sábado, 16 de janeiro de 2010

BARDO THÖDOL _ O LIVRO TIBETANO DOS MORTOS_


Presumimos que os mortos sabem que não mais estão vivendo neste plano. O Budismo Mahaiânico ilustra que isso não é necessariamente verdade. Para que seu renascimento possa ser mais vantajoso, o defunto deve ser capaz de ouvir as palavras de seu instrutor – a voz do Mestre Interior.
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O adepto do misticismo oriental põe grande ênfase na arte de morrer, porque para ele a morte não é o término da vida, mas um momento de pausa em que ele percebe uma clara noção de sua existência futura. Para tal personalidade, a morte não é o lado oposto da vida, mas simplesmente uma experiência em sua viagem na estrada maior da existência.

O Bardo Thödol, conhecido como “O Livro Tibetano dos Mortos”, procura instruir a personalidade desencarnada na direção da dinâmica energia de vida, por ele vivenciada como fluindo por três etapas reconhecíveis, que cobre o período intermediário de quarenta e nove dias entre a morte física e o renascimento físico. A primeira etapa, de clara luz primordial, descreve acontecimentos psíquicos do momento da morte, e provoca a suprema intuição, a iluminação, e a maior possibilidade de conseguir libertação do eterno círculo de nascimento e morte. Essa etapa é chamada de ‘chikhai Bardo’. A segunda etapa consiste em aparições tranqüilas ou iradas, que constituem uma ‘ilusão cármica’ ou um estado onírico que advém imediatamente após a morte. Essa etapa é chamada de ‘chõnyd Bardo’. A terceira é uma etapa de intensa realidade ou discernimento, relacionada com o despertar do instinto de nascimento e o início de outros eventos pré-natais. É chamada de ‘Sidpa Bardo’.

O Bardo Thödol ensina que devemos aceitar com imparcialidade o mundo como ele realmente é, e não como o percebemos ou segundo a ele reagimos. Isso indica que devemos ter a coragem de não nos perdermos nas formas-pensamento, que são produtos de nossa própria mente. Na filosofia oriental, essas formas-pensamento, transitórias e discriminativas, são chamadas de ‘maya’.

Henrich Zimmer ilustra ‘maya’ quando afirma: “... A constante projeção e exteriorização de nossa própria ‘shakti’ [energia vital] é o nosso “pequeno universo”, nossa esfera restrita e ambiente imediato, tudo o que nos ‘diga respeito e nos afete’. Nós povoamos e colorimos a tela neutra e indiferente com as personagens e os dramas cinematográficos do sonho íntimo de nossa alma, e tornamo-nos cativos de seus eventos, deleites e calamidades dramáticas...”

Entretanto, para não sermos presas de nossa própria energia de ‘maya’ e do ‘filme que ela incessantemente produz’, precisamos ser o senhor e o mestre de ‘maya’. As instruções do Bardo Thödol visam a nos ajudar nesse nobre objetivo, livro esse conhecido como o “Livro Tibetano dos Mortos”, porque sua finalidade é análoga à do conhecido como “Livro Egípcio dos Mortos”. Porque sua finalidade é análoga à do conhecido como “Livro Egípcio dos Mortos.” Este último não é propriamente um livro, mas uma série de papiros e pergaminhos escritos durante séculos, constituindo um compêndio de liturgias funerais, ritos mágicos, preces e cerimônias que preparam a pessoa para a morte. O “Livro dos Mortos” contém um prospecto do que se pode esperar imediatamente após a transição desta vida.

O Bardo Thödol consiste em obras “tântricas”. Tantra, em sânscrito, significa discurso ou tratado. Os tantras geralmente possuem natureza religiosa e pertencem a uma escola de Ioga chamada “Yoga-carya Mahayana.” Existem dois grupos principais de tantras, um hindu e o outro budista. O hindu geralmente é em forma de diálogo entre deus e Shiva, o Guru Divino, e sua Shakti, Pârvati. Juntos representam o aparecimento dual da energia psíquica criativa. A filosofia do Mahayana, “O Grande Caminho”, teria surgido formalmente nos primeiros séculos da Era Cristã, e constitui a fonte principal do “Livro Tibetano dos Mortos.” A característica principal de ambas as classes de tantras é que elas geralmente se baseiam na filosofia iogue. A palavra ioga denota junção, união da parte ao todo, e a disciplina da própria mente por meio de concentração mental. “Se a mente for disciplinada, transformada, ampliada, aguçada, iluminada, sê-lo á também a energia vital do indivíduo.” [2]

Talvez uma das lições mais importantes decorrentes do Bardo Thödol seja a de aprendermos a canalizar adequadamente nossas energias criativas para que, uma vez unidas, possam se manifestar a nós como energia vital pura. Analogamente à Divina Sofia do Ocidente, essa energia vital é representada no Budismo Mahayna como a Deusa suprema, “Prajnä-Paramita, a transcendental sabedoria iluminadora que leva para além dos fenômenos terrenos, para a Outra Margem.”

Numa reflexão mais demorada percebemos certas correlações religiosas entre o Ocidente e o Oriente. Haverá também correlações científicas? Em estudo do Bardo Thödol e da Ioga e Doutrinas Secretas Tibetanas indica que existem catorze principais nadis, ou canais nervosos psíquicos, e centenas de milhares de canais nervosos do corpo humano.[3] Esses canais nervosos seriam as contra-partes psíquicas do sistema nervoso orgânico. Na Ioga, esses nervos são concebidos como os canais invisíveis “para o fluxo das energias psíquicas”. Na realidade, os agentes de condução do organismo são considerados os “ares vitais” [prana-vayu]. O Bardo Thödol e a Ioga Tibetana explicam que existe uma “grande via” chamada “Sushumana-nadi.” Essa “grande via”, conforme aprendemos, é o canal mediano que percorre o centro da coluna vertebral. Um canal direto [Pingala-nadi] e um canal esquerdo [Ida-Nadi] enroscam-se ao redor do canal central, para a direita e para a esquerda.[4].

Em tudo isso podemos perceber certo paralelismo surpreendente com o “Caduceu”, que no Ocidente identifica Hermes ou Mercúrio, um de cujos papéis é guiar o morto ao Outro Mundo. Como analogia, podemos imaginar o bastão central como o sistema nervoso central, e a bola alada como o cérebro. As duas serpentes entrelaçadas podem representar o sistema nervoso autônomo. A figura pode representar também a coluna vertebral, com suas colunas sensorial e motora ascendente e descendente e a coluna equilibradora correlata.

O Budismo Mahayana afirma que a energia vital [de que em última instância dependem todos os processos psicofísicos] é armazenada nos “chacras” ou centros psíquicos. Tais centros, análogos ao que chamaríamos de dínamos, estão localizados ao longo da “grande via” e estão interligados. Desses dínamos ou centros psíquicos, sete seriam de fundamental importância. O que é especialmente importante para nós é o primeiro “esteio-raiz”. Esse chacra está localizado no períneo, a região no centro da pélvis. Esse primeiro chacra seria a fonte secreta da energia vital, sendo regulado pela imagem simbólica da deusa KUNDALINI. Essa energia extraordinariamente poderosa pode ser muito destrutiva ou enlevante, e devemos despertá-la com muito equilíbrio de coração e propósito. A KUNDALINI é simbolizada pela serpente, porque seria “um extraordinário poder oculto que jaz volteado como uma serpente adormecida”. Na tradição alquímica ocidental, a serpente é representada como um dragão que guarda o valioso tesouro.

Após muitas vidas dedicadas à disciplina intelectual e ao refinamento emocional, o ‘chela ou estudante’ que é cuidadosamente guiado por seu guru pessoal ou Mestre Interior está pronto para pôr em atividade essa energia adormecida espiralada. O Bardo Thödol explica ainda que certos “mantras”, ou palavras secretas, quando encunciados, estabelecem vibrações que estimulam os ares vitais interiores, ou energias psíquicas, nos canais invisíveis. Entretanto, quando, através de ação correta ou “equilibrada”, a energia da Kundalini é liberada e desimpedida em sua ascensão a cada centro, desenrola-se como uma serpente, penetrando e estimulando todos os centros psíquicos com sabedoria, até que chegue finalmente ao principal centro do cérebro. Todo o corpo, físico e psíquico, é então revitalizado e harmonizado, resultando isso na grande iluminação do iogue.

Os ares ou as energias vitais servem como um “elo psicofísico”, por assim dizer, que une o aspecto individualizado da consciência ao aspecto cósmico ou universal da Consciência, o microcosmo com o macrocosmo, ou a parte com o todo.

Deixando de lado os termos sânscritos e o simbolismo oculto arcaico em prol da metafísica e do misticismo moderno, podemos compreender o que afirma o Bardo Thödol sobre a energia Kundalini. Em cada ser humano existe uma grande força de energia semi-adormecida. Existem canais vitais para a liberação e uso desse poder, associados aos sistemas nervosos central e autônomo e aos centros psíquicos. A certo grau, parte dessa energia está sendo constantemente gerada, dirigindo as atividades do chamado “eu psíquico”. Não obstante, pelo uso criterioso do som, esse grande reservatório de poder psíquicos pode ser estimulado a liberar maior quantidade de energia para os vários canais e para o cérebro, o que resulta numa imaginação criativa e numa vida virtuosa e nobre. Quando isso é feito gradativa e adequadamente, os centros psíquicos e físicos são inter-relacionados de modo tão harmonioso, que o homem vivencia o eu superior e a Consciência Cósmica como uma experiência benéfica e gloriosa. É então capaz de “perceber interiormente” os fatores que trazem iluminação e inspiração a uma existência terrena de serviço à humanidade.

O processo ordenado que leva ao despertar harmonioso dessa força semi-adormecida em nosso interior sempre será uma odisséia interior, a despeito de seguir-se alguma forma moderna de misticismo oriental ou ocidental. O método oriental, de introspecção, é igual ao processo alquímico ocidental que ocorre dentro do indivíduo. Por meio desse processo de espiral, gradualmente nos familiarizamos com os três planos de experiência “intermediária” ou “bárdica”, as chamadas lições cármicas, os muitos testes, tribulações e eventuais vitórias peculiares a cada etapa de nossa existência fenomênica, advindos por muitos nascimentos, mortes e renascimentos.

O bardo Thödol nos afirma que, se aprendermos a reconhecer e dominar nossas formas-pensamento, manifestem-se elas como sonhos ou como fenômenos exteriores, obteremos, dentro de uma flor de lótus[ou rosa], milagrosamente, um recurso transcendental de puro nascimento, na presença de ”Maitreya”[5] [ou a Segunda Manifestação do Cristo]. O Budismo Mahayana considera Maitreya o próximo grande instrutor do mundo. Por enquanto ele espera, como Rei dos Céus Tushita, ou o “Feliz Reino Ocidental”, [o Paraíso da Trindade Sagrada], onde habitam as entidades especiais, que aguardam a última encarnação antes de se tornarem budas.

O Conceito ocidental de Feliz Reino Ocidental pode ser considerado como a “centelha sagrada”, a centelha do ser por meio da qual podemos obter o renascimento divino e consecução de pura Realidade Objetiva do Cósmico: ”fundir a gota de orvalho da mente individualizada no Oceano Brilhante da Mente Única.”[7]. Auxiliar a conseguirmos esse estado nobre e iluminador é o objetivo de todas as autênticas escolas de mistérios orientais e ocidentais. [Texto de Burnam Schaa]
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Notas:
[1]_Zimmer, Heinrich, Indian Myths & Symbols In Indian Art & Civilizatio, Princeton, NJ, Princeton University Press/Bollingen Seres, 1946;
[2]_Evans-Wentz, W.Y. Tibetan Yoga and Secret Doctrines, London, Oxford University Press, 1960;
[3]_Evans-Wentz, W.Y. The Tibetan Bok of the Dead, London, Oxfor University Press, 1906;
[4]_Evans-Wentz, W.Y. Tibetan Yoga and Secret Doctrines;
[5]_ibid.
[6]_ibid.
[7]_ibid.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

JACOB BOEHME _ O VIDENTE E A VISÃO_


O filósofo místico do século dezessete, Jacob Boehme, é uma das figuras mais extraordinárias das idéias. Tendo nascido em 1575, numa vila perto de Görlitz, no que hoje é a Alemanha Oriental, Boehme tornou-se sapateiro. Embora tenha tido escolaridade apenas elementar e a despeito de sua origem humilde, Boehme exerceu enorme influencia em alguns dos mais profundos pensadores do período moderno. O filósofo alemão, Schelling, por exemplo, chamou Boehme de “um fenômeno miraculoso na história da humanidade”, e o poeta inglês, Coleridge, declarou que ele foi um “estupendo ser humano”. A maneira como Boehme sondou a natureza da existência, seu espantoso discernimento das leis que regem o universo, é realmente irresistível. No entanto, ele continua a ser um personagem obscuro. Poucas pessoas tem paciência ou tempo para acompanhar penosamente sua obscura e difícil prosa alemã, a fim de apreender o esplendor de sua visão. Mas o esforço, uma vez feito, é compensador.

