quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A Reencarnação no Cristianismo Primitivo


As pessoas que vivem no mundo ocidental, em sua maioria, são cristãs pertencentes às diversas denominações religiosas e é entre estas que se verifica a existência de um preconceito generalizado e difundido de que a “Reencarnação é uma doutrina exótica, característica das religiões orientais, incompatível com o Cristianismo, e condenada pela Igreja.”

A Reencarnação não é uma doutrina religiosa; trata-se de uma lei natural – tão natural quanto a da concepção e desenvolvimento do embrião no ventre materno ou a qualquer outra das leis que regem nosso mundo físico. Sua aceitação ou recusa, por conseguinte, em nada altera sua essência e operação. Permanece o fato, entretanto, de que a existência do preconceito aludido tem criado problemas de consciência ao cristão devoto.

Por isso, será interessante analisarmos os resultados de uma pesquisa, na qual se pretende demonstrar que a ‘Reencarnação é compatível com o Cristianismo’ e que não foi condenada pela autoridade eclesiástica.

Embora o Cristianismo tenha sofrido, na sua formação, a influencia do Mitraísmo, predominantemente no Império Romano, não há dúvidas de que é o herdeiro espiritual do Judaísmo. Segundo a Bíblia, Jesus e seus Apóstolos eram judeus e na Palestina, entre os judeus, Jesus fez suas pregações, algumas vezes nas próprias sinagogas. Chegou mesmo a afirmar que não viera reformar a Lei, mas cumpri-la [referindo-se à Lei Mosaica]. Eram os judeus reencarnacionistas?

JUDAÍSMO_
Moyses Gaster, Rabino-Chefe da Congregação Judaica de Londres, citado por H. Spencer Lewis em “Mansões da Alma”, páginas 118 e seguintes, a propósito da religião, crenças e práticas dos judeus, menciona livros oficiais, neste sentido, dentre os quais o Zoar, o Manasseh bem Israel e o Taheb.

No principal livro da Cabal, o Sepher Zoa, a Reencarnação é assim descrita:

“Todas as almas foram criadas no começo de toda a Criação e quanto não estão encarnadas, elas permanecem em celestial bem-aventurança e divina iluminação. Quando um corpo está sendo preparado para receber uma alma, a alma que precisa de certa experiência terrena é dirigida ou atraída para esse corpo que lhe proporcionará essa experiência ou esse conhecimento...Assim recebe a alma uma oportunidade de fazer compensação por seus pecados e se purificar, elevando-se mais um grau rumo à perfeição final...Quando todas as almas tiverem sido assim purificadas por meio de sucessivas reencarnações e tiverem alcançado a meta final da perfeição, o Reino do Céu, na Terra será estabelecido...A doutrina samaritana do Taheb ensina a mesma concepção de uma alma pré-existente, como a que foi concedida a Adão e que através de sucessivas encarnações em Set, Noé e Abrahão, chegou a Moisés...”

Estas crenças estavam firmemente estabelecidas na maioria dos homens e mulheres na época de Jesus e, assim sendo, podemos compreender melhor as muitas alusões à doutrina da Reencarnação na Bíblia Cristã, como veremos a seguir:

OS EVANGELHOS_
Era crença dos judeus que o profeta Elias voltaria a este mundo como precursor do Messias prometido.

Ora, no Evangelho segundo S. Mateus, capítulo XI, verso 14, Jesus declara:
“Porque todos os profetas e a Lei, até João, profetizaram e se vós o quereis compreender, ele mesmo é o Elias que há de vir; quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
Percebe-se, aqui, que o Mestre se referia a João Batista como sendo o profeta Elias reencarnado.

O seguinte trecho, extraído de Mat. XVI, 13, expressa claramente a convicção dos discípulos de Jesus na Reencarnação:
“E Jesus foi para as bandas da Cesaréia de Felipe e interrogou seus discípulos, dizendo: quem dizem os homens que é o Filho do Homem? E eles responderam: uns dizem que é João Batista, outros, que é Elias e outros que é Jeremias ou algum dos profetas”.

Em Mat.XVII, 12, lemos:
“Digo-vos, porém, que Elias já veio. Não o conheceram – antes fizeram dele o que quiseram. Assim, também, o Filho do Homem há de padecer em suas mãos. Então os discípulos compreenderam que lhes tinha falado de João Batista”.
Declaração expressa, de Jesus, de que João Batista era a reencarnação de Elias.

Em Jo. IX, 1, temos que:
“...passando, Jesus viu um cego de nascença e seus discípulos perguntaram-lhe: Mestre, quem pecou, este ou seus pais para que nascesse cego? Jesus respondeu: nem ele nem seus pais pecaram, mas foi assim para que se manifestassem nele as obras de Deus”.
Notamos aqui, conforme comentários de H.Spencer Lewis, “que os discípulos claramente afirmaram que o homem nascera cego e, portanto, estavam perplexos quanto à causa de sua cegueira. Convém frizar que os discípulos queriam saber se o próprio cego havia pecado, ou seus pais. – De que maneira poderia o próprio homem ter pecado de modo a provocar cegueira ‘antes’ do seu nascimento? Só tendo pecado numa vida anterior e, assim, ter provocado a própria cegueira como uma condição cármica. Nenhuma outra interpretação pode ser dada a essa pergunta dos discípulos”.

“E devemos notar, também, que os discípulos fizeram sua pergunta sem hesitação e, aparentemente, sem timidez. A pergunta foi feita como se fosse comum, muito natural e sua própria natureza indica que os discípulos perfeitamente familiarizados com as leis do Carma e do Renascimento e sabiam que Jesus conhecia o Renascimento e o Carma como leis universais”.

“Notemos, também, prossegue Spencer Lewis, que a resposta de Jesus não é uma repreensão pela pergunta feita, nem uma crítica às crenças dos discípulos... Jesus aceitou o conteúdo implícito da pergunta e respondeu que nem o homem e nem seus pais haviam pecado, mais que aquela condição havia ocorrido “àquele” homem para que pudesse ensinar uma lição e manifestar um princípio.”

No diálogo com Nicodemus, em Jo.III.,3, Jesus diz como é importante para o homem renascer a fim de entrar no Reino de Deus e, sem nada afirmar quanto ao número de vezes que o homem deve reencarnar, declara que o Espírito, ou alma do homem, “virá e partirá como o vento e ninguém poderá dizer de onde, nem para onde”. Uma afirmação alegórica do renascimento e de todo o processo de purificação.

Em se tratando de uma doutrina básica e tão importante, por que Jesus não se referiu a ela mais extensa e expressamente?

Em primeiro lugar, porque Jesus poderia ter achado desnecessário ensinar a repisar uma doutrina que era tranqüilamente aceita pelos judeus.

