quarta-feira, 31 de março de 2010

Fundamentos Filosóficos da Consciência Cósmica


Apresentamos neste ensaio introdutório aos fundamentos filosóficos da Consciência Cósmica uma proposta de tese unificadora de princípios e conceitos de três teorias independentes, relativas à natureza do ‘eu’ e sua associação à ’consciência universal’. O presente artigo está dividido em duas seções: Teologia e Psicologia Transcendental.

Iniciamos a partir da seguinte questão básica: qual é o objetivo da experiência psíquica da Consciência Cósmica?

TEOLOGIA
Em síntese, é a percepção plena do EU para com o Absoluto. Essa percepção e essa consciência, associadas, são denominadas ‘iluminação psíquica’. A iluminação [abhsiambodhi] é o conhecimento da consciência universal. Esse não é um conhecimento no sentido espistemológico do termo; trata-se de um conhecimento sem conteúdo e, portanto, de uma experiência incomunicável através da palavra. Pode-se estar e não estar, simultaneamente, nesse estado.

A iluminação é obtida por meio de um estado intermediário entre a fase objetiva e fase subconsciente da mente, no qual se manifesta a consciência pura [ou integrada], onde não existem pensamentos. Esse estado intermediário ou intervalo ocorre quando a mente interromper suas funções em conseqüência de:obstrução da atividade perceptivo-sensorial, conjugada com a interrupção dos processos de cognição e linguagem, e a ausência de impressões mentais subconscientes. Advindo portanto uma condição transcendente à ‘intuição intelectual’ caracterizada pelo aniquilamento da mente objetiva, que corresponde à total extinção da individualidade ou eu objetivo.

O ‘eu interior’, como um ser unificado, é em essência equivalente ao estado de ‘nirvana’ ou [‘wou-wei’], que consiste no estado negativo de ausência de mente [vazio absoluto] ou de não ação. Considerado no sentido de que o ser deve preceder ao agir – ‘agere sequitur esse’. O nirvana é a identificação da consciência individual do Eu com a Consciência universal.

No bramanismo, com efeito, o EU [atman] e o Real [Brahman], são manifestações diferenciadas do ser Absoluto; e no budismo esse conceito se inscreve no ‘indeterminado That’ e no ‘Uno invariável [Vignaptimatra], ‘eterna consciencia’, e também no vazio de ‘Nagarjuna’. Nas escrituras em pali [pitacas Sutta e Abhidhamma] do budismo, o Absoluto é definido como o conhecimento do Vazio [sunya-vada], ou o Caminho Médio [majjima patipada], segundo o qual ‘o universo não é nem real nem irreal, nem coisa alguma’ – essa doutrina é denominada a perfeita sabedoria [prajnaparamita]. Fazemos a exposição, a seguir,m da tese da verdade dupla, fundamentada na prajanparamita e descrita pelo grande mestre chinês Zhizang [Tche-tsant, 549-623 d.C], da escola Caminho Médio, ap.:

1º_ “As pessoas comuns consideram todas as coisas como tendo uma existência real [“yu” ou “yéu”] e ignoram que em verdade elas não existem e que há apenas o não-existente [“wu”]. Mas, dizer que elas não existem também é falso, pois elas existem de certa forma. Deve-se admitir que as coisas não são nem ‘yu’ nem ‘wu’;

2º_ “Dizer que as coisas não são nem ‘yu’ nem ‘wu’ continua sendo uma afirmação incompleta. A verdade absoluta é que as coisas não são nem ‘yu’ nem ‘wu’, nem ‘não-yu’ nem ‘não-wu’. Enfim, nada deve ser negado ou afirmado, a verdade, por conseguinte, está na dialética dos dois, para além de qualquer julgamento conceitual;”

A obra intitulada “Corpus Areopagiticum”, traduzida por Scotus Erígena e atribuída a Dionísio o Aeropagita, mas que data do século IV d.C., apresenta Deus, o Absoluto, como transcendente à razão, ao intelecto e ao ser. Reduzindo-o a uma ‘abstração total de que nada lhe pode ser predicável – a abstração de tudo o que existe, e Deus é nada em nada”; inexprimível e incognoscível. O neoplatonismo de Plotino, estabelece que Absoluto metafísico, transcendente às categorias do conhecimento do ser, é fonte, por intermédio de emanações do “Nous”, a Inteligência Universal, da qual é derivado o ‘Logos’ a Lei Natural.

