prazeres dos sentidos, e não são os prazeres da inteligência maiores que os prazeres do sentimentos? Prazer verdadeiro não é somente o que não produz saciedade? Não é apenas o saber que acalma todas as turbações do espírito? Quantas coisas imaginamos não existirem e, no entanto, existem? Quantas estimamos em mais do que realmente valem? Estas imaginações vãs, estas desproporcionadas avaliações são as nuvens do erro que se convertem em tempestade de perturbações. Existirá felicidade igual a do humano elevar-se sobre a confusão das coisas, donde não só pode descortinar a ordem da natureza como também os erros dos homens? Esse descortino, a um tempo, não deleita e origina descobertas? Não produz benefícios, além do contentamento que traz? De lá não avistaremos por igual as riquezas e belezas da natureza? È a verdade estéril? Não poderemos, utilizando-a, produzir efeitos dignos dela e assim dotar de infinito conforto a vida humana?

Sua mais bela produção literária, os Ensaios [1597-1623], mostram-no ainda hesitante em entre dois amores – a política e a filosofia. No “Ensaio sobre a Honra e a Reputação” ele concede todos os graus da honra as realizações políticas e militares e nenhum as literárias ou filosóficas. Mas no ensaio “Sobre a Verdade” escreve: “A investigação da verdade, que é o amá-la ou requestá-la; o conhecimento da verdade, que é o dar-lhe louvores; e a crença na verdade, que é o gozá-la – constituem o soberano bem da natureza. Nos livros conversamos os sábios, assim como na ação conversamos os néscios”. Isto, se soubermos escolher nossos livros. “Alguns são para serem provados”, diz um celebre fragmento, “outros para serem engolidos e poucos para serem mastigados e digeridos”; todos estes grupos são, sem duvida, parte infintesimal das cataratas de tinta com que o mundo é diariamente alagado, envenenado e afogado.

Sem duvida os Ensaios deverão incluir-se entre os poucos livros merecedores de ser mastigado e digeridos. Raro achareis iguaria tão rescendente e bem servida e em tão pequeno prato. Bacon detesta o acumular de frases e o desperdício de palavras inúteis; oferece-nos infinitas riquezas em pequenas sentenças; cada ensaio fornece em uma pagina ou duas a essência destilada das reflexões de um espírito poderoso sobre algum dos grandes problemas da vida. Difícil dizer-se o que é mais excelente: se a matéria ou a forma, pois sua linguagem na prosa é tão perfeita como a de Shakespeare no verso. Lembra o estilo compacto de Tácito, compacto, mas aprimorado; e, em verdade, sua concisão é devida em parte a uma hábil adaptação do idioma a frasear latinos. Mas a sua riqueza de metáforas é caracteristicamente elizabetana e reflete a pletora da Renascença; nenhum escrito na literatura inglesa mostra-se tão fértil em comparações fecundas e substanciosas. A prodigalidade de ornatos é o único defeito do estilo de Bacon: as infindáveis metáforas, alegorias e alusões caem como vergastadas em nosso nervos, deixando-os, por fim, exaustos. Os Ensaios são um alimento tão rico quanto pesado, não podendo por isso ser digeridos em grande quantidade de uma assentada; mas tomados em doses de quatro ou cinco cada vez, constituem o mais fino alimento intelectual da língua inglesa.

Que extratos citaremos deste extrato da sabedoria? Talvez o melhor ponto de partida e o mais frisante desvio da filosofia medieval seja a franca aceitação, por Bacon, da moral epicurista. “Aquela progressão filosófica – não uses o que podes não querer e não queiras o que podes não recear – parece indicar um espírito fraco, desconfiado e timorato. E a verdade é que a maioria das doutrinas dos filósofos parece conter muita desconfiança e preocupar-se mais com a humanidade do que o requer a ordem natural das coisas. É assim que aumentam o medo da morte com os remédios que fornecem contra ela; pois, tornando eles a vida do homem pouco mais do que uma preparação para a morte, é impossível que o inimigo deixe de figurar-se terrível, uma vez que não tem fim as precauções para defender-nos contra ele.” [*Progresso da Ciência, VII, 2. Citando aqui certos trechos deste livro, evitaremos repetições ao referirmo-nos a outras obras].