Grande parte do conhecimento de Boehme veio numa série de notáveis momentos de iluminação que, na época, surpreenderam-no tanto quanto mais tarde espantaram seus leitores. Boehme escreveu sobre essas experiências [a primeira das quais ocorreu em 1600, quando ele tinha vinte e cinco anos], dizendo que aprendera mais num quarto de hora do que teria aprendido se tivesse estudado durante anos numa universidade.

Foi a partir dessas experiências que ele elaborou, numa série de pesados volumes, sua descrição da “natureza eterna”, termo que escolheu para o que pensava ser a estrutura mesma da própria realidade em seu estado mais fundamenta, unificado e poderoso. Ele descreveu isso como algo feito do conflito dinâmico entre sete propriedades fundamentais de que tudo o que existe se origina. E concebeu essas propriedades em termos de opostos de fogo e luz, ódio e amor, declarando que cada propriedade era necessária para a existência de outras, porque ele estava convencido de que nada no universo poderia conhecer a si mesmo exceto por interação dinâmica com seu próprio oposto.

UM ESTADO DINÂMICO DE TENSÃO CRIATIVA_
Por toda parte ao seu redor Boehme via esse embate de opostos, de luz e trevas, tocando o universo para a frente. Mas na natureza eterna ele via essa luta elevada a um plano superior em que todas as energias em oposição eram mantidas num estado dinâmico de tensão criativa ou equilíbrio. Ele chamou isso de “jubilosidade triunfante” – a mente universal regozijando-se em si mesma numa ‘coincidência oppositorum ‘ de empolgante poder e majestade.

Essa inspirada visão de uma harmonia dinâmica de fogo e luz no próprio âmago da existência é uma das contribuições mais profundas de Boehme para a história das idéias. Ela dominava sua mente, de modo que ele escreveu a seu respeito repetidas vezes, extensamente e com força compulsiva. Ele estava absolutamente seguro de que havia penetrado no centro criador da própria vida. O misticismo cristão nunca vira nada parecido [embora não haja dúvida de que Boehme foi influenciado pela árvore sefirótica da cabala].

Uma das principais contribuições de Boehme consistiu em reabilitar as energias “negras” da criação. Elas se tornaram o fogo ardente de que a luz da vida emerge e sem o qual não haveria existência. Na natureza eterna, essas energias negras ou obscuras não são más. No universo de Boehme, nada é em si mesmo mau; cada coisa assume o seu caráter em função da posição que ocupa em relação a tudo o mais. Portanto, ele não precisava de um dualismo cristão. Nada devia ser excluído, mas simplesmente transformado, realinhado, colocado novamente em harmonia; ele procurou unificar a realidade sem destruir sua polaridade essencial. E foi uma realização brilhante.

Boehme era um homem prático, interessado no conhecimento metafísico somente como um meio de despertar a humanidade para a compreensão de seu próprio status como “filha da eternidade”. Ele achava que a natureza eterna tinha vital importância neste particular, porque compunha a parte superior da própria constituição do homem. Antes da queda, diz ele, o homem tinha conhecido suas origens, e sua vida tinha incorporado a bem-aventurança da natureza eterna. O ser humano havia gozado de perfeita saúde e felicidade, e teria continuado a viver assim se sua visão não se tivesse tornado nublada pela ignorância. Doença e saúde surgiram somente quando ele escolheu focalizar sua mente na natureza fragmentar do mundo material, em lugar da integralidade da eternidade. Isso perturbou o balanço das “propriedades” em sua própria constituição. Sua queda foi uma conseqüência dessa perda de equilíbrio eterno e resultou num estreitamento de sua capacidade perceptiva.

MICROCOSMO E MACROCOSMO_
No entanto o homem retém sua capacidade de tornar-se novamente o senhor de suas circunstâncias. Seu conhecimento está adormecido e não perdido. Isto pode ser melhor compreendido atentando-se para o tratamento especial que Boehme dá à antiga idéia, enfatizada no hermetismo, da correspondência entre microcosmo e macrocosmo. Assim como em cima, é embaixo. Como tal, isso é um lugar comum do pensamento renascentista, mas Boehme dá a essa afirmação a vida vibrante e a significação direta de um filósofo que tem profundo discernimento intuitivo das leis da natureza. Ela assenta, primeiro, no que Boehme chama de “assinatura”, ou seja,em que, na emanação da energia criadora que dá origem ao mundo material, a natureza eterna “assina” a si mesma em cada aspecto e detalhe da Criação. Entender a “assinatura” de um objeto é penetrar suas qualidades essenciais, é vê-lo como manifestação de sua origem na natureza eterna. Ligar todas as assinaturas numa só percepção iluminada é ver tudo acontecendo num padrão ordenado de influências e relações que compõem a sutil estrutura da Criação.

Com isso relaciona-se a idéia hermética de Boehme de que “tudo está em tudo”; cada parte da Criação contém a totalidade. É esta visão que o leva a perceber, como o poeta inglês Blake, “um mundo num grão de areia”. Este conceito é especialmente importante para o homem, que, diz Boehme, contém o Universo em si mesmo. A mente do homem permanece sempre ligada à sua fonte transcendente, na qual está contida a totalidade do conhecimento, de modo que, conhecendo a si mesmo, ele pode conhecer tudo o que existe no universo. Boehme quer dizer isso literalmente. Ele concebe um modo de conhecer mediante cognição direta, que chama de “VERSTAND” [literalmente, compreensão]. Verstand apreende a totalidade do que existe e pode intuir tanto as leis fundamentais como os detalhes específicos que estruturam o mundo físico. Isto está em contraste com “VERNUNFT” [razão], que só percebe parcialmente e não pode penetrar as camadas mais profundas da Criação.

Isso, em suma, é uma pequena parte da contribuição do sapateiro de Görlitz para o esclarecimento do ser humano. Boehme era um pensador profundo e um vidente maiúsculo. E isso nem sempre foi fácil para ele, que muitas vezes sofreu agressões, que suportou pacientemente, por parte dos defensores da religião ortodoxa. Por exemplo, quando ele foi forçado a sair da cidade, disse tranqüilamente: “como vejo que não pode ser diferente, estou contente”. Às vezes ele dava uma resposta mais forte. Quando um de seus oponentes escarneceu dizendo, “que é que há com esse tolo, quando é que ele vai parar de sonhar?”, Boehme replicou em tom de desafio, “ora, ora, veremos que espécie de sonho isso acaba sendo”! Ele achava que sua obras seriam negligenciadas após sua morte, mas dizia que elas floresceriam novamente na “estação do lírio” [ o lírio era seu freqüente símbolo de pureza espiritual].

O IMPACTO ATUAL DA FILOSOFIA DE BOEHME_
O tempo de Jacob Boehme pode afinal ter chegado. Hoje há sinais de que estamos novamente nos afastando do que o poeta irlandês Yeats descreveu como “três séculos provincianos” de racionalismo cientifico, rumo à redescoberta de uma filosofia holística que enfatiza o potencial infinito da própria consciência do homem. Boehme é um guia e modelo inspirador para essa transição.

Talvez essa tendência possa ser mais claramente percebida em Física, na qual distinções antes absolutas entre sujeito e objeto, conhecedor e conhecido, desmoronaram, e a consciência humana é entendida como intimamente envolvida em moldar a maneira como vemos o mundo. Particularmente interessante é o impulso inexorável para a realização do sonho de Einstein, de uma teoria do campo unificado. A recente descoberta de um estado denominado “supersimetria”, no qual elementos opostos da Criação, como campos de força e matéria, coexistem num “supercampo” de inimaginável energia e dinamismo, representa um grande passo nessa busca.

Alguns físicos sugerem que esse supercampo é o campo da própria consciência humana, em seu estado mais simples e poderoso, o que o torna extraordinariamente paralelo à descrição de Boehme da coexistência de todos os opostos na “natureza eterna”. Ambas as perspectivas dão à consciência humana um formidável poder criador. Boehme insiste em que criamos nossa própria realidade conforme nossos impulsos, pensamentos e desejos. E aquilo que temos poder para criar, temos poder para mudar. Talvez o próximo passo evolutivo para o ser humano consista em desviar o foco de sua consciência, da “natureza temporal”, composta como ela é de contradições e limitações inconciliáveis, para a perfeição da “natureza eterna”, na qual o mundo é vivenciado em seu pleno valor como uma miríade de “assinaturas” [uma verdadeira “jublosidade triunfante”]. Esse salto, em que o homem atinge a plenitude de sua estatura e poder, representaria a realização da inspirada visão de Boehme. [Texto de Bryan Aubrey]

ENSINAMENTOS DE JACOB BOEHME_
Um dos seguidores de Jacob Boehme, sobre as obras deste, afirmou: “Suas obras são uma fonte de felicidade e conhecimento espiritual, da qual podemos beber sem perturbarmos a ordem da vida exterior”.

Jacob Boehme, nasceu em 1575, em Altseidenberg, Alemanha. Jovem ainda, cuidava de rebanhos. Um dia, numa colina, teve uma estranha visão, que lhe proporcionou um vislumbre do que o aguardava. Mais tarde, trabalhou numa sapataria. Em certa ocasião, um personagem estranho e misterioso entrou na loja e chamou o jovem Jacob de lado.

“Você sofrerá grande pobreza, problemas e perseguições”, disse-lhe, “mas não tema. Seja firme, pois Deus o ama e lhe é bondoso.”

O jovem Boehme resolveu deixar-se dirigir por seu EU SUPERIOR. Praticou a bondade, a humildade e a paciência. Aos dezenove, casou-se. Aos vinte e cinco, uma segunda iluminação lhe ocorreu. Foi então que ele aprendeu a penetrar com os “olhos da alma” os segredos da natureza. Aos trinta e seis [idade muito propícia à iluminação], adveio-lhe uma terceira iluminação. Embora permanecesse nesse estado por vários dias, realizou seu trabalho diário normalmente se que os outros percebessem o que o seu verdadeiro EU Interior estava vivenciando.

De um modo psíquico, que todos os verdadeiros místicos compreendem, recebeu Boehme a ordem de escrever o que ele tinha visto e vivido durante essa última iluminação, e foi o que ele fez.

O TESTE DA VERDADE_
Em épocas passadas, aqueles que tentaram revelar os segredos do universo aos homens foram condenados como pessoas perigosas, que tinham pacto com o demônio. Os atenienses, de cultura refinada, baniram Protágoras e queimaram suas grandes obras. Condenaram também Anaxágoras à morte simplesmente porque com sabedoria afirmara que existia uma Inteligência Divina! O monge e alquimista medieval Roger Bacon e Paracelso sofreram muita perseguição por compartilharem suas maravilhosas descobertas com a humanidade.

Naturalmente, como fora predito, Boehme sofreu inimizades e perseguições por causa de seus ensinamentos; pois, em sua época, a nenhum homem era permitido proclamar seus próprios pensamentos ou tentar esclarecer as massas com os grandes ensinamentos conhecidos por uns poucos somente. A Igreja condenava todas as obras que não fosse por ela sancionadas. Embora os cruéis ataques, Boehme granjeou muitos seguidores. Certa vez foi ele chamado a um debate com os mais destacados teólogos. Ao invés de ser intimidado, seu imenso conhecimento e a clareza de suas explicações deixaram-nos perplexos; e a maioria desses juízes tornaram-se seus amigos e admiradores mais ardentes. Mesmo o filho de Richter, seu maior inimigo, tornou-se seu amigo.

Apesar do ódio e das implacáveis perseguições que Richter fez cair sobre ele, Boehme sempre tratou seus inimigos com a mais ampla comiseração e jamais disse ou fez qualquer coisa que viesse de algum modo refletir-se contra ele. Respondeu a alguns dos causticantes ataques de Richter na mais cordial e compreensiva das maneiras.