Em segundo lugar, nem tudo aquilo que Jesus ensinou consta dos Evangelhos, como os conhecemos. Sobre isto, temos a advertência do evangelista S. João, no capítulo XXI, 26: “Muitas outras coisas há que Jesus fez e ensinou as quais, se escritas fossem, uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever”. Esta declaração nos revela que a maior parte dos ensinamentos de Jesus não constam dos Evangelhos, nos quais foram registrados ‘alguns’ fatos e ensinamentos – aqueles considerados, pelos compiladores, como mais importantes e inusitados – omitindo-se o registro das coisas que já eram conhecidas e aceitas, como é o caso da Reencarnação.

Em terceiro lugar: não existem registros dos ensinamentos de Jesus, feitos no seu tempo. O evangelho mais antigo, o de S. Marcos, foi escrito entre os anos 65 e 67; o de S. Mateus e S.Lucas, pelo ano 70, enquanto que o de S.João, entre os anos 90 e 170 depois de Cristo. Como se explica isso?

A resposta está em Mat.X, 23-24;XVI, 27; XXIV, 34 a 36. Jesus havia prometido voltar naqueles dias: ”Em verdade vos digo que não acabareis de correr as cidades de Israel sem que venha o Filho do Homem”. – “Em verdade vos digo que entre aqueles que ‘aqui estão presentes’, há alguns que não morrerão antes que vejam vir o Filho do Homem no seu Reino”.

Face a estas solenes promessas, os primeiros discípulos perpetuavam, sobretudo, a tradição oral composta, quase exclusivamente, de fatos da vida de Jesus, não se preocupando em escrever qualquer coisa sistematizada, pois acreditavam que a volta do Mestre seria para breve.

Nos primeiros tempos, assuntos de ordem moral, doutrinária e teológica, sob a forma de cartas [epístolas], eram lidos e comentados nas igrejas. Quando os discípulos se aperceberam que a segunda vinda de Jesus, solenemente prometida, estava demorando muito, resolveram compilar os fragmentos transmitidos oralmente, originando-se, desta forma, os Evangelhos, dentre os quais mencionados o de Marcos, Mateus, Lucas, João, Pedro, Nicodemus, Barnabé, Tiago, dos Egípcios e outros.

Havia muita divergência e discussão em torno dos livros chamados “sagrados”. O Apocalipse de S.João era aceito no Ocidente, mas rejeitado no Oriente; as epístolas aos Hebreus e de S.Tiago eram adotadas no Oriente, mas não no Ocidente; as igrejas de Alexandria e Roma, aceitavam o Evangelho de S. Marcos, a de Jerusalém o de S. Mateus, a de Antioquia o de S.Lucas e a de Éfeso o de S.João. As igrejas menos importantes adotavam os de S.Pedro, de Barnabé, de Tiago e outros, considerados, mais tarde, em 367, como “apócrifos” com a fixação do Cânon cristão, por Santo Atanásio.

Estudos procedidos nos textos evangélicos revelam que os mesmos foram escritos, não por uma pessoa, mas por diversos compiladores. Pode-se imaginar as dificuldades que devem ter tidos os discípulos de reproduzir, fielmente, sem omissões e interpretações pessoais, em meio a tantas discussões, as exatas palavras de Jesus pronunciadas 30,40, e até 50 anos ‘antes’!

Os manuscritos originais dos Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipse, bem como suas cópias mais antigas, perderam-se e, muito possivelmente, foram sendo feitas alterações, interpolações e omissões, na tentativa de se construir um corpo doutrinário no qual não houvesse contradição. É muito conhecida a interferência do Imperador Constantino, no Concílio de Nicéia, em 325, época em que a Igreja tornou-se dominante e realizou, pela primeira vez uma sólida unidade, à custa do recolhimento e destruição de numerosos escritos ‘discordantes’, dentre os quais os de Celso, violento polemista gnóstico, que acusava os cristãos de falsificarem, constantemente, seus livros religiosos.

Ao efetuar a tradução da Bíblia, do hebraico para o latim, S. Jerônimo foi duramente criticado pelos graves erros cometidos na tradução. Assim mesmo, seus originais e as cópias mais antigas, da “Vulgata” desapareceram e as novas cópias sofreram, por sua vez, alterações por parte dos copistas. Dentre os 12 mil manuscritos da Bíblia existentes, não há duas cópias exatamente iguais, pelas divergências existentes, fato que revela que, com o tempo e com as transcrições, foram se introduzindo alterações nos textos originais.

Face a tantos escritos contraditórios que originavam apreciável número de grupos dissidentes, a Igreja resolveu, através de concílios, declarar o que era verdadeiro e o que não o era. Os escritos divergentes foram destruídos e excomungados aqueles que teimavam em afirmar que as doutrinas ensinadas por Jesus eram diferentes daquelas oficialmente adotadas pela Igreja.

OS DOUTORES DA IGREJA_
Para que um cristão seja canonizado, considerado ‘santo’ pela Igreja, é necessário que o mesmo tenha exercitado as virtudes a um grau heróico e que seja absolutamente ortodoxo, isto é, fiel às doutrinas da Igreja. Nos escritos de cinco santos Doutores da Igreja, teólogos de autoridade incontestável, encontraremos elementos convincentes de que a Reencarnação compunha o elemento das doutrinas cristãs originais.

Nascido no ano 100, em Nablus – Samaria – S.Justino Mártir, estudioso dos filósofos, dedicou-se a conciliar a cultura clássica pagã com o Cristianismo. Dentre suas obras restam “Apologia” e “Diálogos”, escritas em Roma, no ano 150. Notadamente em seu “Diálogo n.4”, S. Justino declara, expressamente, que a alma humana habita mais que uma vez o corpo e, ao mesmo tempo, argumenta que ao reencarnar ela não pode se lembrar das experiências prévias.

Titus Flavius Clemens, mais conhecido como S. Clemente de Alexandria, nasceu em Atenas, no ano 150 e, como S. Justino, exerceu considerável influência na teologia cristã, tendo escrito alentados tratados, dentre os quais, “Stromateis”. Em sua obra, “Exortações aos Gregos” escreveu que “Filolaus, o Pitagórico, ensinava que a alma foi introduzida no corpo como punição pelos pecados cometidos, e que sua opinião era confirmada pelos mais antigos profetas”.

A concordância de S. Clemente de Alexandria com Pitágoras, sobre a Reencarnação, se encontra em “Stromata VI”, Capítulo 4, e suas opiniões sobre o assunto figuram em “Stromata IV”, Capítulo 26, no texto sob o título “Quis dives salvetur”, em “Stromata III”, capítulo 3, e na obra “De Principiis”, Volume II, 8 – tudo conforme a Enciclopédia Católica, Volume X, pagina 678, onde se acham, também, as referências a S.Justino Mártir.