A base ontológica e epistemológica dessa linha diretriz de pensamento filosófico, remonta à obra “Sobre a Natureza e o não-ser’, do sofista grego Górgias, que expõe as contradições [antinomias insolúveis] inerentes à noção eleática de Ser [ser absoluto, idêntico ao pensar e ao exprimir], mostrando que, mesmo se ele existisse, não poderia ser conhecido nem expresso.

Observa-se, inicialmente, uma compatibilidade da filosofia búdica, conforme as obras supra-referidas, com a evolução dessa metafísica no ocidente, verificando-se uma área de convergência fundamental sob este ângulo de observação. A convergência está na possibilidade de existência do Absoluto, i.e., o budismo pretende postular sua ‘atualidade’ a nível de transcendência racional, id.q., conjecturar a indeterminação da natureza de sua essência [a Coisa em si] de modo semelhante ao ‘idealismo critico’ considerando, contudo, o ‘número’ [a essência absoluta no sentido denotativo de eqüidade] como ‘mônada universal’, ou seja, unidade invariante no tempo e no espaço, que implica numa estrutura ontológica. E, simultaneamente, como fenômeno-existência:”consciência cósmica”, num estado não-imanente. Outra analogia pode ser estabelecida relativamente a esse estado interativo: a teoria do “Pensamento do Pensamento”, do filósofo grego Aristóteles; o pensamento que pensa a si próprio, descrito como Deus.

A metafísica budista é, não obstante, compatível com a proposição sofisticada citada anteriormente. Sob o aspecto de que o Absoluto não é pensável nem dizível, aproximando-se, em decorrência, dessa forma de concebê-lo, da filosofia antiga ocidental. Nessa caso, a possibilidade de obter o seu conhecimento está restrita ao estado de intuição intelectual e iluminação psíquica.

PSICOLOGIA TRANSCENDENTAL
O ‘eu’ objetivo é uma realidade aparente e relativa, assim como o meio circunscrito à consciência, que determina o fenômeno-existência. Por conseguinte, não existe substância imutável, eterna, no espaço-tempo. A percepção-sensorial indica, nesse domínio finito, que toda matéria [e energia] está em perpétua transformação. Em outras palavras, essa é a resposta à seguinte questão: ‘se o meio fenomenológico circunscrito interromper sua existência perceptível, não subsistirá uma espécie de ‘inércia absoluta’, vazia e imóvel?

E, consoante com o esquema apresentado na primeira parte deste artigo, o verdadeiro ‘eu interior’ está inserido num ‘continuum’ de consciência cósmica.

A escola filosófica chinesa denominada ‘Nada além da Consciência’ elaborou um sistema filosófico para demonstrar essa teoria psicológica. Sistema esse similar à teoria do idealismo subjetivista de Hume. Segundo esse sistema,o estudo psíquicos pode ser classificado em oito níveis de consciência:

_ do 1º ao 5º as cinco percepções sensoriais, através dos sentidos objetivos, e.g., da visão, audição, tato, etc.,]

_ 6º a consciência objetiva, associada e interagindo com as cinco percepções e as percepções internas, e.g., o pensamento objetivo-concreto;

_ 7º a consciência subjetivo-reflexiva, o ‘eu’ interior consciente, e.g., a capacidade de linguagem e a inteligência racional;

_ 8º a consciência impessoal-universal, denominada ‘consciência do mais profundo’; o ‘eu’ consciente com as respectivas faculdades d percepção objetiva é derivado desse nível de ‘consciência psíquica’. Acrescente-se também que nesse grau de consciência são alocadas no registro de memória as impressões da experiência psíquica de caráter introspectivo e as noções intelectuais recebidas, organizadas perceptivelmente.