Como em épocas passadas, e certamente em épocas futuras, a VERDADE e a LUZ jamais poderão ser suprimidas pela falsidade e as trevas. Hoje, a despeito das perseguições por ele sofridas e da condenação de seus escritos, as Obras de Boehme destacam-se como os ensinamentos mais lúcidos da filosofia mística. Por exemplo, seu “MYSTERIUM MAGNUM”, se lido cuidadosamente, revela ao buscador muitas das “chaves” dos mistérios das antigas fraternidades místico/filosóficas e iniciáticas.

“Aquele que lê estes escritos”, escreveu ele, “e não pode compreendê-los, não deve colocá-los de lado, imaginando que jamais poderá compreendê-los. Deve ele procurar mudar sua vontade, e elevar sua Alma a Deus, pedindo-Lhe graça e compreensão, e, depois, lê-los novamente. Perceberá então mais verdade que antes.”

É preciso que nos lembremos de que se passaram quase quatrocentos anos desde que Boehme escreveu seus ensinamentos. Muita de sua fraseologia parece confusa, e sua constante menção ao demônio e ao inferno pode levar os leitores a acreditar que ele considerava o inferno um lugar real. Este era, porém, o único modo em que ele podia aludir aos instintos inferiores do homem.

CELESTIAL E TERRENO_
De acordo com Boehme, enquanto a Alma está encerrada no seu corpo terreno, o homem é como uma reprodução microscópica do universo. Seu corpo corresponde ao mundo, e também aos astros que governam todas as coisas terrenas; sua alma, a parte de Deus em seu interior, corresponde à Fonte de todas as coisas. Desenvolvendo sua divindade interior, pode o homem governar todas as coisas terrenas, do mesmo modo que a Bondade e o Sublime Amor de Deus mantêm total harmonia no movimento dos planetas. Shakespeare explica esta verdade em sua profunda afirmação: “A falta não reside em nossos astros, mas em nós mesmos, que somos lacaios.” Podemos ou governar nós mesmos, por meio de nosso Eu interior, ou nos deixar governar pelos astros através do nosso corpo material, disse Boehme.

“No homem tudo está contido – Deus, o Cristo, os anjos, os reinos celestial e terreno, e as potências do inferno. Fora dele nada há que ele possa conceber; nada pode conhecer além do que existe em sua mente. Nenhum deus ou demônio, nenhum espírito ou potência pode agir dentro do homem a menos que penetre em sua constituição. Só aquilo que existe dentro dele tem existência para ele.”

Disse ainda: “Você é um pequeno mundo criado de um mundo maior, e sua luz externa é um caos do sol e da constelação das estrelas. Se assim não fosse, você não seria capaz de enxergar por meio da luz do Sol.”

Sucintamente, o que não está em nós jamais podemos perceber, ou compreender, no exterior.

“Se deixarmos remoer desejos terrenos, nossa mente será cativada por eles; mas se nos elevarmos espiritualmente acima do mundo de sensações e desejos terrenos, o mundo da luz cativará nossa vontade, o mundo terreno perderá seu poder de atrair nossa consciência e ingressaremos no sublime estado de Deus.”

“Quando a eterna luz divina penetra a alma, acende um fogo que ilumina toda a essência da alma, de modo que esta torna-se luminosa, como um espelho, ou olho, em que se reflete a luz de Deus.”

O OLHO DA MENTE_
Esse “espelho” ou “olho” mencionado por Boehme, é o que os adeptos vem a conhecer como “o olho da alma”, ou o terceiro olho do homem, o olho da mente, pelo qual todas as coisas podem ser vistas. A concentração diligente pode desenvolver essa visão interior do homem; então, pela meditação, as coisas ocultas do universo são refletidas, como num espelho, conforme afirma Boehme.

EM LEMÚRIA _ O CONTINENTE PERDIDO DO PACÍFICO_ livro muito fascinante, o autor afirma que os lemurianos eram harmonizados psiquicamente com o Cósmico, e seu “olho da mente” era muito desenvolvido. O homem, por sua própria culpa, perdeu o uso dessa faculdade de visão. Essa visão, porém, pode voltar a funcionar normalmente nas pessoas que o queiram. Aliás, muitas faculdades adormecidas podem voltar ao normal colocando-se em prática certas leis naturais conhecidas e ensinadas por todos os místicos de épocas passadas. Conhecendo a nós mesmos, progredimos; desenvolvendo nosso Eu Interior, alcançamos os cumes da sabedoria.

“Ninguém conhece seu próprio EU até que perceba seu verdadeiro EU na Unidade do Todo.”

Este é o segredo de todos os ensinamentos do mundo, e explica a máxima de Parmênides de que “Todas as coisas são uma só”. Para saber isto, o estudante deve aprender a conhecer a si mesmo, pois “quanto mais fundo penetramos em nosso interior”, como escreveu Boehme, “mais alto atingimos a Divindade.”

“Quando o homem encontra-se a si mesmo em seu próprio interior, penetrando no abismo ilimitado do seu próprio interior, encontra, então, na auto-consciência de sua própria condição de ser humano, o poder e a fortaleza por cuja ‘expansão’ sua vontade e seu pensamento tornam-se poderosos para atuar mesmo a distancias imensuráveis.”

Isto explica a projeção de consciência e a manifestação de mensagens mentais.

CONTEMPLAÇÃO E HARMONIZAÇÃO_
Boehme pôs grande ênfase na auto-contemplação do homem. Por ela estamos sempre tomando consciência de nossos atos e invariavelmente descobrimos novas maravilhas em nós mesmos. Em tudo o que o homem faz, vê um reflexo de si mesmo.

“O mundo”, disse Plotino, “provém de uma Força Original que se divide em Mente...numa dualidade de Pensamento e Ser. A natureza é o resultado dos pensamentos que contemplam-se a si mesmos e os fatos da Natureza são suas autocontemplações.”

É somente ao nos deixarmos orientar pela “Divina Auto-Consciência”,como a chamava Boehme, que alcançamos o objetivo que desejamos. É somente pela humildade e pela paciência – as qualidades mais difíceis de o ser humano desenvolver – que advém o poder espiritual.

Como escreveu Boehme: “Poucos adquirem sabedoria sem momentaneamente desejarem utilizá-la para fins egocêntricos.” Para alcançar algum estado de paz, devemos procurá-lo com a esperança de ajudarmos os outros e nós próprios. Com a harmonização advém a paz que Boehme chamava de “GELASSENHEIT”. Nesse momento, quando a Trindade se revela à alma purificada do homem, o esplendor da majestade de Deus também é revelado.

“O desejo oprime a alma. Contrai trevas densas e tristes. Desejos não realizados entristecem a alma.”

O homem tem desejos. Se seus desejos forem para o bem e a necessidade dos outros, eles se materializarão, pois o homem estará motivado por puro amor. Mas se seus desejos forem por demais egocêntricos e ele não puder realizá-los, não conseguirá qualquer ajuda do Cósmico. Será, pois, atirado ao desalento pelas trevas que seus desejos irrealizados criaram para ele.

Ao penetrarmos em nosso interior, e alcançarmos nosso Ser Interior, devemos, necessariamente, entrar em íntimo contato com a Fonte de que tudo procede. Fazendo isto, harmonizamo-nos com o Cosmos e percebemos que “tudo é um”. Em outras palavras, descobrimos que, pela Contemplação Divina, o microcosmo é uma reprodução completa, ou reflexo, do macrocosmo. Por conseguinte, tudo o que é conhecido no macrocosmo pode também ser conhecido no microcosmo.

SABEDORIA ETERNA_
“Deus é a vontade da sabedoria eterna”, disse Boehme, “e a sabedoria eternamente d’Ele gerada é Sua revelação. Essa revelação ocorre através de um espírito tríplice. Primeiro, através da Vontade eterna, e como tal e em seus aspectos, como o Pai; depois, através da Vontade eterna no sentido do amor divino, o centro do coração do Pai; finalmente, através do espírito, o poder que emana da Vontade e do Amor.”

Ao deixarmos que o nosso ser seja utilizado pelo Cósmico, ao fazermos tudo com amor e altruísmo, e ao colocarmos essas resoluções em prática em nossa vida diária, alcançamos elevado grau de iluminação.

Ninguém seguiu esse preceitos com tão estrita adesão quanto Jacob Boehme. Como todos os grandes místicos, ele conhecia todas as coisas, e previu o dia e a hora de sua transição.

Em época posterior, Louis Claude de Saint Martin, o grande místico Rosacruz, traduziu as obras de Boehme para o francês. Goethe e Schlegel reverenciavam também sua memória.

A vida e os ensinamentos de Boehme foram exemplos genuínos de Verdade e Luz. Sua personalidade nessa encarnação é ‘ainda’ amada e reverenciada, apesar do ódio de seus inimigos que procuraram suprimir e destruir seus escritos.

Seus escritos continuam a espargir Verdade e Luz ao mundo num círculo de Glória cada vez mais amplo. [Texto de William H. Mckegg]

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

INFORMÁTICA E MISTICISMO_


A associação das palavras “informática” e “misticismo” talvez cause surpresa. Em que medida o computador, estrutura puramente material, tem relação com o misticismo? Procuremos neste artigo discutir essa questão.

A informática é uma disciplina recente, nascida no final dos anos 40. Seu objetivo é conceber programas [ou aplicativos] que permitem automatizar tarefas repetitivas. Existem vários campos na informática: o gerenciamento dos dados, o cálculo cientifico, a concepção e criação com a ajuda do computador, etc. Vejamos sucintamente a estrutura de um computador.

O COMPUTADOR E O SER HUMANO_
Um computador compõe-se de diversas partes. A unidade central contém um processador, principal órgão de decisão, verdadeiro “cérebro” da máquina, pelo qual passa toda informação. Um microcódigo está contido na memória morta [ROM], que contém informações de modo permanente, instaladas na hora da criação da máquina. É uma espécie de código genético do computador. A memória central, também chamada de “memória viva” [RAM], conserva as informações enquanto a máquina estiver ligada. Podemos comparar essa RAM à memória de curto prazo do ser humano.

A memória de massa permite reunir um grande número de informações na máquina, e conservá-las de modo permanente. Usamos para isso um suporte físico, como um disquete, um disco, uma fita magnética, etc. Podemos comparar essa memória tanto à memória de longo prazo do ser humano como a de um caderno onde anotamos informação.

Por exemplo, é bem provável que um ser humano retenha um número de telefone por alguns minutos depois de tê-lo recebido, mas venha a esquecê-lo alguns dias mais tarde. Isso corresponde à memória de curto prazo [RAM]. Mas ao contrário, se ele decora esse número [memória de longo prazo], ou se o anota em um caderno, será fácil, mesmo depois de muitas semanas, recuperar a informação: buscando no caderno ou fazendo um esforço ‘de memória’. Isso corresponde à memória de massa. Esse meio de armazenamento é bem menos limitado que a RAM, mas requer um tempo maior para a busca de informações.

Todos esses elementos constituem o núcleo básico do computador. É preciso acrescentar-lhe os órgãos periférico: monitor, leitora de disco ou disquete, etc. Além disso, para poder funcionar e, principalmente, se comunicar com o usuário humano, a máquina necessita de uma linguagem, denominada “sistema de exploração”. Em geral, um computador funcionando com um sistema de exploração muito específico seria incapaz de ler dados escritos a partir de um outro sistema de exploração, do mesmo modo que um ser humano não compreenderia um livro escrito numa língua que não a sua. Há, porém, exceções, à semelhança dos seres humanos que às vezes compreendem e falam várias línguas. Portanto, um paralelo humano/computador é possível.

Aquilo que é verdadeiro a nível de indivíduo, também o é a nível de grupo. Do mesmo modo que o homem não vive isolado e se comunica com outros homens, o computador utiliza as “redes informáticas” para enviar informações para outros computadores, e também receber. Assim, é possível enviar em poucos segundos, via rede, uma mensagem da França ao Canadá. A informação pode ser de natureza diversa: texto [análogo ao envio de uma carta],som [comparável ao telefone] ou imagem [como em uma tv ou fax].

Aliás, cada vez mais sons e imagens estão sendo gerados a partir do computador. Os sons sintéticos invadem nossas musicas [a “dance music”, a “tecno”, etc]. As imagens de síntese, criadas inteiramente pelo computador, estão presentes nas telas de cinema e televisão [por exemplo, nos noticiários de TV].