S Gregório, bispo de Nyssa, nasceu na Capadócia em 330, tendo exercido considerável influência na tradição mística da Igreja Oriental. Num de seus escritos, Gregório, designado por Teodósio I como “modelo de ortodoxia”, formalmente declara ser “absolutamente necessário que a alma seja curada e purificada e se isso não tiver lugar durante sua vida na Terra, terá de ser feito em vidas futuras”.
Euzebius Hieronumus nasceu em Aquiléia, no ano 340, e tornou-se conhecido, pela sua tradução da Bíblia hebraica, como S. Jerônimo. Considerado um dos quatro maiores doutores da Igreja Ocidental, em sua “Epístola a Demetríades”, faz uma surpreendente confissão aos cristãos de todas as épocas: “A doutrina da reencarnação tem sido ensinada, ‘secretamente’, a um pequeno número de pessoas, como uma verdade tradicional que não deve ser divulgada, a não ser a um pequeno número de pessoas.” É interessante notar que S. Jerônimo se refere à Reencarnação como a uma ‘verdade tradicional’, a ser revelada ’a um pequeno número de pessoas’ e de maneira ‘secreta’. Por que essa ocultação da verdade tradicional aos cristãos?

Santo Agostinho, bispo de Hipona, conhecido pelas suas “Confissões”, é reconhecido como um dos maiores pensadores da Cristandade antiga. Admirador da reencarnacionista Plotinus, em sua obra “Contra Acadêmicos”, escreveu: “A mensagem de Platão, a mais pura e mais luminosa de toda a filosofia, dissipou, por fim, as trevas do erro, e agora brilha mais fortemente, principalmente em Plotinus, um platonista tão semelhante ao seu mestre, que a gente pensaria que viveram juntos, ou melhor – considerando tão longo período de tempo que os separou - que Platão nasceu, novamente, em Plotinus”.

Em suas “Confissões”, S. Agostinho questiona o Criador:”Dize-me, Senhor, minha infância sucedeu à outra minha idade que morreu antes dela? E essa era aquela que eu vivi no ventre de minha mãe?...e que houve antes dessa?...estava eu em algum lugar ou em outro corpo:...”

A Enciclopédia Católica, em seu Volume IX, páginas 346 e seguintes, fala extensamente do grande Orígenes, considerado por S.Jerônimo o maior dos Padres da Igreja depois dos Apóstolos. Em sua obra polêmica “Contra Celsum” – acusava os cristãos de falsificarem seus livros sagrados – escreve: “Não será, certamente, mais conforme a razão que cada alma, por certas e misteriosas razões, seja introduzida num corpo e de conformidade com seus merecimentos e ações anteriores?...e que aqueles que usaram seus corpos para fazer a maior soma possível de bem tenham o direito a corpos enriquecidos com qualidades superiores aos corpos de outros?...”em determinada oportunidade abandona um corpo que era necessário antes...e o substitui por um segundo corpo”.

São Paulo, em sua Epístola aos Efésios, Capítulo I, 4, diz: “Assim como Ele mesmo nos escolheu ‘antes’ da criação do mundo, por amor,...”. Comentando este trecho Orígenes ensinava: “A alma não teve começo nem terá fim; cada alma vem para este mundo fortalecida pelas vitórias ou enfraquecida pelas derrotas de sua vida anterior. Seu lugar, neste mundo, como um vaso destinado à honra ou à desonra´, é determinado por seus prévios méritos e desméritos. Seu trabalho, neste mundo, determina seu lugar num mundo que se segue a este”. Ora, S. Jerônimo, em sua 94ª Carta a Avitus”, concorda com esta interpretação dada por Orígenes à referida Epístola...

Não subsistem dúvidas, portanto, de que nos primeiros 400 anos a doutrina da Reencarnação, professada por Jesus e seus discípulos, como vimos, era naturalmente aceita pelos grandes luminares da Cristandade Primitiva.

A contar do II Concílio de Constantinopla, entretanto, qualquer alusão à doutrina reencarnacionista passou a ser assunto proibido. Qual a razão?


O II CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA_
Dentro do contexto dogmático da Igreja, se um fiel vier a crer em alguma doutrina formalmente condenada, está, ‘ipso facto’, excomungado, isto é, segregado da Cristandade e condenado. Ora, é crença generalizada que a doutrina do renascimento tenha sido condenada pelo referido Concílio e, por esta razão, durante todos estes séculos não foi analisada, discutida e muito menos ensinada no mundo cristão. Teria sido ela realmente condenada?

Para que uma doutrina seja tida como dogma de fé, ou então condenada pela Igreja, é necessário que um concílio [congresso de bispos do mundo inteiro] tenha sido convocado pelo Papa, que delibere em sessões plenárias e que suas conclusões seja, finalmente, ratificadas pelo Sumo Pontífice. Esta, a doutrina católica. Nada disso aconteceu no mencionado Concílio.

Instalado a 5 de maio de 553, o II Concílio de Constantinopla foi convocado – não pelo Papa Vigílio – mas pelo Imperador Justiniano. O Pontífice, além de protestar pela convocação, se recusou a ele comparecer.

O Concílio foi convocado - e irregularmente – para tratar, ‘exclusivamente’, de uma controvérsia teológica conhecida como “Três Capítulos”. Nem Orígenes, nem a Reencarnação por ele ensinada, foram causa do Concílio.

Pelas atas conciliares, existentes no Vaticano, verifica-se que aquele congresso tratou, ‘exclusivamente’, dos “Três Capítulos”, e ‘somente’ as atas concernentes a esta tese foram submetidas ao Papa, para sua aprovação, que somente foi dada, ‘sob pressão’ do Imperador, 6 meses após, em 8/12/553 e 23/2/554.

Se o Concílio como tal e o Papa não condenaram Orígenes e, por conseqüência, a doutrina do Renascimento, de onde surgiu a crença errônea de sua condenação?

UM ENGANO DESASTROSO_

A própria Enciclopédia Católica, em seu Volume IV, página 170, Volume XII, página 456 e Volume IX, página 346, tratando do “Concílio”, “Três Capítulos” e “Orígenes”, respectivamente, nos permite saber o que realmente aconteceu.

O Imperador Justiniano era inimigo declarado de um partido existente na Palestina, denominado de “origeneístas”; os bispos, reunidos numa sessão ‘extra-conciliar’, por ordem do Imperador tinham de considerar uma forma de origeneísmo que nada tinha, praticamente, com os ensinamentos de Orígenes. Pressionados pelo Imperador e cientes de que o Papa Vigílio quase perdera a vida por se recusar a concordar com Justiniano, os bispos subscreveram 15 anátemas propostos pelo Imperador. Após seis meses de constrangimentos e ameaças, o Papa ‘consentiu’ em aprovar a condenação contra os “Três Capítulos”, “tacendo sugli altri anatematismi emanti dal Concílio” – isto é, calando, não se pronunciando sobre os demais anátemas aprovados na sessão extra-conciliar.