Nada podia ser tão prejudicial a saúde com a repressão estóica do desejo; que vale prolongar-se uma vida que a apatia transformou em morte antecipada? E, além disso, é uma filosofia impraticável, pois o instinto se rebelará. “A natureza fica freqüentemente encoberta; as vezes vence; raro é destruída. Forçar a natureza é tornar mais violenta a reação; a doutrina e as exortações a fazem menos importuna; mas só o habito a modifica ou vence...Que o homem, todavia, não confie muito na vitória sobre a natureza, pos que esta, embora se conserve sepulta muito tempo, pode ressurgir conforme a ocasião ou tentação. Podemo-la comparar com a donzela da fabula de Esopo, que era gata metamorfoseada em mulher; conservou-se sentada corretamente a mesa até o momento em que viu um rato entrar. Por isso devemos ou evitar completamente as ocasiões, ou procurá-las com freqüência -  para nos abalarem menos” [*Da Natureza dos Homens]. Bacon entende, em verdade, que tanto se deve habituar o corpo aos excessos como as privações:do contrário, até uma intemperança ocasional pode prejudicá-lo. [Do mesmo modo, quem se habituou a certa alimentação, sente facilmente perturbações orgânicas quando, por esquecimento ou pela necessidade, deixa de tê-la]. Além disso “antes a variedade de prazeres do que o excesso”, pois “a resistência juvenil esconde o efeito dos excessos, o qual irá revelar-se mais tarde” [*Dos Cuidados com a Saúde];na maturidade o homem paga o que fez na mocidade. Uma boa estrada para levar a saúde é um jardim; Bacon concorda com a afirmação do autor do Gênesis, de que “o Todo-Poderoso plantou primeiro um jardim”; e com Voltaire, em que devemos cultivar nossa horta.

A filosofia moral dos Ensaios sabe mais a Machiavel do que ao cristianismo ao qual Bacon fez astutamente muitas reverencias. “Precisamos apegar-nos a Machiavel e a escritores dessa espécie, que abertamente e sem mascaras expõem o que os homens realmente fazem e não o que deveriam fazer; pois é impossível reunir a sabedoria da serpente a inocência da pomba, sem um prévio conhecimento do mal; do contrario a virtude, não guardada, se expõe a riscos” [*Sobre a Bondade]. ”Os Italianos tem um provérbio que diz em sua rudeza: Tanto buon Che val niente” – é tão bom que nada vale.

Bacon Poe de acordo sua teoria e a pratica, e recomenda uma judiciosa mistura de dissimulação e honestidade, a qual, como uma liga, tornará, aos metais mais preciosos e brandos, capazes de maior duração. Ele quer uma experiência rica e variada, que faça conhecer tudo o que amplie, aprofunde, vigoriza ou aguce o espírito. Não admira a vida meramente contemplativa; a exemplo de Goethe, despreza o saber que não conduz a ação; “os homens deveriam saber que no teatro da vida humana só os deuses e os anjos podem ser espectadores” [*Progresso da Ciência, VIII,1].

Sua religião é patrioticamente análoga a do rei. Embora mais uma vez acusado de ateísmo e de que toda a tendência de sua filosofia era profana e racionalista, ele faz uma eloqüente e aparentemente sincera reprovação da descrença. “Eu creria, de preferência, em todas as fabulas da lenda, do Talmud e do Alcorão, do que na não existência de um espírito a dirigir a fabrica deste universo...Um pouco de filosofia inclina o espírito ao ateísmo porém maior profundeza o reconduz a religião; porque quem olha destacadamente as causas segundas, pode algumas vezes não passar delas, deixando de ir além; mas quem lhes contemplar o encadeamento, remonta até a Providencia e a Divindade” [*Sobre o Ateísmo]. A indiferença religiosa é devida a multiplicidade de divisões na religião. “As causas do ateísmo são as cisões em religião, se forem muitas;  pois com uma ou outra cisão recrudesce o zelo das facções contrárias, mas muitas geram o ateísmo...E também os tempos ricos em saber, principalmente havendo paz e prosperidade, pois as perturbações da ordem e a adversidade fazem os espíritos inclinar-se mais para a religião” [*Idem].