Assim, mais do que nunca, podemos nos questionar se aquilo que vemos e ouvimos com nossos sentidos objetivos existe realmente. Com as imagens de síntese, podemos ver cenas que não existem na realidade!

Além disso, pode acontecer de não percebermos imagens que, no entanto, estão realmente presentes. Sem falar de imagens subliminares, vamos ficar com as imagens ocultas em “3D stereo” [em relevo], que surgiram há alguns anos, criadas por computador. Trata-se de um desenho contendo uma repetição de determinados padrões. Olhando a imagem de um certo modo, pode-se ver aparecer uma outra imagem, em relevo. Atrás dessa outra imagem pode se esconder uma segunda, e atrás desta às vezes até mesmo uma terceira...O observador tem então a impressão de estar usando uma outra visão [a visão psíquica?] que lhe permite descobrir coisa escondidas por trás das aparências banais da imagem primeira, e de ter passado então para um outro plano. Assim, já que vemos o que não existe [imagens em síntese] e não vemos imediatamente o que está de fato diante de nossos olhos [imagens ocultas em 3D stereo], podemos então nos perguntar se o mundo existe tal como nossos sentidos objetivos o descrevem. Chegamos então a um pensamento místico que não é estranho aos ensinamentos das fraternidades místico/filosóficas.

Seria a vida como uma peça teatral ou um filme que se desenrola ante nossos sentidos objetivos? A priori não, pois não somos nem passivos nem unicamente “espectadores”; podemos agir sobre os acontecimentos, usar nosso livre-arbítrio e modificar o curso das coisas, graças às escolhas que fazemos. Contudo, notemos que, quanto aos computadores, há hoje em dia filmes de síntese que apresentam seqüências de vídeo variadas, segundo a escolha feita pelo usuário. Pode-se selecionar áreas determinadas na tela e interagir diretamente com o desenrolar do filme. A cena, então, muda em função da ação do usuário, podendo o final ser completamente diferente de um usuário para outro.

Isso nos leva a uma outra disciplina da informática, a realidade virtual, onde o ser humano fica completamente imerso em um mundo de síntese: um capacete cobre-lhe toda a cabeça para isolá-lo do mundo exterior, imagens são projetadas diretamente ante seus olhos e luvas especiais servem de captadores para interagir com o meio virtual. Assim, por exemplo, duas pessoas se encontram “virtualmente”, graças a essa técnica, na abadia de Cluny [hoje em ruínas, mas reconstituída virtualmente através de imagens de síntese], sendo que uma delas está em Paris e a outra em Mônaco. Que é então a realidade? Assistimos com esse tipo de tecnologia, a uma supressão do tempo e do espaço!

Notamos, então, que o computador, em sua estrutura e comportamento [sua utilização], possui pontos em comum com o ser humano. Teria o homem desejado ‘criar uma máquina à sua imagem’? Está nossa sociedade em vias de criar um Golem [no sentido da Qabbala] ou o monstro de Frankenstein? A priori, não! Não esqueçamos a dimensão trina do homem: corpo físico, corpo psíquico e alma. A comparação, se comparação existe, pára no nível mais material, o corpo físico. Embora as vibrações da energia Espírito estejam contidas em tal máquina, nem a Força Vital nem a Alma estão presentes.

COMPUTADOR E RACIOCÍNIO_

Isso não significa, porém, que o computador seja incapaz de raciocinar. Com efeito, graças à “inteligência artificial”, temos hoje aplicativos dotados de capacidades de raciocínio. Esse ramo da informática, nascido no final dos anos 50, tem por objetivo padronizar e reproduzir, em máquina, o comportamento humano inteligente. Para isso, apela para outras áreas, como a psicologia [essencialmente a psicologia cognitiva], a lingüística [e psicolingüística], a filosofia e a lógica.

Assim, hoje em dia podemos encontrar máquinas capazes de derrotar jogadores experientes, usando programas nascidos da inteligência artificial. Do mesmo modo, vimos aparecer a noção de “sistema especialista”, aplicativo capaz de adotar o raciocínio de um especialista em uma área precisa – por exemplo, diagnóstico de defeitos em carros, detecção de rubéola na mulher grávida, ou identificação e classificação de cogumelos a partir de sua descrição.

A inteligência artificial interessa-se essencialmente por dois aspectos: a representação do conhecimento e o raciocínio. Diversos modos de raciocínio são, assim, reproduzidos em máquina: dedutivo, indutivo, por analogia, à base de casos exemplos, por redes de neurônios artificiais [conexionismo]. Igualmente, o modo como o homem estrutura seu conhecimento para usá-lo melhor é estudado. Algumas pesquisas, estão sendo feitas sobre os vários meios de representação dos conhecimentos: lógica de predicados, lógica sutil, lógica temporal, redes semânticas, textos, representações orientadas, objetos, etc.

A noção de ‘metaconhecimento’ é igualmente interessante. Refere-se ao “conhecimento do conhecimento”, ou seja, a padronização daquilo que se sabe [às vezes até da ignorância]. Assim, o computador pode, dotado desse metaconhecimento, ser capaz de se auto-analisar, separando aquilo que ele conhece daquilo que ele ignora, tendo então “consciência” de seu próprio conhecimento, noção muito interessante do ponto de vista filosófico [“que sei realmente?”].

Ligado aos conhecimentos e ao raciocínio, aparece também, em inteligência artificial, a noção de “aprendizagem automática”. Trata-se de conceber programas que permitam à máquina aprender sozinha, sem nenhuma intervenção humana, novos conhecimentos a partir de casos concretos, diríamos quase que de “situações vividas”. Aí também, não podemos nos impedir de traçar um paralelo com o ser humano, ainda mais que a inteligência artificial não se confina ao comportamento do indivíduo isolado mas ao de toda uma sociedade. Vemos então surgir a noção de inteligência artificial distribuída [IAD], utilizando sistemas multi-agentes [SMA], composta de um conjunto de agentes artificiais autônomos [programas informáticos], isto é, de vários aplicativos capazes de se comunicaram entre si e interagirem com o objetivo de resolver um problema preciso.

Assim, os computadores se associam, tal como os seres humanos, para realizar tarefas complexas, sendo cada um mais ou menos especializado numa área particular e “subdelegando” partes do problema a outros computadores.

Aí também podemos ter a impressão de que o homem tenta criar à sua imagem um sr [um aplicativo, portanto, imaterial] capaz de servi-lo, de ajudá-lo, até mesmo de substituí-lo no cumprimento de algumas tarefas. Topamos de novo com o pensamento cabalístico sobre o Golem. “O computador, esse ser de linguagem, é bem o companheiro fiel do homem contemporâneo. Mas para que fim?...à medida que os computadores estão cada vez mais ramificados[distribuídos], seus criadores estão perto das concepções iniciais e se aproximam das teses da Cabala. De fato, são os arranjos de linguagem ou as instruções [o aplicativo]mais que o pó ou a areia – o silício é a matéria própria dos processos – que constituem o eixo de desenvolvimento em informática.” [J-L Moisset e M-L Cohen].

Pois bem, o Sefer Yetzirah, livro básico para a Qabbala, ensina as capacidades criativas das combinações das letras. O Rabi Eléazer de Worms, cabalista do passado, explica que é a força criativa das combinações de letras [O Verbo Divino] que permite a Deus criar o mundo e permite ao homem criar um ser artificial: o Golem. Moshe Idel, comentando Eléazar de Worms, escreve a propósito da criação de um homem artificial: “O operador é reputado por criar uma figura ou um corpo a partir do pó; essa forma é chamada de Golem... A operação, que consiste em pronunciar as letras do alfabeto, começa apenas depois da modelagem da forma humana...Uma vez que o matérias esteja pronto, o operador começa o processo que compreende, entre outras coisas, a recitação das letras do alfabeto. O operador cria 231 combinações de letras que correspondem a outros tantos ‘portais’...”[Moshe Idel].

O Golem aparece assim como um ser de linguagem, tal como o computador. “Assim, as antigas discussões de rabinos, que podiam parecer saídas de uma mística arcaica e ultrapassada pelo progresso da ciência e da tecnologia, encontram-se no coração da mais moderna atividade cientifica. As antigas indagações éticas dos sábios da tradição judaica a respeito do Golem tomam hoje todo um sentido. Moshe Idel escreve que “a prática da criação do Golem constitui uma tentativa humana que visa conhecer Deus através do meio pelo qual Deus operou para criar o homem”. E Henri Atlan, prefaciando o livro de Moshe Idel, nos convida a questionar a respeito do estatuto moral de um tal ser e, em particular, de sua autonomia e de sua responsabilidade perante a lei.” [J-L Moisset e M-L Cohen].

O COMPUTADOR E A QUABBALA_
A Qabbala nos traz, portanto, uma imagem diferente do computador. Mas a informática, em si mesma, pode também servir de instrumento para pesquisas sobre o misticismo e, em particular, sobre a Qabbala.

Em nosso comitê “Informática e Misticismo” dois terços dos trabalhos são feitos em relação à Qabbala, com o objetivo de descobrir os sentidos ocultos do texto bíblico e, desse modo, sentir melhor nossa ligação com Deus.

Possuímos um aplicativo, o “RAZIM” [1], que permite fazer a guematria, isto é descobrir a partir de uma palavra todas as palavras que tem a mesma soma [cada letra hebraica está associada a um número]a fim de encontrar correspondências secretas. Ele permite também encontrar palavras ocultas em meio ao texto bíblico, segundo o método da Guezerah Shavah” [Doron Witztum], tirado do Zohar, utilizando-se seqüências de letras eqüidistantes. Isso permite determinar com precisão alguns sentidos secretos e até mesmo descobrir fatos históricos que se passaram bem depois da Bíblia ter sido escrita.

Por exemplo, tomemos a palavra “TORAH”, que designa o PENTATÊUCO, isto é, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento: a Gênese, O Êxodo, o Levítico, os Números, o Deuteronômio. Na primeira palavra da Gênese [“bereshit = no princípio]encontra-se a letra Tav [T] de “Torah”. Contando 50 letras para frente[sem contar os espaços], encontra-se a letra Vav [O] de “tOrah”, no termo “as profundezas”. Em seguida, 50 letras adiante, obtém-se Resh [R], em “ele vive”. Mais 50 letras adiante, tem-se He[última letra da palavra], em “Elohim”. Portanto, “No princípio, nas profundezas, ele vive, Deus. [ em português: “Deus vive”]...”. Mera coincidência?
Encontra-se o mesmo fenômeno no segundo livro da Bíblia [Êxodo]. A mesma coisa no quarto [Números] e também no quinto [Deuteronômio]. Com outras palavras acontece o mesmo! Além disso, afixando as palavras por linha de 50 letras [para este exemplo], sem nenhum espaço, topamos com a aparição de novas palavras, satélites, em torno da palavra “TORAH” [ou da palavra pesquisada por este método], em relação direta com a mesma. Em resumo, notamos também associações de palavras que permitem encontrar um sentido oculto na Bíblia.

Conseguimos, da Universidade de Lyon [2], toda a Bíblia em hebraico no computador [os 39 livros do Antigo Testamento], como também o aplicativo que permite gerar e editar textos em hebraico. A partir daí, começamos a conceber um aplicativo que permite contar o número de palavras ou de ocorrência de cada letra hebraica em cada capítulo, versículo ou livro [ou ainda no total], e levantar tabelas estatísticas. O objetivo é tentar descobrir, a partir daí, o simbolismo oculto da faixa de texto em questão. Estamos pensando em estender o programa, num futuro próximo, à contagem de ocorrências de palavras, depois de fazê-lo evoluir para a análise de contextos. Obtivemos recentemente os primeiros resultados, que comentamos abaixo:

ð Contando o número de ocorrências de cada uma das 22 letras hebraicas, pode-se constatar, tanto no conjunto dos 39 livros do Antigo Testamento quanto no livro do Pentateuco, que a letra mais presente é YOD [139.875 aparições no conjunto dos 39 livros], seguida por VAV [131.428 ocorrências], depois HE [102.734]. Em seguida, vêm as letras MEM [99.746] e ALEPH [96.405], ao passo que algumas letras aparecem menos de 10.000 vezes [ZAïn, TET, SAMéH].