Verifica-se, portanto, que uma forma de origeneísmo que nada tinha em comum com as doutrinas reencarnacionistas de Orígenes, foi condenada; condenada não pelo Concílio, nem pelo Papa, mas por alguns bispos subjugados pelo Imperador, numa sessão extra-conciliar.

As conclusões de uma comissão da Câmara dos Deputados não se transformam em lei, obrigando aos cidadãos, exceto se tiverem sido aprovadas pelo plenário e sancionadas pelo Presidente da República. Da mesma forma, as decisões de uma sessão extra-conciliar, que não foram aprovadas pelo Concílio e muito menos sancionadas pelo Papa, não têm qualquer valor jurídico no que respeita à autoridade doutrinária da Igreja.

Os estudiosos estão começando a negar que a Igreja Romana tivesse tomado parte nos anátemas contra Orígenes, insinuando que a Igreja laborou em erro, durante séculos, quando acreditou que o mesmo tivesse sido condenado. Entretanto, um resultado desastroso do engano cometido ainda persiste: a exclusão da doutrina reencarnacionista do credo cristão.

CONCLUSÃO_
A Reencarnação não é uma doutrina religiosa, mas uma lei natural. Mesmo que todos os teólogos, concílios e papas a tivessem condenado - e nada disto ocorreu - em nada alteraria sua existência e operação, da mesma forma que a desaprovação dos teólogos à tese de Galileu não impediu que nosso planeta, indiferente às pretensões humanas, continuasse, tranqüilamente, em sua órbita ao redor do astro-rei.

Para tranqüilidade da consciência religiosa de muitos dos leitores, resumindo o que acima foi escrito, podemos dizer que:

a] a Reencarnação era doutrina adotada pelos judeus, pelos discípulos de Jesus e pelo próprio Cristo, conforme os textos evangélicos citados;

b] a Reencarnação integrava o Cristianismo primitivo, conforme a palavra de seus proeminentes teólogos, doutores e padres da Igreja, até o ano 500;

c] a Reencarnação não foi condenada por qualquer autoridade eclesiástica investida de poder para tanto.

É por isso que o número sempre crescente de cristãos, que estão falando favoravelmente, juntamente com clérigos de todas as denominações religiosas, sobre a Reencarnação, aguardam que esta ‘verdade tradicional’, que até agora tem sido ensinada, ‘secretamente’, a um ‘pequeno número de pessoas’, seja proclamada a todos. Afinal, não está escrito que “as coisas que falastes aos ouvido serão apregoadas sobre os telhados?” [Luc. XII, 2-4]
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As labutas implicadas numa vivência complexa são muito maiores que os prazeres dela extraídos.

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[Texto de:Euclides Bordignon]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Darcy Ribeiro _ O Povo Brasileiro


"Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros..." Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro.
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“Povo Brasileiro”, livro de Darcy Ribeiro é leitura obrigatória da cidadania_ 14/12/2006
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O jornalista Ali Kamel, em artigo desta semana no jornal O Globo “Lições de Londres”, nos brinda com uma análise sobre a bela mistura de raças que compõe o povo brasileiro. E quanto o combate ao racismo é prejudicado pela exaltação das diferenças, quando na verdade deveríamos chamar a atenção para nossas semelhanças.
Isso nos lembra um dos nossos expoentes, o antropólogo Darcy Ribeiro, cujo livro “Povo Brasileiro”, de 1995, fala exatamente das origens do povo brasileiro. Mestre Darcy sem dúvida alguma foi um dos gênios de nossa raça. Pela multiplicidade de tarefas a que se propôs para além de uma visão da antropologia brasileira indiscutivelmente singular.
Ao contrário de nossos grandes intérpretes, que muito bem vasculharam nossas origens, como Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque de Hollanda, Darcy faz uma antropologia apontada para um porvir como civilização, da qual estamos apenas a sentir as dores do parto. Uma nova Roma latina, tardia e tropical, como a definia.
Não bastasse isso, Darcy enveredou pelos caminhos acadêmicos, da administração educacional, da política parlamentar e executiva, da literatura, do ensaísmo e da crítica cultural. E em todos esses campos foi brilhante.
O livro “Povo Brasileiro” foi sua mais alentada obra, a mais difícil de parir e a última a que se dedicou até pouco antes de sua morte em 1997. Para além de uma antropologia etnográfica, o projeto revela o desenvolvimento de uma antropologia cultural, onde o lugar da educação pública de qualidade e de uma participação política da cidadania era condição essencial para a emancipação do povo brasileiro.
Em Darcy, a noção de povo não se choca com o conceito de cidadania consciente pela qual lutamos hoje em dia. Muito pelo contrário, costumava se auto-exigir de realizações políticas por quantos cargos ocupava, desde reitor na Universidade de Brasília, que ele mesmo criou, até ministro-chefe do gabinete civil do presidente João Goulart, que lhe custou 20 anos de exílio, passando por secretário da educação do Rio de Janeiro, sob o governo de Leonel Brizola, vive-governador e senador da República pelo mesmo estado.
Darcy considerava que, se a escola não educa, a igreja não catequiza, os partidos não politizam, as instituições, enfim, perdem seu poder de integração, restando apenas a mídia de massa a provocar desejos que não satisfaz, mas marginaliza e exclui, resta aos homens públicos essa tarefa ética de integrar os anseios de prosperidade dos povos.
E neste caso, a noção de povos não é a mesma do vocativo demagógico, mas de auto-referência étnica, da formação e sentido histórico de uma civilização.
E a maior contribuição deste livro, fundamental para a compreensão do que somos feitos, é a sistematização dos cinco povos e tipos antropológicos que compõem a nacionalidade brasileira: o Brasil crioulo produto do ciclo econômico da exploração do açúcar do litoral de toda costa nordestina e sudeste, o Brasil sertanejo do interior tomado dos índios para a criação de gado, o Brasil caboclo e amazônico do ciclo econômico da borracha e do extrativismo, o Brasil caipira da mestiçagem do ciclo do ouro, bandeiras e entradas pelo interior central das Minas, São Paulo, Mato-Grosso e Goiás, e, por fim, o Brasil gaúcho, resultante dos guaranis e dos mais variados gringos das colonizações dos pampas durante o século XIX.
Todo um processo civilizatório que tem nos povos do tronco Tupi o traço comum de tantas diversidades étnicas, de judeus lusitanos cristãos-novos a tribos africanas as mais distintas, nos séculos XVI, XVII e XVIII, até as colonizações de imigrantes europeus, asiáticos e árabes dos séculos XIX e XX.
Processo civilizatório caracterizado pela excepcional comunhão lingüística, da língua guarani sucedendo o português, além da instituição ancestral do cunhadismo, a que devemos nossa singular integração social, de brasilíndios a neobrasileiros, até nossos costumes culinários e de festas as mais sincréticas, mas que nos iguala a todos como “comedores de farinha”, como se referia a si mesmo o índio Uirá diante de Deus e à procura de sua identidade. Em suma: aqui todas os povos se encontram num único povo! O Povo Brasileiro, do saudoso mestre Darcy, é o que de melhor podemos ler para entendermos de que somos feitos, nos livrarmos de todo o preconceito cultural e nos emanciparmos enquanto plenos cidadãos. E não somente ler, mas ver, com a série homônima da TV Cultura, lançada em DVD numa parceria com a Fundação Darcy Ribeiro.
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Roda Viva_ Parte 1.