Mas o valor de Bacon reside menos na teologia e na ética do que na psicologia. É um analista seguro da natureza humana e dispara certeiras setas nos corações. Nos mais sovados assuntos é renovadamente original. “No primeiro dia do casamento um homem torna-se espiritualmente sete anos mais velho” [*Carta a Lord Brugley, 1606]. Vê-se amiúde que os maus maridos tem mulheres boas”. [Bacon era uma exceção]. A vida do celibato é de conveniência aos clérigos, pois a caridade regará o chão quando primeiro é preciso encher um poço...Quem tem mulher e filhos está como reféns dados a fortuna, porquanto mulher e filhos servem de empeços para as grandes empresas, quer da virtude, quer do mal. [*Sore o casamento e o Celibato. Contrasta com a frase mais apreciada de Shakespeare:”A cada poder dá o amor um duplo poder”.

Perece que o árduo trabalho de Bacon não lhe dava tempo para o amor e talvez não conhecesse o amor em toda a sua profundeza...Nunca o homem orgulhoso pensa tão absurdamente bem de si próprio, como o enamorado pensa do objeto amado...Podereis observar que entre todas as pessoas eminentes e dignas [das quais haja antigas ou recentes memórias] a nenhuma o amor levou até a loucura, o que prova que os grandes espíritos e os grandes empreendimentos mantêm a distancia essa fraqueza” [*Sobre o amor].

Ele avalia a amizade em mais que o amor, mau grado possa também mostra-se cético no respeitante a ela.”Pouca amizade há no mundo e menos ainda entre os iguais, que estão habituados a ser homenageados. A que existe é entre superiores e inferiores, cujas sortes dependam uma da outra...O principal fruto da amizade é aliviar e descarregar os corações cheios em excesso de toda a espécie de paixões”. Um amigo é um ouvido. “Os que não tem amigos para com eles se expandirem são canibais de seus próprios corações...Quem tem o espírito atulhado de muitos pensamentos sentirá mais lúcida e vigorosa a inteligência comunicando-se e discorrendo com outrem; desenvolverá mais facilmente as idéias e as disporá com mais ordem e verá como se mostram ao serem vasadas em palavras; enfim, sentir-se-á mais inteligente do que de costume e ganhará mais com o expandir-se uma hora do que com um dia de meditação” [*Sobre os Companheiros e Amigos:Sobre a Amizade]. 

No ensaio “Sobre a Mocidade e a Idade Adulta” ele condensa um livro em um parágrafo. “A aptidão dos jovens é mais para inventar do que para julgar, mais para a execução do que para deliberar e mais para projetos novos de que para trabalhos já definidos; pois a experiência da idade adulta dirige-se a si própria no que é de seu conhecimento; mas desnorteia-se em se tratando de coisas novas...Os moços, no agir, abarcam mais do que podem segurar e agitam mais coisas do que as que podem aquietar; precipitam-se para o fim sem refletir nos meios e sem graduar o impulso; obedecem absurdamente a alguns poucos princípios tomados ao acaso; não se tem de inovar, o que acarreta inconvenientes não previstos...Os homens de idade põem muitas objeções em tudo, resolvem mui demoradamente, aventuram-se pouco, arrependem-se cedo  e raro realizam plenamente suas empresas, contentando-se com resultados mesquinhos. Sem duvida é um bem utilizá-los a uns e outros conjuntamente... porquanto suas qualidades respectivas poderão corrigir-lhes mutuamente os defeitos”. Ele pensa, contudo, que a juventude e a meninice poderão investir-se de excessiva liberdade e assim desenvolver-se tumultuarias e imprestáveis. “Escolham os pais temporariamente as profissões ou carreiras dos filhos, pois em pequenos são mais maleáveis; e não tomem muito a sério o que julgam ser a vocação dos filhos, supondo que por si eles tomarão resolução melhor do que a que os pais tenham em mente. É certo que, se as tendências ou aptidões dos filhos forem extraordinárias, será conveniente não as contrariar; mas geralmente é bom o preceito dos pitagoricos: “Optimum lege, suave et facile iluud faciete consuentudo” – escolhe o melhor; o hábito o tornará agradável e fácil [*Sobre os Pais e os Filhos]. Pois o “hábito é o principal Corregedor da vida do homem” [*Sobre os Costumes].