Ora, as letras que aparecem mais de 100.000 vezes são justamente as letras simples que formam o TETAGRAMA divino: YHVH [YOD HE VAV HE]. Em seguida, logo abaixo da linha das 100.000 ocorrências, vem duas das letras-mãe: ALEPH e MEM. Salientemos, porém, que a letra SHIN aparece 58.680 vezes, logo após LAMED, RESH e TAV. Por enquanto não tivemos êxito em explicar esse fenômeno. Ressaltamos, porém, que a versão da Bíblia à nossa disposição, extraída do manuscrito B19a de Leningrado, contém várias passagens entre parênteses, correspondendo a comentários [ausentes no texto original]. Talvez haja muitas letras, como LAMED, RESH e TAV, nessas partes entre parênteses, que devem ser ignoradas. Em breve, vamos modificar nosso aplicativo de modo a não levar em conta essas partes, a fim de obtermos novos dados estatísticos. Seja como for, é notável constatar que primeiro vem as e letras do TETAGRAMA, depois duas letras-mãe. Essas letras de destacam bem nitidamente do resto, pois a média de ocorrência das outras letras é de 37.860 aparições [portanto, longe da linha das 100.000].

Isso vem corroborar um certo número de conhecimentos extraídos da Qabbala, e especialmente do simbolismo das letras. Com efeito, a letra YOD corresponde simbolicamente à PALAVRA DIVINA. Constata-se que realmente o traço preponderante do Antigo Testamento é a PALAVRA DIVINA: é um livro recebido de Deus. Essa letra, segundo Y.A. Dauge, designa o PAI, ponto de partida da Vontade Divina.”O YOD é a divindade presente do fundo de cada ser. YOD corresponde à SEPHIRAH MALKOUTH, o reino. MALKOUTH simboliza a presença de Deus na criação, exilado no mais profundo do nosso ser, e nos recorda que a nós cabe fazer vir à tona e desabrochar essa presença”. [Amédée de Miribel].

A letra VAV vem logo após YOD. Além disso, está presente na maioria dos casos na primeira letra de cada versículo [para ser bem visível]. Essa letra se parece com um YOD que se prolonga para baixo: È a letra do homem, a qual indica a relação entre a criatura e seu Criador, de onde a seguinte interpretação: a Bíblia é a palavra Divina [YOD] que desce à matéria [prolongamento de YOD em VAv] para ser transmitida ao homem [VAV]. Por último, vem a letra HE, simbolizando a janela, abertura para a luz. Assim, estudando a Bíblia, podemos encontrar a abertura para a emersão divina, para a reintegração. Percebemos, além do mais, que isso corresponde à criação do mundo material: o ponto [YOD] torna-se linha [VAV] e depois plano [HE].

A guematria também nos dá elementos interessantes a respeito dessas três letras. YOD tem por valor o 10 [10ª letra do alfabeto], o que nos sugere as 10 Sephiroth. O número 10 é também a soma dos quatro primeiros algarismos [1=2=3=4=10]. Pois bem, HE tem por valor o 5 [depois dos quatro primeiros algarismos] e VAV tem por valor o 6 [que se segue ao 5]. “Essas três letras tem lugar importante na linguagem hebraica. A Qabbala nos ensina que elas abrem os 32 caminhos da sabedoria. Ora, 32 é guematria de “LEV “ [Lamed Beith], o coração, formado por duas letras que marcam o princípio [Beith para Bereshit] e o fim [Lamed para Israel] da Torah. Em hebraico, essas duas letras são também preposições. Beith colocada à frente de uma palavra significa “em”, e Lamed “para”.[Virya]. Assim, o inicio da TORAH situa-se “em” Deus, enquanto o final, “para”Deus, sugere a reintegração. O livro da Bíblia, portanto, é a história do homem em seu ciclo de involução, seguido de evolução rumo ao Cósmico.

A propósito de guematria, fazemos notar que existem diversos métodos de cálculo. A guematria simples, chamada “MISPAR GADOL”, corresponde à soma dos números associados a cada letra que constitui a palavra a ser codificada. Uma outra guematria, chamada “MISPAR KATRAN”, utiliza para cada letra da palavra não o seu valor numérico, mas a guematria em MISPAR GADOL do nome da letra.

Assim, em Mispar Gadol, a letra YOD tem valor 10, mas possui valor 20 em Mispar Katan. O nome dessa letra [“YOD”] compõe-se de três letras: YOD [1ª Letra], VAV[corresponde ao “O”, segunda letra da palavra “yOd”], e DALETH [última letra:”yoD”]. A soma dos valores é, portanto, 10 [Yod]+6[Vav]+4[Daleth] igual a 20. O número 20, associado a YOD,corresponde à guematria, em Mispar Katan, da palavra “BADAD” que significa “isolamento, só, isolado, solidão”. Além disso, é também a guematria de “ABOA”, [Aleph Beith Vav Aleph], que significa “eu virei” [aspecto teúrgico? Podemos entender daí que Deus virá se estudarmos a Bíblia de modo místico?]. O 20 corresponde também a guematria, em Mispar Gadol, das palavras “DYO”[tinta de escrever], “HAYAH”[ser] e”H’AZAH”[ver,olhar;tórax].

Podemos então deduzir que para alcançar a reintegração {letra HE, janela para a luz] ou fazer vir Deus [Aboa = eu virei], o homem deve estudar {H’azah =ver, olhar], recitar e cantar [H’azah=tórax,portanto, canto, sopro], no isolamento [Badad=isolamento], a Palavra Divina [letras YOD]transmitida ao homem [letra Vav] sob forma escrita [Dyo = tinta de escrever]. O estudo da Qabbala deve, pois, ser orientado principalmente num sentido espiritual [e não especulativo] e interior. Parte da prática do cabalista repousa na prece e na invocação.

Chegamos agora à noção de “HITBODEDOUTH”, expressa no século XIII de nossa era por Abraham Aboufalia. Esse termo significa “isolamento” e corresponde ao recolhimento espiritual para a aplicação de técnicas de meditação [“Tserouf”]. O Tserouf, baseado no uso de sons vocálicos e de meditação sobre as combinações das letras, leva a pensar no sopro e, por isso, no tórax, duas vezes evocado anteriormente: por um lado, a partir da guematria da palavra “H’AZAH”, semelhante àquela da letra YOD, encontrada em maior quantidade pelo computador, e por outro lado, pela forte presença de letras ALPEH [perto de 100.000 ocorrências], letra que também se associa ao ar, ao sopro e ao tórax.

O hitbodedouth nos recorda como nos indica Aboufalia em seu livro “H’ayé Haolam Haba”: “Deverás preparar-te pela união do coração e a purificação do corpo. Um lugar especial e reservado deve ser escolhido, onde tua voz não seja ouvida por ninguém. Instala-te completamente só e recolhe-te no hitboded. Deves ficar sentado nesse lugar reservado, que pode ser um quarto ou um cubículo, mas sobretudo não reveles esse segredo a ninguém. Afasta de teu espírito, as futilidades desse mundo, pois esta é a hora em que vais falar com teu Criador, do qual desejas conhecer a Grandeza.” [Abraham Aboufalia].

Do mesmo modo, um discípulo de Issac Louria, Eliezer Azikri, da escola de Safed [séc.XVI], fala dessa prática em seu livro “Sefer Hah’aredim”: “Ele reservará para seu estudo um dia por semana e se retirará da companhia dos homens. Ali, na intimidade de seu Criador, ele atará sua meditação a Ele, como se já estivesse em Sua presença no dia do julgamento.”

A presença em grande numero das letras mãe MEM e ALEPH pareceria indicar uma correspondência com as três letras simples do TETAGRAMA, e especialmente com YOD. Já evocamos a idéia de sopro e de ar, associadas a ALEPH, mas também a YOD por meio da guematria da palavra “H’AZAH”. Aleph corresponde, aliás, simbolicamente, ao sopro de ar que equilibra a água [MEM] e fogo [SHIN]. Não é surpreendente constatar então um certo número de ALEPH compreendido entre o de MEM [água] e o de SHIN [fogo].

Essa associação entre ALEPH e YOD, por meio do sopro, nos sugere também expressões contidas nos capítulo 1 do Séfer Yetzirah [versículos 9,10,11 e 12]:o sopro do Deus vivente “ROUA’H ELOHIM HAYIM”, o sopro originado do sopro “ROUA’H MEROUA’H], as águas originadas do sopro “MAYIM MEROUA’H” e o fogo originado da água “ESH MEMAYIM”. Observem que, por um lado, o fogo, associado à letra SHIN, vem por último [tem-se bem menos ocorrências de SHIN]. Por outro lado, não se tem a expressão “Esh meroua’h” [o fogo originado do sopro], mas sim “esh meMayim” [ o fogo originado da água], o que poderia explicar a quantidade menor de SHIN no texto bíblico.

Através desses exemplos diversos, constatamos então que o computador pode ser um instrumento para o estudo do misticismo.

Quem poderia imaginar há uns cinqüenta anos que conhecimentos enciclopédicos poderiam ficar disponíveis através de uma rede como essa? Quem poderia imaginar que homens transmitiriam suas anotações de cálculos ou seus projetos ao outro lado do planeta no minuto seguinte à sua elaboração, graças a Internet? Como cada um pode colocar ali o tipo de informação que deseja compartilhar com outros, esse gênero de rede informática evoluíra segundo os focos de interesse de seus usuários. Isso representará um reflexo da sociedade atual. Podemos então pensar que uma grande rede de computadores, como a Internet, seguirá a evolução coletiva da humanidade e poderá mesmo contribuir para guiá-la rumo ao conhecimento e à espiritualidade, sob a condição de que a própria humanidade zele pelo processo.

Assim, através do computador, a raça humana poderá ou progredir rumo à luz ou estagnar nas trevas do “homem da torrente”, segundo a utilização que ela fará dessa tecnologia prometeica.

Esperamos que as palavras ‘informática’ e ‘misticismo’ formem um bom par nos anos futuros.
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[Texto de Philippe Irigano]

Notas:
[1]_A palavra “Cabala” pode também ser escrita “Qabbala”, como neste artigo, segundo alguns autores, em razão de interpretações diferentes dos valores fonéticos e simbólicos das letras hebraicas dessa palavra.

[2]RAZIM, programa de pesquisa de valores informáticos na Torah, divulgado pela Associação Sod Adamantha, Marseille Cantini.
[3]CATAB Centro de Análise e Tratamento Automático da Bíblia e Tradições Escritas, Universidade Jean-Moulin-Lyon, Villeurbann.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

NOSSA MENTE _



Podemos analisar o comportamento da mente humana sob inúmeros aspectos.

A psicologia considera que a mente possui estágios característicos e define o consciente, o subconsciente, o inconsciente, o subconsciente próximo, o inconsciente profundo, além de procurar definir as expressões do Ego e do Super-Ego.


Alguns, preferem, uma classificação mais simplificada: mente consciente, subconsciente ou mente inconsciente com estágio superior, chamada de mente cósmica.

A MENTE CONSCIENTE _ dirigi aquelas funções objetivas e subjetivas do SER: _ as funções objetivas são aquelas que nos coloca em contato com o mundo exterior, através dos cinco sentidos. É através dela que pensamos, analisamos, fazemos comparações, julgamos e raciocinamos, mantemos a memória dos fatos passados e sob uma forma geral, é ela que atua em nossas ações e reações da vida exterior. É o estágio que age quando estamos despertos, atentos e lúcidos, tendo sua sede na unidade cérebro cerebelo. As suas funções subjetivas são aquelas que administram o funcionamento automático de órgãos do corpo, sem necessidade de uma ação consciente sobre elas.

A MENTE SUBCONSCIENTE _
que também denominamos de inconsciente, reúne as funções das sensações ou impressões que nos afetam mais significativamente e, em especial, as emoções de amor, ódio, de medo e de dever - “Os quatro gigantes da Alma”, conforme o livro do Professor Emilio Mira Y Lopez. É o estágio da mente que funciona como um computador, registrando os fatos impressivos, e mais tarde, liberando-os de volta ao nível consciente. Atua sob muitas formas no comportamento individual e tem sua sede na glândula pineal circundada pelo tálamo e hipotálamo, no centro da cabeça.

A MENTE CÓSMICA _ reuniria as funções da mente que podem, em circunstancias especiais, harmonizar-se com a Mente Universal, possuindo então, nestes momentos, ilimitada capacidade de compreensão do Universo.

Esta harmonização pode ser feita em diversos níveis, embora não os classifiquemos em planos distintos, como muitas organizações costumam fazer.