Roda Viva_ Parte 2.



Roda Viva_ Parte 3.


Roda Viva_ Parte 4


Roda Viva_ Parte 5



Roda Viva_ Parte 6


Roda Viva_ Parte 7


Roda Viva_ Parte 8


Roda Viva_ Parte 9

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Alguns Anos no Algures Absoluto_ Nazismo Original?!


[Segunda Parte]
[Capítulo V]
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Terra é oca. Nós habitamos no interior.
Os astros são blocos de gelo. Já caíram várias luas sobre a Terra. A nossa também cairá. Toda a história da humanidade se explica pela batalha entre o gelo e o fogo.


O homem não está acabado. Está à beira de uma formidável mutação que lhe dará os poderes que os antigos atribuíam aos deuses. Existem no mundo alguns exemplares do homem novo, vindos talvez de além das fronteiras do tempo e do espaço.

Há alianças possíveis entre o Mestre do Mundo e o “Rei do Medo”, que reina numa cidade escondida algures no Oriente. Aqueles que tiverem um pacto modificarão por milênios a superfície da terra e darão um sentido à aventura humana.

Tais são as TEORIAS “CIENTÍFICAS e as concepções RELIGIOSAS” que alimentaram o ‘nazismo original’, nas quais acreditavam Hitler e os membros do grupo de que ele fazia parte, e que fortemente orientaram os fatos sociais e políticos da história recente. Isto pode parecer extravagante. Uma explicação da história contemporânea, mesmo parcial, a partir de tais idéias e crenças pode parecer repugnante. Mas achamos que nada é repugnante no exercício da verdade.

Sabe-se que o partido nazi se mostrou antiintelectual de maneira franca, e mesmo ruidosa, que queimou os livros e classificou os físicos teóricos entre os inimigos “judaico-marxistas”. Em proveito de que explicações do mundo ele rejeitou as ciências ocidentais oficiais é o que muita gente ignora. Ainda menos se sabe em que concepção do homem se baseava o nazismo, pelo menos no espírito de alguns dos seus chefes. Mas, sabendo-o, situa-se melhor a última guerra mundial no quadro dos ‘grandes conflitos espirituais’; a história recupera o fôlego da “Lenda do Séculos”.

“Lançam-nos o anátema como a inimigos do espírito, dizia Hitler. Pois bem, é verdade, é isso que somos. Mas num sentido bem mais profundo do que a ciência burguesa, no seu imbecil orgulho, jamais sonhou”. É pouco mais ou menos o que ‘Gurdjieff’ declarava ao seu discípulo Ouspensky, depois de terminado o processo da ciência:”O meu caminho é o do desenvolvimento das possibilidades escondidas do homem.É um caminho contra a natureza e contra Deus”.

Essa idéias das possibilidades escondidas do homem é essencial. Ela conduz muitas vezes à rejeição da ciência e ao desprezo pela humanidade vulgar. Ao nível desta idéia, muito poucos homens existem realmente. Ser é ser diferente. O homem vulgar, o homem em estado natural não passa de uma larva o Deus dos cristãos não passa de um pastor de larvas.

O Doutor Willy Ley, um dos maiores peritos do mundo em matéria de foguetes, fugiu da Alemanha em 1933. Foi por seu intermédio que soubemos da existência, em Berlim, pouco antes do nazismo, de uma pequena comunidade espiritual de verdadeiro interesse para nós.

Essa comunidade secreta fundamentara-se, literalmente, num romance do escritor inglês ‘Bulwer Lytton: A Raça que nos há de Suplantar.’ Esse romance descreve homens cujo psiquismo é muito mais evoluído do que o nosso. Eles adquiriram poderes sobre si mesmos e sobre as coisas, que os tornam semelhantes a deuses. No momento, ainda se escondem. Habitam cavernas no centro da terra. Em breve sairão para nos governar.

Eis tudo o que o Doutor Willy Ley parecia saber. Acrescentava, sorrindo, que os discípulos julgavam possuir certos segredos para mudar de raça, para se tornarem iguais aos homens escondidos no interior da terra. Métodos de concentração, toda uma ginástica interior para se transformarem. Iniciavam os seus exercícios contemplando fixamente uma maça cortada ao meio...Nós prosseguimos nas investigações.

Essa sociedade berlinense à semelhança da lojas maçônicas, chamava-se: “A Loja Luminosa” ou “Sociedade do Vril”. O ‘Vril’ é a imensa energia de que nós não utilizamos senão uma ínfima parte na vida comum, o fator principal da nossa divindade possível. Aquele que se torna senhor do VRIL torna-se senhor de si próprio, dos outros e do mundo. [A idéia do “vril” encontra-se, originalmente na obra do escritor francês Jacolliot, cônsul da França em Calcutá na época de Napoleão III]. É a isso que devemos aspirar. É nesse sentido que devemos encaminhar os nossos esforços. Todo o resto faz parte da psicologia oficial, das morais, das religiões, do vento. O mundo vai modificar-se. Os Senhores vão sair das entranhas da terra. Se não tivermos feito aliança com eles, se não formos senhores, também nós, ficaremos entre os escravos, na estrumeira que servirá para fazer brotar as novas cidades.

“A Loja Luminosa” tinha adeptos na teosofia e nos grupos rosa-cruzes. Segundo Jack Belding, autor da curiosa obra “Os Sete Homens de Spandau” [Encontra-se a mesma indicação em “As Estrelas em Tempo de Guerra e de Paz, de Louis de Wohl, escritor húngaro que dirigiu durante a guerra a seção de investigações sobre Hitler e os nazis do Serviço de Informações Inglês], Karl Hausoffer teria pertencido a essa loja. Teremos muito que falar dele, e ver-se-á que a sua passagem por essa “Sociedade do Vril” esclarece certas coisas.

Talvez o leitor se recorde que descobrimos, atrás do escritor Arthur Machen, uma sociedade iniciática inglesa: a “Golden Dawn”. Essa sociedade neopagã, da qual faziam parte grandes inteligências, nascera da Sociedade Rosa-Cruz inglesa, fundada por Wentworth Littel em 1867. Litle estava em comunicação com membros da Rosa-Cruz. Recrutou os seus adeptos, em número de ‘144’, entre os dignitários maçãos. Um dos adeptos era Bulwer Lytton.