O ‘eu’ é descrito, portanto, como um conjunto de fenômenos perceptivo-conceptíveis que não tem substância própria.

De acordo com a concepção búdica: ‘o eu é vazio’ – ‘tudo é consciência’, as consciências individuais são manifestações da consciência universal. É possível formular a partir dessa asserção uma fundamentação psicológica do ‘espectro de estados da consciência psíquica’.

Essa formulação teórica proposta está diretamente relacionada e é complementar a duas teorias independentes – o ‘pan-psiquismo’ e a teoria ‘relativa da mente’, que apresentam respectivamente as seguintes doutrinas acerca da natureza do eu:

1ª _ Existe de modo subjacente a toda natureza uma realidade psíquica; logo, todos os seres ou coisas do universo são em essência fenômenos de ordem psíquica;

2ª _ A mente não é uma substância material ou uma força de qualquer natureza, sendo entretanto, um ‘sistema integrado’, constituído pelos sistemas nervosos central e autônomo numa primeira fase, e pelo meio exterior em escala macroscópica e em ordem microfísica, simultaneamente interagindo entre si.

A consciência consiste, então, conforme essa conceptualização, em uma designação aplicada a uma função receptora, determinando, por conseqüência desse inter-relacionamento, ‘variações de consciência’ no espectro de estados, cujo grau mais elevado nesse domínio [ou escala de atividade] e processo de interação é a ‘auto-consciência’.
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[Texto de Garibaldi Monteiro Sarmento]

terça-feira, 30 de março de 2010

O Enfoque Holístico


A palavra holístico vem de ‘holos’ ou totalidade. Ela se refere a um modo de compreender a realidade em função de totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas a unidades menores. Este enfoque pretende superar a visão que nos legaram os pioneiros da Ciência, caracterizada pelo reducionismo [redução dos fenômenos às suas partes ou componentes básicos] e pelo mecanicismo [todos os fenômenos podem ser explicados mecanicamente] e substituí-la por outra percepção, centrada no expansionismo [dar ênfase ao todo, sem descuidar as partes],na abordagem teleológica[ há propósitos definidos por trás das coisas e não apenas a força cega do acaso] e na síntese [re-laboração do Todo, completando-o pelo conhecimento das partes]. Por sua vez, ‘holon’ significa sistemas ou subsistemas que agem simultaneamente como ‘todo’ e ‘partes’. Na segunda parte deste artigo será dado um esclarecimento maior.

Duas áreas fecundas em relação com o enfoque ‘holítico’ são a Física subatômica e a Ecologia. Vejamo-las separadamente.

A Física, desde o alvorecer do século XX e através de gênios como Einstei, Max Born, Börh e outros, submeteu o átomo e as partículas atômicas a uma profunda exploração, que inicialmente os levou a situações de perplexidade insuportável, onde estranhas e inesperadas realidades pulverizaram a visão prevalecente na época [e que ainda hoje vigora em outras áreas cientificas]. Isto nunca tinha acontecido antes. O fato era que, apesar de seus experimentos serem muito bem planejados e supersofisticados em imensos aceleradores de partículas, as respostas que eles obtinham às perguntas que faziam à natureza eram paradoxais. E quanto maior o cuidado na elaboração dos experimentos, maior o paradoxo.

Depois de muitos sofrimentos, lá por 1920 é que eles descobriram o motivo de ocorrências tão estranhas. E o motivo era que a visão do mundo que funcionava muito bem a nível macroscópico [e ainda microscópico] não funcionava a nível subatômico. De modo que os conceitos existentes sobre tempo, espaço e matéria se mostraram inaplicáveis. Por exemplo: até essa época achava-se que os átomos eram compostos de um núcleo sólido - como bolinhas de gude – assim como os elétrons, só que estes eram muito menores. Mas a teoria quântica deixou bem claro que as partículas subatômicas não se parecem em nada com os objetos sólidos da Física clássica ou aquelas da vida cotidiana.