Talvez, a melhor imagem que conhecemos para representar os diferentes estágios de atuação da mente, seria o do “Iceberg”.

“O Iceberg“ é um bloco de gelo que se desprende das calotas polares e flutua pelos oceanos até se liquefazer completamente, mantendo uma parte sobre a água e uma grande parte submersa. A parte externa representa a mente consciente e a parte submersa, não visível, a mente subconsciente. A água, substância de que é feito o gelo do “Iceberg”, e também é feito o oceano que o circunda, representa a Mente Cósmica Universal. Assim, nosso SER é constituído da essência da Mente Universal, que se expressa no mundo exterior, através da mente consciente. Para atingirmos o estágio da Mente Cósmica, devemos amortecer as funções da mente consciente e permitir que as funções do subconsciente se revelem, para conhecer os registros de nosso interior e num estado mental de relaxamento poder sentir as profundas impressões da Mente Total.

Duas situações bem distintas caracterizam a operação destes estágios da mente -. A Adormecida e a Despertada. Quando estamos despertos, há grande atividade da mente consciente, atuando objetivamente nos assuntos cotidianos. A mente consciente continua recebendo impulsos do subconsciente e é por isso que em determinadas situações expressamos agressividade, impulsos, mágoas ou as nossas emoções intrínsecas. Muitos destes impulsos são filtrados ao nível do consciente, sobretudo, quando revelam as fraquezas ou as deficiências que temos dentro de nós, e então são apresentados externamente sob uma roupagem valorizada. Nunca gostamos de revelar aos outros o que somos intimamente, e assim buscamos uma expressão mais aprimorada, mascarando os impulsos interiores de caráter negativo.

No estado adormecido há uma maior atividade do inconsciente. Reduzida a preponderância da mente consciente, pode a mente inconsciente revelar-se através de intuições e sonhos, trazendo-nos valiosas informações que se forem analisadas com critérios especiais, podem auxiliar-nos muito na solução dos problemas pessoais. Mesmo quando adormecido, as funções vitais do corpo, como a respiração, a circulação, a digestão e outras, prosseguem em operação, atuando em ritmo lento, sob a direção da mente subjetiva.

Nos casos de doenças mentais, inúmeras anomalias se manifestam como obsessões, depressões, paranóias, manias e outras, cujos tratamentos devem ser conduzidos por profissionais capacitados, mas que no momento, não serão abordados por nós.

Outra consideração significativa sobre o funcionamento da mente, refere-se às forças que conduzem praticamente as realizações do SER HUMANO; - uma delas reúne as funções da mente num sentido criativo, pensante ou mesmo meditativo, que reúne toda a força mental de que somos possuídos. A outra força, refere-se às forças instintivas do sexo. Ambas exercem notável influencia sobre o indivíduo. FREUD baseou muitas de suas conclusões dos estudos sobre a psicanálise neste segundo poder. Parece até que quando consideramos a existência destas duas forças, observamos que a conduta das pessoas oscila entre uma e outra. Se não mantivermos a mente ativamente ocupada com interesses ou valores dignos, a força sexual se torna mais influente na própria conduta pessoal.

Gostaria ainda de referir-me às prioridades que temos no atendimento das necessidades do indivíduo. Sabemos que ao termos uma necessidade pessoal satisfeita, começamos a buscar outras que desejamos alcançar. Foi Maslow quem relacionou a ordem dessas prioridades, que estimulam os nossos desejos, anseios e até preocupações.

Na ordem teríamos:

ð 1. necessidade = atendimento às necessidades psicológicas;
ð 2. necessidade = atendimento às necessidades de segurança;
ð 3. necessidade = atendimento às necessidade de reconhecimento social;
ð 4. necessidade =atendimento às necessidades de liderança pessoal;
ð 5. necessidade = atendimento aos anseios do Ego, de realização plena.

Maslow considerava que esta hierarquização das necessidades do SER humano se processa na ordem seqüencial estabelecida. Isto é, não se poderia tentar satisfazer-se as terceiras ou quartas necessidades, sem que antes as exigências do primeiro e segundo estágio fossem atendidas. A imagem mais expressiva desta hierarquia das necessidades é a história de Robson Crusué, náufrago britânico que veio arribar em uma ilha.

Após o naufrágio, nadou por muito tempo até chegar à ilha e excessivamente cansado, dormiu na areia, satisfazendo sua primeira necessidade fisiológica. Ao acordar, tomou conhecimento de sua situação, alimentou-se do que encontrou e partiu para satisfazer sua segunda necessidade, iniciando a construção de uma abrigo sobre uma elevada árvore. Dali, podia observar o que ocorria à sua volta e desfrutava de proteção contra o desconhecido, animais ou silvícolas da ilha.

Terminada a casa, seus anseios voltaram-se para o conhecimento da ilha e dos seres que lá habitavam. Progressivamente conseguiu aproximar-se e ser aceito por todos, satisfazendo esta necessidade, e recebendo um reconhecimento social. A seguir, verificando que pela sua educação, possuía mais conhecimento do que os outros, sua insatisfação volta-se para a conquista do poder e consegue tornar-se governador da ilha. Muitos anos após, ao chegar um navio à ilha, não resiste ao chamamento interior, embarca e retorna ao seu país de origem, satisfazendo seu EGO e passa a viver despreocupado e tranqüilo, com a última das ansiedades de seu SER atendida.

Como lembrete final, destacamos que o trabalho mental deve ser realizado em nível de consciente, estando em operação normal as funções da mente e as aspirações psíquicas. Basicamente, que cada estudante, busque ouvir o seu interior para conhecer os registros e impressões que lá estão presentes, podendo assim balisar muitas ações de seu comportamento da mente consciente.
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[Texto de Charles Vega Parucker]

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

RACIOCÍNIO HORIZONTAL E VERTICAL_


Existem dois termos que geralmente são usados para descrever o processo de raciocínio: indução e dedução. Ambos possuem significado especial segundo os campos de conhecimento a que são aplicados. Em eletricidade, por exemplo, bobina de indução indica um mecanismo que transforma a energia em corrente alternada. A Lógica chama de raciocínio indutivo o processo pelo qual o raciocínio parte do específico para o genérico.

Do mesmo modo, dedução significa subtração ou extração, a diminuição ou abatimento de algo, o resultado ou conclusão. E em lógica, chama-se dedução o sistema de raciocínio que parte de uma proposição a uma conclusão.

Esses termos ilustram o modo pelo qual o significado das palavras sutilmente se alteram pelo uso em campos especializados. Além disso, indicam a necessidade de compreender seu significado exato quando usadas para descrever métodos de se chegar a verdades básicas.

É possível que o uso atual desses termos tenha decorrido de uma noção equivocada do que os místicos da antiguidade clássica indicavam por eles. É preciso duvidar de que tenham sido considerados descritivos dos dois métodos do processo de raciocínio objetivo. Em vez de considerá-los métodos de análise [da premissa à conclusão ou da conclusão à premissa], talvez os místicos e filósofos originalmente os equiparassem aos termos ‘objetivo e subjetivo’, o indutivo relacionando-se com o objetivo, e o dedutivo, com o subjetivo.

ð Para esses, portanto, o raciocínio indutivo significava abordar questões de um modo horizontal ou plano – movendo-se, por assim dizer, para frente e para trás, num movimento lateral entre os fatores de um problema específico, real ou meramente especulativo.

ð Pelo raciocínio dedutivo, segundo essa linha de pensamento, tinham em mente a ação extremamente penetrante das faculdades subjetivas, que sobem ou descem a níveis variados de consciência, num modo vertical ou estritamente interior.

A distinção é intrigantemente significativa. Raciocinar indutivamente, portanto, teria significado mover para frente e para trás, num plano, entre os fatores de um problema, o que possibilitaria enxergar não mais que os fatores individuais e isolados. Pode ser caracterizado como pensamento sem perspectiva, como se não se avistasse uma floresta, mas suas árvores apenas.

O raciocínio dedutivo, por outro lado, teria sido um processo subjetivo pelo qual o indivíduo podia elevar-se em consciência acima dos fatores de seu problema, alcançando um plano em que enxergaria como um todo integrado os fatores isolados.

DISTINÇÃO PRÁTICA_
A experiência com a instrução mística faz criar a distinção entre as faculdades objetivas e subjetivas. A distinção reside em que as faculdades objetivas provêm os veículos através dos quais o mundo exterior penetra a consciência. As faculdades objetivas possuem natureza conducente ou indutiva. Quando uma informação penetra a consciência através dos canais objetivos, as faculdades subjetivas – as que estamos propondo os místicos terem chamado de dedutivas – atuam sobre ela e chegam a uma conclusão.

Desse modo, os dois conjuntos de faculdades atuam de forma complementar. A instrução mística sempre foi baseada nesse ponto de vista; por isso, seu valor singular reside em demonstrar ao homem como usar melhor essa dualidade de suas funções mentais.

De ordinário, o homem mantém sua consciência quase sempre no nível objetivo, nunca sendo muito capaz de se libertar dos significados, relações e limites superficiais. Acredita [e essa crença é reforçada pelos métodos de educação] que suas faculdades objetivas são seus únicos instrumentos. Ele as usa a todo o instante para acumular informação e experiência, e as usa também para tentar avaliar e usar essa informação e experiência.

Para ele, portanto, a indução e a dedução não passam de diferentes abordagens das faculdades objetivas, que visam o mesmo fim: a consecução da verdade, a qualquer ritmo de progresso em sua direção. Acreditando que ambos os métodos operam no nível horizontal, seja o problema encarado de um ou de outro ponto de vista, o homem a ele não pode fugir, pois dele faz parte. Não pode isolar-se.

Desde que para ele as faculdades objetivas são tudo, crê que são o único meio de ele alcançar a verdade. Sobre as faculdades subjetivas, o homem conhece pouco ou nada. Vive, pois, ou tenta viver, só com a metade de suas faculdades, de modo que efetivamente só é vivo pela metade. Ele vive, como William James certa vez acentuou, bem dentro dos limites de seu potencial. Sua vida é toda plana. Falta-lhe a dimensão vertical que o transformaria num ser perpendicular – um homem ereto e integral.

“Nossos olhos são limitados”, diz Emerson, “de modo que não podemos ver as coisas que estão bem à vista, até que chegue o momento em que, nossa mente esteja amadurecida.”

Pela iniciação, meditação ou harmonização espiritual, as faculdades subjetivas são postas em atividade, a consciência é induzida a se elevar e o plano amorfo da experiência se torna uma perpendicular dinâmica, cheia de significado, vida e beleza. Esse fato e sua relação para com a totalidade do homem é forçosamente evidenciado no relato, por parte de um estudante, do que o mestre conseguiu em misticismo. Dado o nível incomum de consciência mantido pelo mestre, seu ‘sistema’ induz nos estudantes uma mudança fundamental, que produz uma compreensão capaz de assimilar questões profundas e abstrusas. Isso enfatiza a importância positiva do raciocínio vertical. Um indivíduo que tivesse a capacidade de usar desse modo as faculdades mentais seria capaz de elevar a consciência dos outros a um nível acima do objetivo, a ponto de conseguirem eles chegar a novas conclusões e pontos de vista.

Essa proposição pode ser esclarecida, talvez de modo mais simples, por referência ao estudo da condição chamada de CONSCIÊNCIA CÓSMICA, dada a público pelo Dr. Richard Maurice Bucke.

Ele define três tipos de consciência:

ð a simples [possuída pelos animais];
ð a autoconsciência [possuída pelo homem];
ð e a cósmica [uma forma de consciência superior à do homem comum].

Existe, com certeza, um lapso entre a consciência simples dos animais e o nível de consciência do homem: a autoconsciência. Igualmente, existe um lapso ainda maior entre o homem dotado de mera autoconsciência e o homem que alcançou o estado de consciência chamado de Consciência Cósmica.

A META_
A Consciência Cósmica, portanto, pode ser considerada a meta rumo à qual o homem autoconsciente está evoluindo. No estudo dos relativamente poucos indivíduos que alcançaram esse nível cósmico de consciência, o Dr Bucke elaborou uma tabela de características comuns a todos.

Essas características incluem:

ð 1. Esclarecimento ou iluminação intelectual;
ð 2. Exaltação moral;
ð 3. Estado de euforia, júbilo, moralidade acentuada. Além disso [e talvez mais importante], sempre houve a convicção de que a imortalidade não é uma ‘possibilidade futura’, mas uma ‘posse presente’.