Bulwer Lytton, erudito genial, célebre em todo o mundo pela sua narrativa “Os Últimos Dias de Pompéia”, não esperava sem dúvida que um dos seus romances, dezenas de anos mais tarde, inspirasse na Alemanha um grupo místico pré-nazi. No entanto, em obras como “A Raça que nos há de Suplantar”, ou “Zanoni”, pretendia aludir às realidades do mundo espiritual, e mais especialmente do mundo infernal. Considerava-se um iniciado. Através da efabulação romanesca exprimia a certeza de que existem seres dotados de poderes sobre-humanos. Esses seres suplantar-nos-ão e conduzirão os eleitos da raça humana a caminho de uma formidável mutação.

É preciso prestar atenção a esta idéia de ‘mutação da raça’,pois viveremos a reencontrá-la em Hitler, [O objetivo de Hitler não nem a criação da raça dos senhores, nem a conquista do mundo; isso são apenas os meios para realizar a grande obra sonhada por Hitler. O verdadeiro objetivo era fazer a obra de criação, obra divina, o objetivo da narração biológica; o resultado será uma ascensão da humanidade ainda não igualada, “a aparição de uma humanidade de heróis, de semideuses, de homens-deuses”. Dr. Achille DelMas.]e ainda não extinguiu. É preciso também dar atenção à idéia dos “Superiores Desconhecidos”. Encontramo-la em todas as místicas negras do Oriente e do Ocidente. Habitando debaixo da terra ou vindo de outros planetas, gigantes semelhantes a esse que dormiriam sob uma carapaça de ouro nas criptas tibetanas, ou então presenças informes e terrificantes, tais como as descrevia Lovecraft, esses “Superiores Desconhecidos” evocados nos ritos pagãos e luciferianos existirão realmente? Quando Machen fala do mundo do Mal “cheio de cavernas e de habitantes crepusculares”, é a outro mundo, àquele onde o homem toma contato com os “Superiores Desconhecidos”, que se refere, como discípulo da “Golden dawn”. Parece-nos certo que Hitler partilhava dessa crença. Mais: que ele pretendia ter a experiência de contatos com os “Superiores”.

Citamos a “Golden Dawn” e a “Sociedade do Vril alemã”. Falaremos mais adiante do grupo de “Tule”. Não temos a loucura de pretender explicar a história por meio das sociedades iniciáticas. Mas veremos, curiosamente, que tudo teve importância e que através do ‘nazismo’, foi “o outro mundo” que exerceu autoridade sobre nós durante alguns anos. Foi vencido. Não morreu. Nem do outro lado do Reno, nem alhures. Isso não é horroroso, a nossa ignorância é que é horrorosa.

Já fizemos notar que Samuel Mathers fundara a Golden Dawn. Mathers pretendia estar em comunicação com esses “Superiores Desconhecidos” e ter estabelecido os contatos em companhia de sua mulher, irmã do filósofo ‘Henri Bergson’. Eis uma passagem do manifesto aos “Membros da Segunda Ordem”, que ele escreveu em 1866:

“A respeito desses Chefes Secretos, aos quais me refiro e de que recebi as instruções da Segunda Ordem que vos comuniquei, nada vos posso dizer. Nem sequer sei os seus nomes terrenos e só muito raramente os vi com os seus corpos físicos... Eles encontram-se fisicamente comigo, no tempo e no lugar antecipadamente fixados. Na minha opinião, creio que são seres humanos que habitam a Terra, mas que possuem poderes terríveis e sobre-humanos... As minhas relações físicas com eles mostraram-me quão difícil é para um mortal, por muito evoluído que seja, suportar-lhes a presença. Não quero dizer que, durante esses raros encontros que com eles tive, o efeito em mim produzido tenha sido o de depressão física intensa que se segue à perda do magnetismo. Pelo contrário, sentia-me em contato com uma força tão terrível que apenas a posso comparar ao efeito provocado numa pessoa que esteve perto de um relâmpago durante uma violenta trovoada, acompanhado por uma grande dificuldade de respirar...À prostração nervosa de que falei juntavam-se suores frios e perdas de sangue pelo nariz, pela boca e, por vezes, pelos ouvidos.”

Hitler conversava um dia com ‘Rauschning’, chefe do governo de Dantzig, a respeito do problema da mutação da raça humana. Rauschning, que não possuía a chave de tão estranha preocupação, interpretava as frases de Hitler como frases de um criador de gado que procurasse melhorar o sangue alemão.

“Mas não pode fazer outra coisa senão auxiliar a natureza, dizia ele, abreviando o caminho a percorrer! É preciso que a própria natureza lhe dê uma nova variedade. Até agora só raramente o criador obteve bons resultados, em relação à espécie animal, no desenvolvimento das mutações, quer dizer, em criar ele próprio novos caracteres.
- O homem novo vive entre nós! Já chegou!- exclamou Hitler em tom triunfante. - Isto não lhe basta? Vou dizer-lhe um segredo. Eu vi o homem novo. É intrépido e cruel. Tive medo diante dele.

“Ao pronunciar essas palavras, acrescenta Rauschining, Hitler tremia num ardor extático.”


E Rauschning conta também esta cena estranha, a respeito da qual se interroga em vão o Doutor Achille Delmas, especialista em psicologia aplicada. De fato, neste caso, a psicologia não se aplica:

“Uma pessoa da intimidade de Hitler disse-me que ele acorda durante a noite soltando gritos convulsivos. Pede socorro, sentado na beira da cama, como que paralisado. É possuído por um pânico que o faz tremer a ponto de sacudir a cama. Profere vociferações confusas e incompreensíveis. Arqueja como se estivesse a sufocar. A mesma pessoa relatou-me uma dessas crises com pormenores em que me recusaria a acreditar se a fonte não fosse de tanta confiança. Hitler estava de pé no seu quarto, cambaleante, olhando em redor com ar desvairado. “É ele! É ele! Ele esteve aqui!”, gemia. Os lábios tremiam-lhe. O suor escorria abundantemente. De súbito pronunciou números sem qualquer sentido, depois palavras, restos de frases. Era pavoroso. Empregava termos curiosamente reunidos, absolutamente extraordinários. Depois, novamente, voltava a ficar silencioso, mas continuava a mexer os lábios. Tinham-no então friccionado, e fizeram-no tomar uma bebida. Depois, subitamente, berrou: “Ali, ali no canto! Está ali!” Batia com o pé no chão e soltava gritos. Tranqüilizaram-no dizendo-lhe que nada se passava de anormal, e ele acalmou-se pouco a pouco. Em seguida, dormira várias horas e voltara a ser quase normal e suportável.” [Hermann Rauschining:”Hitler m’a dit. Edition Cooperation, Paris, 1939. Achille Delmas: Hitler, essai de biographie psucho-pathologique. Librairie Marcel Riviére. Paris, 1946].