As novas descobertas mostraram que as partículas subatômicas são muito abstratas e têm comportamento dual. Isto é realmente estranho e ambíguo [para a visão antiga]: um elétron ou um fóton não são nem partícula nem onda, mas podem aparecer como uma ou outra. Isto foi duro de engolir pelos cientistas de ferrenha formação mecanicista, mas acabou sendo compreendido que esses ‘elementos’ não possuem propriedades próprias, inerentes, e sim dependem do ambiente com o qual interagem.

Ou seja, as partículas subatômicas não são ‘coisas’, e sim ‘interconexões entre as coisas’. Dessa forma a Física moderna acaba revelando a unicidade básica do Universo e assim a Natureza se apresenta como uma teia complicada de relações entre as várias partes de um Todo Unificado.

Analisando isto desde um ponto de vista holístico, percebe-se a existência de um Holon Supremo, Deus [o Todo unificado] que pode se apresentar [e se apresenta] em forma aparentemente cada vez mais diversificada à medida que descemos na escala dos planos da consciência. Essa escala pode ser representada pela Hierarquia Celestial ou Pela Árvore Sefirotal, em cujo pe se desenvolve Malkuth, O Reino, ou seja, o mundo físico, como ele é normalmente compreendido.

Uma das teorias mais vigorosas da Física Moderna é a chamada ‘bootstrap’ que afirma que o Universo é uma teia dinâmica de eventos intercorrelacionados, que só pode ser entendido pela sua autocoerência [isto pode ser facilmente traduzido em termos místicos por Sabedoria Divina]. Deste modo, nenhuma propriedade da teia é fundamental; todas elas decorrem das prioridades das outras partes do Todo e a coerência total de suas interações determina a estrutura da teia. Isto é holística pura. Isto é misticismo puro.

A compreensão do que as partículas subatômicas realmente significam é, no novo enfoque, no mínimo altamente provocativa: “cada partícula consiste em todas as outras partículas”. Este moderníssimo enfoque ‘bootstrap’ apoiado em fórmulas complicadíssimas e aparelhos de incrível precisão, não é contudo tão novo assim. Ele já era conhecido há milênios, só que através de outra metodologia: a meditação. Por exemplo, o enigmático misticismo oriental já diz: ‘numa partícula de pó existem incontáveis Budas’ e o mais explicito Novo Testamento diz textualmente:”Pelo que deixai a mentira e falai a verdade cada um com seu próximo; porque somos membros uns dos outros’ [Efésios 4:25].

Outra comparação espantosa: Oppenheiner afirmou “se perguntam se a posição do elétron permanece a mesma”, respondo: não. “varia com o tempo?” Não. “Permanece em repouso?” Não. ‘Está em movimento?” Não. Por outra parte, os Upanixades, 600 anos antes de Cristo, dizem: “Move-se e não se move;.está longe e está perto; está dentro de tudo isso e está fora de tudo isso”.

Será que eles endoidaram, tanto os cientistas mais avançados como os místicos que conservam seus sagrados conhecimentos em pergaminhos milenares? Ou será o homem moderno, preocupado basicamente com ‘faturar’ dinheiro, que recortado, deformado e castrado pelo enfoque mecanicista e reducionista da ciência clássica é incapaz de ver um palmo além de seu próprio nariz?

David Bohm, um dos principais representantes da teoria ‘bootstrap’ afirma que mente e matéria são interdependentes, mas não são casualmente ligadas, ou seja, uma não é causa da outra. Pelo contrário, elas seriam projeções mutuamente envolventes de uma Realidade superior que estaria subjacente e que não é nem matéria nem consciência humana. Se essa realidade fosse chamada de Inteligência Cósmica, Ser Supremo ou deus, a última barreira entre ciência e misticismo seria derrubada.