O objetivo dessa referência é mostrar que o místico, do passado e do presente, através de cerimônias de iniciação e exercícios de grupo, bem como através dos exercícios e meditações espirituais, consegue um grau de elevação, euforia, e um esclarecimento intelectual que é uma participação parcial [ou pelo menos um prenúncio] do estado chamado de Consciência Cósmica. Certamente, não seria esse o caso se se confiasse nas concepções e limitações aceitas dos instrumentos mentais do homem.

Em toda a autentica prática mística, este é o fim em mira: ganhar experiência no uso complementar das duas faculdades, indutiva ou objetiva e dedutiva ou subjetiva, de modo que, pela fusão gradual da consciência em níveis progressivamente mais elevados, o indivíduo possa adquirir o autodomínio. O exemplo místico clássico talvez seja o de HEINRICH KHUNRATH, o Mestre Rosacruz, que, numa fração de tempo transmitia a seus discípulos harmonizados todo um discurso por meio de uma única palavra. A Bíblia oferece corroboração desse modo de trabalhar no relato da Festa de Pentecostes.

Na antiguidade, a iniciação e a instrução mística eram consideradas tão necessárias para a descoberta do homem integral, que ninguém era considerado digno de participar da sociedade a menos e até que tivesse buscado a iniciação e instrução das Escolas de Mistérios. Sem esse algo fornecido pela instrução mística, o indivíduo não era considerado um ser humano. Platão, o iniciado, afirmou: ”Aqueles que estabeleceram essas cerimônias para nós evidentemente não eram pessoas superficiais, porque desde tempos imemoriais faz-se alusão a que todos quanto sem a iniciação [ou sem terem praticado nas cerimônias] chegam ao Hades permanecem no lodo; mas todos quantos se auto-purificam e participaram nos Mistérios, quando ali chegarem, habitarão entre os deuses.”

Píndaro também, o poeta lírico grego, nascido antes da época de Platão, escreveu: “Aventurado é o indivíduo que morre após ver essas coisas; pois então conhece não só o propósito da vida, mas sua origem divina também.”

TESTEMUNHO VALIOSO_

Testemunhos como esse evidenciam que as Escolas de Mistérios ensinavam ao homem algo sobre a vida e o sucesso no viver que não poderia ser aprendido em outra parte. O fato de que esse ‘algo’ dizia respeito à divina origem da vida e seu propósito indica um corpo de conhecimento bem como uma compreensão desconhecida, insuspeitada ou não-usada pelo indivíduo comum, não-iniciado.

Isso, naturalmente, levanta a questão de qual era o método e de como o homem redescobre e o faz operar em seus afazeres diários.

As Escolas de Mistério, é questão de registro histórico, foram suplantadas pela Igreja, que proclamou um monopólio e anunciou-se como a única possuidora do conhecimento sobre o propósito e significado da vida. O meio de se alcançar esse conhecimento e salvação, ensinava a Igreja, era a crença e a emulação. O leigo, porém, só poderia receber segundo sua crença e emulação. Era excluído do pleno esclarecimento prática racional, mais ou menos como acontecia anteriormente com o não-iniciado, especialmente se não fosse simpatizante da Igreja. Com o crescimento da Igreja, tanto o conhecimento como seu método de operação se tornaram mais e mais circunscritos. E com o triunfo da Igreja no século treze, o conhecimento e o método da Igreja foram quase totalmente suprimidos.

O indivíduo sincero, inteligente e sequioso ainda podia buscar o conhecimento, mas o único pão que lhe ofereciam era o da crença, que com freqüência era uma pedra. A própria Igreja estava em trevas, pois, ao renegar a herança das Escolas de Mistérios e banir de suas fileiras os místicos que lhe tinham trazido a luz em suas origens, não mais tinha uma fonte confiável de instrução. Como o aprendiz do feiticeiro, em sua tentativa de operar princípios quase totalmente incompreendidos, a Igreja acarretou inúmeros danos.

Quando o Renascimento tentou libertar os homens do domínio da Igreja, esta voltou-se uma vez mais ao passado do esclarecimento. Seu sucesso foi apenas parcial, pois não podia restaurar imediatamente aquele algo importante de cuja própria existência tinha sido mantida em ignorância. Deve-se a FRANCIS BACON o crédito da convicção de que a resposta encontra-se no passado remoto, e deve-se aplaudir sua coragem de declarar a necessidade de se voltar integralmente ao ponto de vista das Escolas de Mistérios. Ele esperava que seu método de investigação fornecesse os inúmeros elementos pelos quais a verdade poderia ser descoberta.

Bacon interrogou o passado e prestou especial atenção aos Mistérios Eleusianos da Grécia antiga. O interesse desses Mistérios pela questão de como a alma encarna levou-o à convicção de que nos mitos da Grécia estavam ocultas afirmações de leis naturais. Especialmente na história de Deméter, Perséfone e Plutão, leu Bacon o relato da descida da alma à matéria.

Aí estava a essência do conhecimento e também um exemplo do método todo. Os Mistérios celebrados em Elêusis dividiam-se em duas partes, uma preparatória da outra. Instruído nos Mistérios Menores, depois de algum tempo o indivíduo era aceito nos Maiores. A dualidade do todo era assim demonstrada. O primeiro passo era instruir quanto a coisas de valor eterno. Antes de conseguir distinguir claramente isso, o indivíduo não poderia saber dentre todos os fatores indiferenciados da vida quais eram valiosos e quais não. Tendo sido isolados e reunidos os fatores essenciais, o método pelo qual eram fixados na consciência e se tornavam operacionais podia ser dominado. Como a referencia aos Mistérios Eleusianos foi feita apenas à guisa de exemplificação, a natureza gradativa do processo neles esboçado pode ser posta de lado.

A intenção da referência foi ilustrar a atividade mental objetiva e subjetiva e sua relação para com o raciocínio horizontal [indutivo] e vertical [dedutivo]. O conhecimento do ritual, que se tornou famoso pelo Rito de Deméter em Elêusis, corrobora de modo impressionante o modo pelo qual a mente pode ser elevada pelo processo subjetivo, dando ao nível objetivo da vida sua verdadeira perspectiva e avaliação.

Exceto por ser uma obra bastante desconhecida, a cerimônia iniciática apresentada no LIVRO DOS MORTOS pode também servir de exemplo. Nela, no clímax do Grau preparatório, mostram-se ao candidato três objetivos:

ð o escaravelho kheper, símbolo do deus Ra;
ð a balança, símbolo do Deus oculto; e
ð uma pedra ou Estela vazia.

Nenhuma fala do condutor acompanha a apresentação desse objetos. A mente indisciplinada ou não-instruída pode ficar exausta na tentativa de neles descobrir um significado essencial através do raciocínio objetivo. Para a mente limitada ao nível dos próprios objetos, eles nada mais são que imagens coloridas, talvez com alguma tênue relação recíproca, mas que só despertam confusão. O mesmo deve ocorrer sempre que as faculdades destinadas a só trazerem à consciência a percepção das coisas são chamadas também a interpretá-las.

Mas busque a pessoa o método de análise mental que pertence ao aspecto eterno de sua personalidade, que o resultado será diferente e satisfatório. Deixando o nível dos próprios objetos, a consciência ascende a um plano interior, que está completamente acima do mundano, e subitamente chega a um ponto em que o significado dos objetos se torna claro. KHEPER, o escaravelho, não mais será uma simples imagem do Criador. Será uma absoluta descoberta interior de que a ‘própria criação é divina’, a obra da Divindade. As balanças também revelar-se-ão não apenas uma representação do deus oculto, mas o fato de que todo aspecto da natureza e da vida contém a presença de Deus e O revela. Finalmente, a Estela não mais será uma simples pedra lisa: será o Horizonte do Céu, em que a identidade eterna e individual deve ser impressa.

Um método tão eficaz em cerimônia mística deve ser considerado parte da instrução mística, sendo, portanto, passível de utilização diária. Por conseguinte, os ensinamentos místicos transmitidos são para serem usados, e nesse uso demonstra-se a superioridade da instrução mística.

O ALGO IMPORTANTE_

Esse ‘algo’ que só a instrução mística provia no passado [e há pouca evidência de que a situação tenha mudado muito no presente] dizia respeito ao uso do equipamento mental. Desse processo, o mundo profano e erudito só preserva a casca, representada por dois termos que quando muito só fornecem termos para a atuação. Em certo sentido, degeneram-se em dois métodos, ligeiramente diferentes de raciocínio da mente objetiva. Como tais, descrevem dois tipos de abordagem mental na solução de problemas.

ð O indutivo relacionado com um avanço metódico de uma idéia específica a uma proposição geral;
ð O dedutivo, o processo inverso, que parte de uma proposição geral a uma aplicação particular.
Ambos estão limitados à esfera da consciência objetiva.

Isso bem equivale a uma total negação da instrução mística e resulta, quando muito, só na metade da solução para os problemas que o homem se dispõe a solucionar. Volte-se a questão a sua acertada definição mística, porém, que emergem duas funções complementares, operáveis e cosmicamente corretas. Além disso, descobrimos a chave da eficácia de uma parte do conhecimento místico.
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[Texto de John Le Roy]

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A IMORTALIDADE EM JÚLIO VERNE_


Poucos dentre os pósteros, sabem que o célebre autor da novela “Vinte Mil Léguas Submarinas” e outras primorosas obras literárias que fizeram e fazem o encanto de jovens e adolescentes no mundo todo, era em verdade um “Iniciado” nos Mistérios da Existência: apaixonado pela Simbologia, pela Numerologia, pelo Tarô, Júlio Verne previu a própria morte, e o seu túmulo, na cidade francesa de Amiens, é uma espécie de “leitura iniciática”, onde o símbolo da Rosa e da Cruz também está presente...

Na extensa galeria dos homens geniais que sentiram, meninos ainda, o chamamento para aquela escuta interior transcendental, a humanidade nunca poderá esquecer a fulgurância da inteligência e sensibilidade de Júlio Verne, o escritor que se firmou como sendo mais do que “um simples divulgador da ciência e da técnica do século XIX,e, muitíssimo menos, um mero novelista para jovens adolescentes”.

Júlio Verne, o consagrado autor de obras como “Viagem ao Centro da Terra”, “Vinte Mil Léguas Submarinas”, “Da Terra à Lua”, “Cinco Semanas em um Balão”, “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, conquistou várias gerações de leitores.

Para o estudioso J.J.Benitez, autor de “Eu, Júlio Verne[Ed. Mercuryo, SP, 1990], Verne foi “um louco maravilhoso”, profundamente enraizado no mundo do esoterismo e da simbologia, fanático dos enigmas e criptogramas, sendo freqüentes em seus livros trocadilhos, jogos de palavras, números secretos, uma permanente contradição e um espírito em constante luta consigo mesmo”. Relata Benitez que o sepulcro de Júlio Verne, no cemitério de La Madeleine, na cidade francesa de Amiens ao norte de Paris, “é todo um cântico à simbologia esotérica. Casualmente, e para começar, a face leste do túmulo esta fechada e protegida por sete altos abetos [1],que formam um semicírculo perfeito. Sete árvores – os sete dias do trabalho do homem – plantadas exatamente em 1907...Sete abetos orientados em direção ao Leste e que, da mesma forma que as rosáceas das catedrais, falam do principio do caminho da iniciação e do conhecimento...” “E esse homem – Verne, possuidor da sabedoria e da iluminação, ressuscita para a imortalidade e eterna juventude. Sua mão esquerda na terra, e a direita erguida [O Mago do Tarô], a cabeça semi-coberta pelo sudário de uma morte vencida e a pedra sepulcral [casualmente pentagonal, símbolo do homem cósmico] descansando sobre as costas, constituem algo mais que uma poética recordação funerária. E, no máximo da precisão esotérica, o rosto e a palma da mão direita diretamente orientados ao Oeste, em direção ao Sol poente, ao vermelho alquímico, à quinta-essência ou perfeição final... É assombroso. Tudo neste sepulcro expressa a ressurreição. No fórnice, uma misteriosa estrela de seis pontas paira sobre um ramo de palmeira que cobre o nome de Verne. Qual o significado critico da estrela de Davi? Entre outros, o de um velho e familiar conhecido: o algarismo 6. o 6 que ao mesmo tempo simboliza o homem. Temos, pois, um homem – Júlio Verne – sob o ramo de palmeira: a vida eterna.”