Deixamos ao leitor o cuidado de comparar as declarações de Mathers, chefe de uma pequena sociedade neopagã do fim do século XIX, e os ditos de um homem que, no momento em que Rauschning os coligia, preparava-se para lançar o mundo numa aventura que provocou vinte milhões de mortos. Pedimos-lhes que não despreze essa comparação e a sua lição, a pretexto de que a “Golden Dawn” e o nazismo são, aos olhos do historiador razoável coisas completamente diferentes. O historiador é razoável, mas a história não o é. Sãs as mesmas crenças que animam os dois homens, e suas expectativas fundamentais são idênticas, a mesma força os impele. Pertencem à mesma corrente de pensamento, à mesma religião. Essa religião ainda não foi verdadeiramente estudada. Nem a Igreja, nem o racionalismo, que é outra igreja, o permitiram. Nós entramos numa época do conhecimento na qual tais estudos se tornarão possíveis porque a realidade desvendará a sua face fantástica, e idéias ou técnicas que nos pareciam anormais, desprezíveis ou odiosas, apresentar-se-ão úteis para a compreensão de um real cada vez menos tranqüilizador.

Não propomos ao leitor que estude uma filiação Rosa-Cruz-Bulwer Lytton-little-Mathers-Cowley-Hitler, ou qualquer outra filiação do mesmo gênero, onde também se encontraria Mme Blavatsky e Gurdjieff. O jogo das filiações é como o das influências em literatura. Acabado o jogo, o problema mantém-se. O do gênio da literatura. O do poder em história. A “Golden Dawn” não basta para explicar o grupo “Tule”, ou “A Loja Luminosa”, a “Ahnenerbe”. Existem, evidentemente, inúmeras interferências, passagens clandestinas ou declaradas de um grupo para outro. Não deixaremos de as assinalar. Isto é apaixonante, como toda a pequena história. Mas o nosso objetivo é a grande história.

Pensamos que essas sociedades, pequenas ou grandes, ramificadas ou não,conexas ou não, são as manifestações mais ou menos claras, mais ou menos importantes, de outro mundo diferente daquele em que vivemos. Digamos que é o mundo do Mal no sentido em que Machen o entendia. Mas também não conhecemos melhor o mundo do Bem. Vivemos entre dois mundos, tomando este no “man’s land” pelo próprio planeta inteiro. O nazismo foi um dos raros momentos da história da nossa civilização em que uma porta se abriu sobre outra coisa, de forma ruidosa e visível. É bastante estranho que os homens finjam nada ter visto nem ouvido, além dos espetáculos e ruídos vulgares da desordem guerreira e política.

Todos estes movimentos:Rosa-Cruz moderna, Golden Dawn inglesa, Sociedade do Vril alemã [que nos conduzirão ao grupo Tule no qual encontraremos Haushoffer, Hess, Hitler] tinham maiores ou menores ligações com a Sociedade Teosófica, poderosa e bem organizada. A teosofia juntava à magia neopagã uma solenidade oriental e uma terminologia hindu. Ou antes, abria os caminhos do Ocidente a um certo Oriente luciferiano. Foi sob a designação do teosofismo que se acabou por descrever o vasto movimento de renascimento do mágico que impressionou muitas inteligências no início do século.

No seu estudo “Lê Théosophisme: historie d’une pseudo-religion”, publicaso em 1921, o filósofo ‘Renê Guénon’ mostra-se profeta. Ele vê aumentarem os perigos por detrás da teosofia e os grupos iniciáticos neopagãos mais ou menos ligados à seita de Mme Blavatsky.

Escreve:

“Os falsos messias que até agora vimos fizeram prodígios de qualidade muito inferior, e aqueles que os seguiram provavelmente não eram muito difíceis de seduzir. Mas quem sabe o que o futuro nos reserva? Se pensarmos que esses falsos messias nunca foram senão instrumentos mais ou menos inconscientes entre as mãos daqueles que os suscitaram, e se no reportarmos em especial à série de tentativas sucessivamente feitas pelos teosofistas, somos levados a pensar que tudo isso foram apenas ensaios, de certa maneira experiências, que se renovarão sob diversas formas até que o êxito seja alcançado, e que, entretanto, sempre conseguem provocar certa perturbação nos espíritos. Aliás, não acreditamos que os teosofistas, nem os ocultistas ou os espíritas sejam capazes de realizar, por si mesmos e com pleno êxito, tal empreendimento. Mas não haveria, atrás de todos esses movimentos, qualquer coisa de igualmente temível, que os seus chefes talvez nem conhecessem e de que eram, por sua vez, simples instrumentos?”

É também a época em que uma extraordinária personagem, ‘Rudolph Steiner’, desenvolve na Suíça uma sociedade de investigações que se baseia na idéia de que o Universo inteiro está contido no espírito humano e que esse espírito é capaz de uma atividade sem nada de comum com o que a esse respeito nos diz a psicologia oficial. De fato, certas descobertas ‘steinerianas’, na biologia [os adubos que não destroem o solo], na medicina [utilização dos metais que alteram o metabolismo], e sobretudo em pedagogia [funcionam hoje na Europa numerosas escolas steineranas], enriqueceram consideravelmente a humanidade. Rudolph Steiner pensava que há uma forma negra e uma forma branca de investigação ‘mágica’. Achava que o teosofismo e as diversas sociedades neopagãs provinham do grande mundo subterrâneo do Mal e anunciavam uma era demoníaca. Apressava-se a estabelecer, no âmago do seu próprio ensinamento, uma doutrina moral incitando os “iniciados” a só utilizarem forças benéficas. Ele pretendia criar uma sociedade de benevolentes.

Não vamos por a questão de saber se Steiner tinha ou não razão, se era ou não senhor da verdade. O que nos impressiona é que as primeiras equipes nazis parecem ter considerado Steiner o seu inimigo número um. Logo de início, os seus agentes dispersaram por meio da violência as reuniões de steinerianos, ameaçam de morte os discípulos, obrigam-nos a fugir da Alemanha e, em 1924, na Suíça, em Dornach, ateiam fogo ao centro edificado por Steiner. Os arquivos ardem, Steiner já não está em condições de trabalhar e morre de desgosto um ano mais tarde.

Até agora descrevemos os antecedentes do fantástico hitleriano. Agora vamos realmente entrar no assunto. Floresceram duas teorias na Alemanha nazi:

 a Teoria do Mundo Gelado;e
 a Teoria da Terra Oca.

São duas explicações do mundo e do homem quem confirmam dados tradicionais, justificam mitos, verificam um certo número de ‘verdades’ defendidas por grupos iniciáticos, deste os Teósofos a Gurdjeff. Mas essas TEORIAS foram expressas com grande aparato político-científico. Quase expulsaram da Alemanha a ciência moderna tal como nós a consideramos. Foram aceitas por muitos espíritos. Além disso, determinaram certas decisões militares de Hitler, influenciaram por vezes a marcha da guerra e contribuíram sem dúvida para a catástrofe final. Foi levado por essas TEORIAS especialmente pela idéia do dilúvio sacrificial que Hitler pretendeu arrastar todo o povo alemão para a destruição.