Os ensinamentos místicos, alicerçados num autentico desenvolvimento holístico, levam precisamente à compreensão de que o principal objetivo que um místico pode formular é trabalhar parar sentir a unidade que vincula todas as coisas, todas as pedras, todas as plantas,todos os animais, todos os seres humanos, todos os planetas, todos os sóis e todos os mundos. O fato de compreendermos esta idéia grandiosa não implica em desconhecermos a necessidade de que – deixando a meditação e o recolhimento espiritual para os momentos adequados – estejamos em nossa humilde posição temporária num corpo físico, tenhamos a alta responsabilidade de operar sobre o meio ambiente material, emocional e mental, para fazê-los cada vez um pouco melhor.

E isto é também enfoque ‘holistico’, como é misticismo puro, pois o homem – pó graça divina- tem a maravilhosa potestade de operar em vários planos de consciência e em cada um deverá fazer a tarefa que lhe compete, com amor e dedicação, tanto no ‘hólon’ Supremo como no ‘holon’ material, tanto harmonizando com o Teclado Cósmico ou adorando o Ser Supremo como descascando batatas ou quebrando torrões com a enxada.

A espiral mística, a Hierarquia Celestial, a Árvore Sefirotal e os planos de consciência são também expressões holísticas, cheias de um significado especial em cada caso, mas que têm uma raiz comum. O Todo é Um, pois há um Ser único, Oniabarcante que se manifesta em diferentes níveis e portanto com conotações diversas. Talvez tudo isso possa ser resumido em apenas uma linha. Com efeito, o poeta místico Francis Thompson diz: ”Não podes tocar numa flor sem perturbar uma estrela”. E o sábio pele vermelha Seattle acrescenta: “Tudo está ligado. Tudo o que acontece à Terra acontecerá aos filhos da Terra. O homem não teceu a rede da Vida; ele é apenas um de seus fios”.

Em relação com o enfoque holístico e a Ecologia começaremos dizendo que os seres vivos estão organizados de tal forma que constituem estruturas de múltiplos níveis, cada uma das quais dividida em subníveis e assim sucessivamente, de modo que cada uma delas é um ‘todo’ em relação às suas partes e uma ‘parte’ em relação ao ‘todo’ maior. Arthur Koestler criou a palavra ‘holon’ para designar esses sistemas, nos quais o conceito de nível ou plano passa a ser fundamental, porque dependendo de qual seja considerado, um ‘holon’ determinado poderá ser compreendido como ‘todo’ ou ‘parte’.

Por exemplo, uma cadeia holística seria:célula, tecidos, órgãos, homem, planeta, sistema, solar, galáxia...De modo que cada um de nós seria um ‘holon’ [da mesma forma que uma planta, um animal ou uma pedra], subdivisível em partes que também seriam ‘holons’ num nível menor: órgãos, tecidos, etc. Da mesma forma, nós seriamos parte de um ‘holon’ superior: a Humanidade; e esta sendo um ‘holon’ de certo nível, seria componente de um ‘holon’ ainda maior: o planeta Terra; e assim sucessivamente, até se chegar à Unidade que, metaforicamente, pode ser denominada Holon Supremo.

O que é extraordinariamente importante num ‘holon’, qualquer que seja, é que nele convivem duas tendências ‘opostas mas complementares’ [principio da complementaridade de Niels Bohr, Prêmio Nobel de Física].Por exemplo, se consideramos o ‘holon’ superior como um ser humano e inferior como seus órgãos ou tecidos, o primeiro caracteriza-se por uma tendência integrativa, cuja atividade principal é a manutenção da coerência interna; já o segundo se caracteriza por uma tendência auto-afirmativa, que visa preservar sua autonomia especifica. Ou seja: há no ser humano [e em todo ser vivo]uma tendência interna ao equilíbrio, que procura contrabalançar o efeito autonômico das partes. Se esta tendência fosse quebrada, aconteceria um desastre. Imaginem o que ocorreria, por exemplo, se as células do sistema ósseo prevalecessem sobre as outras; seguramente seríamos seres de osso e não de carne e osso [se isso for possível]!