A política dos Ensaios prega um conservantismo natural em quem aspirava ao governo. Bacon desejava que existisse um Bacon desejava que existisse um forte poder central. A monarquia é a melhor forma de governo, e em regra a eficiência do estado depende da concentração do poder. “Existem três pontos a considerar na função pratica do governo: a preparação; a discussão ou exame; e a perfeição” [ou execução]. “Do que se conclui que, se desejardes diligencia, deixai somente o segundo ponto aos cuidados de muitos, e confiai a poucos o primeiro e o ultimo” [*Sobre a Diligencia].

É militarista confesso; lastima o desenvolvimento da industria que torna que torna os homens inaptos para a guerra, e bem assim a prolongada paz, por adormecer a belicosidade. Não obstante, reconhece a importância das matérias primas: “Solon disse a Creso (quando Creso, por ostentação, lhe mostrava seu ouro): - Senhor, se aparecer outro rei que tenha melhor ferro que o vosso, ele será o dono de todo este ouro” [*Sobre a Verdadeira Grandeza dos Reinos].

Bem como Aristóteles, deu alguns conselhos para se evitarem revoluções: “O meio mais seguro de evitarem sedições...é eliminar o material que as possa fazer lavrar; pois se houver lenha preparada, de qualquer lado pode vir a faísca que lhe ateará fogo...Não se segue que o proibirem-se as discussões com demasiada severidade possa obviar rebeliões; desprezá-las é as vezes o melhor meio de as reprimir, e querer atalhá-las é dar-lhes grande incentivo...É de duas espécies o material das sedições: pobreza e descontentamento...As causas das sedições são: inovação em religião; modificação das leis e costumes; supressão dos privilégios; estado geral de opressão; ocupação de altos cargos por pessoas indignas e adventícias; carestia geral; soldados desincorporados; facções reduzidas ao desespero; e tudo aquilo que, molestando o povo, o reúne em uma causa comum”. O essencial para os chefes, portanto, é dividir os inimigos e reunir os amigos. “Geralmente, o dividir e enfraquecer todas as facções...contrarias ao governo e mantê-las separadas umas das outras, ou com menos confiança recíproca, não é dos piores remédios, pois seria de desesperar, se entre os solidários com o governo reinassem discórdia e cisões, enquanto os adversários se mostrassem perfeitamente unidos”.[*Sobre as Sedições e Outras Perturbações da Ordem].

A melhor receita para se evitarem resoluções é a distribuição eqüitativa da riqueza: ”O dinheiro é semelhante ao esterco – só é bom quando muito espalhado [*Idem]. Mas isto não implica socialismo ou mesmo democracia; Bacon não confia no povo, ao qual, em seu tempo, a educação era completamente inacessível; “a mais baixa de todas as lisonjas é a lisonja do povo comum” [*Em Nichol:II,149];e Phocion compreendeu-o bem, porque, como a multidão o aplaudisse, perguntou: -“Que asneira eu disse?” [*Progresso da Ciência, VI,3].O que Bacon deseja é, primeiro, uma casta rural de pequenos lavradores proprietários; depois, uma aristocracia para a administração; e, acima de tudo, um filósofo-rei. “Não há exemplo de uma nação não prosperar quando os governantes são sábios” [*Idem]. Ele mencionou Sêneca, Antonio Pio e Marco Aurélio; e sua esperança era que ao nome destes a posteridade acrescentasse o dele próprio.

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