Não sabemos por que razão essas TEORIAS,tão poderosamente afirmadas, às quais aderiram dezenas de homens e de grandes espíritos pelas quais se fizeram grandes sacrifícios materiais e humanos, ainda não foram estudadas por nós e continuam mesmo desconhecidas.

Ei-las a seguir, com sua gênese, sua história, suas aplicações e sua posteridade.
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[Texto extraído do Livro: O Despertar dos Mágicos_ Introdução ao Realismo Fantástico, de Louis Pauwels e Jacques Bergier. Editora: Difel]

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

O Sentido da Globalização Atual: A Criação de uma Noosfera?


Ilya Prigonine [Prêmio Nobel de química em 1977] e seu grupo tem mostrado que a seta do tempo e a linha da evolução vão no sentido de criar cada vez mais complexidades auto-organizadas, diversidades e inter-retrorrelacionamentos. A evolução não é linear. Ela dá saltos. Exemplo disso é a formação do cérebro de um embrião. Após oito semanas de fecundação, sem sabermos por quê, ocorre uma frenética produção de células nervosas, os neurônios. Milhões deles irrompem a cada dia. Após 35 dias, o ritmo se desacelera. Inicia-se outro processo, o da interconexão entre os neurônios,base para toda a vida da mente. E prossegue pela vida afora. As conexões se dão também além da mente, no campo familiar, comunitário, social e planetário. Surge uma pan-relacionalidade que é a característica do tempo em que vivemos.

Teilhard de Chardin havia percebido a seguinte lógica na evolução: quanto mais ascende, mais ela se complexifica; quanto mais se complexifica, mais se interioriza; quanto mais se interioriza, mais consciente se torna; e quanto mais consciente se torna, mais converge a um ponto onde tudo se concentra, se sintetiza e constitui uma unidade superior.

Não estaríamos hoje, com a complexificação dos meios de comunicação, com o estreitamento das interdependências, com a consciência da unificação da humanidade e a aceleradíssima globalização, criando as condições para um novo patamar da hominização? Para a emergência de um sistema nervoso complexo e planetário e para um cérebro global?

Os saltos podem dar-se, na evolução, a qualquer momento, desde que haja certa acumulação de energia. A acumulação populacional dos cérebros humanos,o crescimento das inter-conexões dos neurônios com a sofisticação de todos os saberes e experiências, a consciência cada vez mais planetária, a percepção de sermos co-responsáveis pelo que possa acontecer com a natureza e a humanidade permitiriam a colocação da hipótese ‘teilhardiana da noosfera’ [a esfera da mente humana unificada]. Estaríamos na antevéspera da implosão de algo inédito na história do planeta: num de seus membros, na espécie humana, emergiria uma convergência das linhas ascendentes da evolução rumo a uma unidade orgânica. Não apenas no conhecimento, mas principalmente no AMOR. A ‘amorização’ significaria a forma mais alta de ‘união’ de todos com todos e de todos com tudo.

A globalização com suas contradições e com a vitimação de tantas pessoas e tantos seres da natureza provoca fortemente seu oposto dialético. Sabe-se que há comunicações extra-sensoriais da mente, o fenômeno da ‘sincronicidade’, a morfogênese biológica [Rupert Scheldrake] segundo a qual, além do código genético que fornece os materiais químicos de construção da vida, entra o campo formológico invisível e não detectável pelos sentidos que explica como os elementos do código genético se juntam em formas e estruturas específicas, quer dizer, em sistemas. É semelhante ao campo gravitacional e magnético, que são estruturas espaciais invisíveis e reconhecíveis pelos efeitos. Assim a limalha de ferro espalhada em torno de um ímã revela a estrutura espacial de seu campo. Algo semelhante ocorre com a vida. Não bastam os sensores da televisão estarem bem ligados, nem o aparelho estar conectado a uma fonte de energia. Eles não produzem as imagens. Estas vêm de outra fonte produtora. Consoante a TEORIA DO CAMPO MORFOLÓGICO, quando são bem-sucedidas, as experiências produzem uma ressonância sobre todos mos seres do sistema de relação. Tal ressonância faz com que a experiência nova não se perca, mas, depois de certo número de repetição e reprodução, se passe aos membros do mesmo sistema; ela começa a ser reproduzida, garantindo um avanço no processo da vida. Assim, na humanidade estaria havendo um acúmulo significativo de ressonâncias rumo a uma unidade planetária. Atingindo certo ponto crítico, esta unidade emergiria historicamente.

Os processos históricos se aceleram. Entre 15.000 e 8.000 anos a.C. fez-se no neolítico a revolução agrária; todas as culturas praticamente incorporaram esta revolução. Somente trinta séculos depois implodiu outra revolução, a industrial, entre 1750-1850. Em seguida, com muito mais rapidez, um século após, deu-se a revolução nuclear. Dez anos depois ocorreu a revolução da informação com a decodificação do código genético. A espiral da evolução vai se enovelando sobre si mesma.

Há os que esperam a onda zero proximamente [nos inícios do terceiro milênio] quando então eclodiria a ‘noosfera’, o novo ‘katun’ [a nova era planetária] na terminologia dos maias, que muito especularam sobre essas realidades globais. E assim se inauguraria uma nova fase para a humanidade como humanidade, unida e diferenciada e convergente.

A humanidade com sua capacidade de sinergia [colaboração de todos] funcionaria como uma espécie de cérebro do planeta Terra. À medida que o ser humano entrasse em sintonia e em sincronia com os movimentos do planeta Terra e com sua lógica, promoveria um tipo de desenvolvimento com a natureza e não contra ela. Poderia mostrar-se criativo à medida que captasse as potencialidades ocultas da Terra e as explicitasse, acelerando ou desacelerando a seta evolutiva. A humanidade seria a própria Terra enquanto pensa, quer, simboliza, projeta, sonha e ama.

Tudo o que cada pessoa humana faz ou deixa de fazer concorre para a criação desta nova fase da humanidade ou a impede. Por isso importa cada um sentir-se em profunda ‘osmose’ com a Terra e seu destino; é importante fazermos inteiros o que fazemos, com a mente pura e afinada com tudo à nossa volta e com o cosmos. Estamos fornecendo á Gaia o passo necessário para que ela realize o seu desígnio que nos inclui, desígnio de vida, de consciência de si, de plenitude do ‘Espírito na matéria’, de sinfonização de tudo com tudo em face do mistério de Deus.
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[Capítulo 4, do Livro Civilização Planetária, Ed. Sextante,
2003/Autor: Leonardo Boff]

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