Na escala planetária, o ‘holon’ Natureza é responsável pela tendência integrativa, aquela que cria o equilíbrio ecológico. Sem este, bem sabemos, certas espécies, que seriam ‘holons’ menores, acabariam prevalecendo, desequilibrando o processo todo, como seria o caso de irrupção de pragas e pestes. Sem aquela tendência integrativa não teria sido possível a evolução das espécies e ela é, naturalmente, não um amontoado de forças cegas tendo como bússola o acaso, e sim, realmente um Grande Ser, cujo atributo mais visível é a inteligência.

A Teoria da Evolução foi um marco fundamental no pensamento cientifico, mas certas conclusões supostamente baseadas nela são falsas. Por exemplo, para justificar a pilhagem que depreda e polui ar, água, terra, fala-se que a evolução processa – quase exclusivamente – através da ‘seleção natural’, ‘luta pela vida’, ‘sobrevivência do mais forte’, etc. Ou seja, dessa forma transforma-se aqueles atos de pilhagem e barbárie apenas em fatos inexoráveis do comportamento humano.

Mas é fato que essa ‘luta pela vida’ está inscrita em um marco mais geral e harmônico: a tendência natural para a associação e a cooperação. Ou seja, falando em termos holísticos: a tendência auto-afirmativa [que sem dúvida existe] está incluída dentro de um marco mais global, representado pela tendência integrativa. Isto acontece tanto a níveis do ‘holon’ célula como do ‘holon’ grande Ecossistema, por exemplo a floresta amazônica. Com efeito, deve-se salientar que se o principio de competitividade fosse o prevalecente universalmente, haveria uma luta fratricida dentro de cada ser vivo. Assim o aparelho respiratório poderia querer prevalecer sobre o nervoso, este sobre o digestivo e assim por diante. Seria o caos.

Modernamente, está surgindo uma teoria cientifica conhecida como Hipótese Gaia [nome da deusa grega da Terra],propondo que o planeta todo forma um macrosistema, uma verdadeiro organismo vivo. Esta hipótese tem uma textura claramente holística, já que implica aceitar o planeta como um ‘holon’ de nível superior.

A novidade desta hipótese é que conceder o status de ser vivo à Terra lhe dá, na visão de muitas pessoas, uma conotação antropomórfica, para elas inaceitável, pois assim o homem seria derrubado de seu suposto trono, de sua decantada inteligência superior. Mas só um tolo poderia deixar de perceber que a inteligência exibida pelo ‘holon’ Natureza [ou se quiserem, ‘holon’, Gaia], é infinitamente mais alta que a do ser humano, que até agora tem se mostrado apenas como um hábil copista. Isto não significa demérito e sim um alerta para os apologistas da mente e do raciocínio;sem dúvida estes são atributos muito importantes para nós, mas se pesquisarmos mais a fundo, perceberemos outros níveis em nosso interior, mais sutis e capazes de dar à Humanidade não só conhecimentos e sim algo mais valioso, duradouro e elevado: a sabedoria.

A visão holística não pode ser senão ecológica, porque a Ecologia é a Ciência que estuda as relações entre os seres vivos e o meio ambiente, considerando-os como uma unidade. O enfoque holístico, por sua vez, visa à compreensão da unidade, do conjunto, ou seja, do sistema holístico, seja biológico ou não.

Portanto, o novo enfoque, de raízes místicas e raro sabor, reclama liberdade para reformular os alicerces nos quais estão apoiados os valores que atualmente regem a sociedade humana, trocando-os por outros mais abrangentes e abertos, além de mais sólidos e duradouros. Dentro dos novos valores deverá ocupar uma posição de singular relevância a visão holística que propõe considerar o planeta como uma grande Unidade [dentro de outras maiores], onde todos somos interdependentes e estamos inter-relacionados, de modo que sentimentos de cooperação e solidariedade [apoio mútuo] surjam espontaneamente em nossa consciência. Assim sendo, os valores sociais, éticos e espirituais poderão conviver naturalmente como os econômicos, e a proteção do meio ambiente, tão devastado e poluído hoje, será apenas uma conseqüência lógica de tal forma de sentir, de pensar e de agir.

Sabemos que estamos apenas no início de um processo longo e cheio de nuances, mas a esteira luminosa já foi aberta. É só preservar e difundir a mensagem. As Inteligências que se escondem atrás dos pacatos nomes de natureza, Sol, Terra, ar ou água, os Grandes Espíritos dos ‘atrasados’ peles vermelhas, as hostes angélicas, enfim...as Hierarquias Celestiais aguardam com paciência que o homem, em sua agitação milenária, descubra por fim sua grandiosa essência e comece definitivamente a agir [que é a sua função primordial, pelo menos no “Reino”] em favor da paz, do amor e da harmonia.

Dizem os livros sagrados que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Mas em geral ele dorme e ignora a sua potencialidade divina. O enfoque holístico é uma ferramenta importantíssima, levando-nos a uma nova visão do mundo e portanto de nós mesmos. Ou seja, através de uma compreensão mais acurada da Realidade, o homem chega à conclusão de que o objetivo fundamental de sua vida é de se transformar num canal de Energia Divina, num obreiro da seara cósmica. Conduzi-lo a esta sublime descoberta é o objetivo fundamental de todo misticismo autêntico.

Voltando aos conceitos holísticos de principio integrativo e principio auto-afirmativo, dir-se-á que o Divino Mestre há 2.000 anos criou as bases do princípio integrativo, que Ele chamou de Amor. Seus ensinamentos em grande Parte foram desprezados e escoaram com as águas do tempo. Mas sua semente, longo tempo mantida sob a terra e esquecida pela maioria, está prestes a brotar. É que nestes 21 séculos a Humanidade se preparou para dominar a matéria e agora sabe muito bem o que fazer com ela e sobretudo como fazer. Mas a fase de auto-afirmação está acabando; agora que dominamos as técnicas temos de decidir a orientação das mesmas, para que objetivos dirigi-las. E aí é que o princípio integrativo volta novamente: os nossos conhecimentos tecnológicos têm de deixar de ser privilégios que servem para uns poucos e se transformar em serviço exclusivo para a Humanidade tomada em conjunto; isto significa – no aspecto material – atender as necessidades básicas de alimentos, moradia, saúde e educação, abandonando para sempre o absurdo modelo do consumismo, da obsolescência, do luxo e do lixo.

O principio integrativo é a luz no fundo do túnel. É aquilo que permitirá à Humanidade evoluir, superando seus medos, seus erros e seu egoísmo. Mas ele não cairá do céu; ele deverá ser conquistado pelo esforço, pela verdadeira inteligência e pelo Amor que foi semeado em nosso coração há mais de dois mil anos. Realmente existe um grande paralelismo entre o enfoque holístico e os Evangelhos e, seguramente, se o Cristo voltasse à Terra e nos dirigisse suas imortais parábolas em linguagem moderna, Ele o faria em termos holísticos.

Através de um estudo minucioso, gradual e profundo, as fraternidades místico/esotéricas, nos preparam para os magnos acontecimentos interiores que nos livros sagrados, entre eles a Bíblia, estão ocultos em acontecimentos históricos diversos. O objetivo final é a harmonização com a Consciência Cósmica, a vivência da Omnidade. Isto em linguagem holistica significa a experiência da Unidade, ou seja, um mergulho na natureza mais intima do principio integrativo.
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[Texto de José A. Bonilla].