E para os estudantes de Mistérios vem a constatação especialmente reveladora, conforme o relato do pesquisador e escritor espanhol J.J.Benitez:”E por cima da estrela, no frontispício do muro funerário, outros ‘sinais’ aguardam o iniciado: uma cruz com uma rosa no centro, fechada em um círculo, um ramo de oliveira, duas lâmpadas de óleo [a que foi esculpida à esquerda da ‘rosa-cruz’ está sem tampa] e os pilares do rigor [à esquerda] e da misericórdia [à direita]”...

O prolífico Benitez, de início alerta: “Pode ser que o leitor considere o livro um jogo ou uma ilusão. Acertará e se enganará em partes iguais. Mas será que existe algo mais real que os sonhos?”

Queremos aqui enfocar algo do livro Eu, Júlio Verne, como elaborado por Benitez, um diário em que o célebre escritor confessa que alquimia, tarô e Cabala foram os seus vôos intelectuais, revelando que sempre foi um extremista no trabalho, e ao mesmo tempo, confessando ter-lhe faltado coragem para revelar ao mundo os seus conhecimentos místicos. Confessa mesmo haver sepultado a sua “iluminação iniciática” sob a aparência de aventura, escrevendo então seus magníficos relatos de viagens, como “Vinte Mil Léguas Submarinas”, “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, “Viagem ao Centro da Terra” e tantas obras lidas e relidas com avidez por várias gerações de leitores.

Quando amigos intelectuais o incentivaram “empreender a grande aventura de ‘romancear’ a ciência,” Verne contou que os relatos, experiências e teorias daqueles ‘sábios’ foram decisivos:”E um maravilhoso projeto germinou em meu coração:aquele era meu caminho! Por que não tentar? Por que não criar um novo estilo literário? Por que não aproximar a natureza, as descobertas, as viagens, as explorações e o ‘futuro’ já esboçado pelos físicos, ao homem da rua? Deus, misericordioso, acabava de abrir minha alma e minha inteligência para o meu verdadeiro e nobre destino!”

No seu estremunhado diário, Júlio Verne revela o encontro com um ser superior, que o marcou para toda a vida:”Droga de memória! Nunca foi boa e agora, no final da travessia muito menos. Custa-me rememorar. É como se uma espessa névoa encobrisse meus anos de adolescência. E acho que sei porquê. Contarei o pouco que posso intuir. Foi ao cair da tarde, quando saí da sala de aula da senhora Sambain. Este urso velho devia ter seis ou sete anos. Meu irmão Paul, que estava doente, não pôde me acompanhar. E no caminho de volta ao cais Jean-Bart aconteceu algo singular e premonitório. Anos mais tarde, ao entrar no mundo da iniciação, soube que aquele Superior Desconhecido seria meu guia e protetor até o final dos meus dias. Diante de mim surgiu um ser de luz, altíssimo e corpulento, com um cabelo longo albino e o rosto entalhado em pedra, que falou comigo sem dizer uma palavra. Sua roupa não era como a nossa, mas usava botas altas e douradas. Seus olhos asiáticos me impressionaram e todo meu corpo tremeu de pavor. Jamais consegui lembrar o que falou e nem o seu estranho nome, ainda que saiba que tem algo a ver com “Axiel”, “Axal”, ou “Oxal”. Mas isso não interessa. E tão furtivamente como se apresentou diante de mim, desapareceu... Mas guardei segredo e, com o tempo, o assunto caiu num granítico esquecimento. Talvez minha própria mente, assustada, tenha rejeitado o misterioso encontro. Desde então, apesar da névoa que encobre o incidente, soube que não seria como os outros homens. O destino possuía planos diferentes para mim. E assim foi...”.

Em 1863, aos 35 anos de idade, quando acontecia o sucesso estonteante de sua primeira novela – “Cinco Semanas em um Balão” -, relata Júlio Verne a sua ligação com o poeta Edgar Poe e os amigos Nadar e Jules Hetzel, à luz da Numerologia: ”Curioso! Eu mesmo me surpreendo. Urso Velho, não és aceitável a esta altura da vida...pois é verdade, quanto mais o percebo mais isso me desconcerta. E bem sabe Deus que não foi premeditado...Observa, pé-de-chumbo, que te encontras no capítulo 15. E que dizem os sagrados algarismos? Um mais cinco é igual a seis. 06! O número da criação conforme o Hexameron bíblico, o ‘mediador’ entre o ‘princípio’ e a ‘manifestação’. E que acontece se os mágicos nomes de Poe, Nadar e Hetzel são convertidos em seus equivalentes numéricos? A soma de tais números dá novamente o 6! Não é maravilhoso? E mais Hetzel, que soma seis – coincida com a da minha primeira e autêntica ‘criação’ e, muito em especial, com a descobertas de Hetzel, meu editor e pai espiritual? O seis, mediador entre o ‘princípio’ de Julio Verne e a ‘manifestação’ de Júlio Verne...”Sei que alguém atribuirá o fato ao acaso. Já o disse: blasfema palavra. O acaso jamais poderia repetir a excelsa geometria verde de um cacto, nem a matemática perfeita de uma estrela de neve, nem o regular fluxo das marés, nem a arquitetura da colméia, nem sequer o periódico e sinistro rito da morte...Muitos sábios cansaram-se de repeti-lo: a causalidade não existe. O homem, seu temor à Verdade Suprema, prefere evitar essa palavra. Não sabe ou não deseja saber que o acaso também está regido por uma ordem, tal como apregoava Novalis. O acaso não é outra coisa, se me permites a liberdade, do que a mão esquerda de Deus. Com a direita nos cria; com a esquerda nos conduz”.

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[Texto por Ney Teles de Paula, extraído do livro: “A escada de Jacó e outros escritos”, Asa Editora Gráfica]

[Nota: [1] Abeto: planta da família da pináceas, planta perene, alta. Sua madeira é importante para o fabrico do papel]

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A FORÇA DO PODER INTERIOR_


Embora, dinheiro, informação, conhecimento e beleza física sejam armas potentes no ambiente de trabalho, nenhum desses ingredientes é tão significativo como o poder que vem do nosso mundo interior.

Você sabe lidar com o poder?
Se sabe, então você é uma pessoa rara. A maioria das pessoas tem dificuldade com o poder. O ditado do lorde Acton sobre o poder – “ O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente” – é tão citado que se tornou um clichê. Quando essas palavras foram escritas, reis e imperadores ainda detinham o poder absoluto. Isso não é tão freqüente hoje, mas o poder ainda corrompe, e, no local de trabalho, o poder, como o dinheiro, sempre é um problema. Muitos poucos locais de trabalho funcionam como democracias. Mesmo os que afirmam sê-lo não são tão democráticos quanto parecem. Eu trabalhei tanto para organizações idealistas, sem fins lucrativos, quanto para corporações que visavam lucro, e a principal diferença que vi é que, no setor dos lucros, os relacionamentos de poder são mais visíveis e mais diretos.

À primeira vista, o poder parece ser um estado de intensa energia. O diretor que grita e bate com o punho na mesa para que tudo seja feito a seu modo parece estar demonstrando poder. O policial que apita para você quando o impede de atravessar a rua está demonstrando poder. Mas, se você já passou algum tempo com alguém que tem poder [real], a energia em geral é serena e sutil. Certa vez fiz uma apresentação numa companhia de dois bilhões de dólares. Nomeio da apresentação, o diretor-executivo entrou e sentou-se no fundo da sala. Não disse nada, mas o sentimento de cada um no aposento mudou notoriamente. Estávamos na presença do poder. O diretor que grita não está exercendo poder; ele está frustrado porque não tem poder. O poder real é silencioso. E o poder interior é o mais silencioso de todos. Ele é quase invisível,mas pode mover montanhas.

TIPOS DE PODER_ Há muitos tipos de poder, muitos modos de uma pessoa dobrar outra à sua vontade. Naturalmente, o poder máximo é uma força mortal. Embora esse poder ainda seja exercido no mundo todo por nações contra nações e por governantes opressivos contra seus cidadãos, temos de ser gratos porque no trabalho nossos supervisores não seguram um chicote na mão nem apontam armas de fogo para nós. A escravidão e a servidão são relíquias de um passado mais cruel. Os tipos de poder que encontramos no trabalho são mais sutis do que isso.

Preeminente num sistema capitalista é o poder de propriedade. Os proprietários, ou acionistas, governam com supremacia. Certa vez perdi meu emprego porque a firma para qual eu trabalhava pertencia a um conglomerado do Japão. Os executivos japoneses nunca tinham me encontrado e pouco sabiam sobre a companhia para a qual eu trabalhava, exceto por algumas folhas de papel que resumiam nossos ganhos desapontadores. No entanto, eles tinham o poder de acabar com meu ganha-pão, mesmo estando do outro lado do oceano.

Na maioria das firmas de qualquer tamanho, o poder da hierarquia vem em seguida. O presidente, diretor-executivo ou chefe é investido com considerável poder sobre os outros – de contratar e despedir, de promover ou rebaixar, de ofender ou vetar um bônus ou um aumento. Se é gerente ou chefe, você exerce esse poder. Você pode ser a pessoa mais amável do mundo, e seus subordinados podem lhe dizer que gostam de você e o respeitam, mas, em certa medida, eles são cautelosos com você. Você tem poder.

Existem outros tipos de poder no local de trabalho. O conhecimento é poder, particularmente em nosso mundo altamente tecnológico. Quando os computadores saem fora do ar, tudo pára, até que os administradores do sistema, cujos conhecimentos especializados mantêm o resto da companhia como refém, podem fazer o sistema voltar a funcionar outra vez.

Dinheiro é poder. Alguns pensam que ele é o poder supremo. Conheci certa vez um membro de uma família aristocrática da Europa, uma senhora distinta na casa dos 60 anos. Certo dia, quando estávamos falando sobre suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial, ela disse:
“Deixe-me contar um segredo. Não importa o que qualquer pessoa lhe disser, as guerras sempre acontecem por causa do dinheiro!”

Não sei se isso_ é sempre verdade, mas durante muito tempo lembrei do comentário dela. Pode ser mais verdadeiro do que gostaríamos de acreditar.

A beleza física confere poder. Para uma estrela de cinema ou modelo, a beleza pode valer milhões e deslanchar toda uma carreira. Nossa aparência física e presença muitas vezes podem ser um ingrediente importante na nossa capacidade de influenciar os outros. Certa vez li um estudo que analisava a altura física dos executivos do sexo masculino e concluiu que em média eles eram de sete a dez centímetros mais altos que o adulto médio comum. Esse foi apenas um estudo. Com a crescente diversidade de executivos em cargos de liderança [muitos dos quais do sexo feminino], essa estatística é menos importante do que já foi um dia. Mas a presença física e a aparência contam mais do que gostaríamos de admitir.

A informação é, cada vez mais, uma profunda fonte de poder. Uma participante dos meus ‘workshops’ disse que já trabalhara como especialista em compensação para a companhia Fortune 500. Ela tinha acesso à informação sobre o salário de cada funcionário – quem recebia bônus e qual seu valor, quem obteve aumento e quem não, bem como os planos de opção acionária dos altos executivos. Ela nos disse que andava por uma sala imaginando qual seria o efeito se ela contasse e duas pessoas que se sentavam lado a lado, e faziam o mesmo trabalho, que uma ganhava anualmente 20 mil dólares a mais do que a outra.
“Alguém lhe ofereceu um suborno para você abrir o jogo?” – alguém perguntou.
Ela concordou vigorosamente com a cabeça.
“Vocês não acreditariam nas coisas que as pessoas me diziam.”
Esse é o poder da informação.

POR QUE O PODER CORROMPE_ O que há no poder que tende a trazer à tona o pior que existe em nós? Por que, quando tiramos o melhor funcionário de uma equipe e o transformamos num supervisor, quase sempre ele se transforma num tirano mesquinho do dia para a noite? Trata-se da mesma pessoa, com as mesmas qualidades que lhe garantiram a promoção. Mas, no exercício do poder recém-descoberto, emerge uma sombra, um lado escuro da nossa natureza. Qual o sentido disso tudo?

Todos temos um profundo desejo de estar no controle, seguros e salvo, livres da preocupação e da ansiedade. Essa necessidade é uma das mais profundas forças que estão por trás de todos os nossos pensamentos e ações. Mesmo que sejamos adultos responsáveis e maduros, e saibamos que não viveremos para sempre, que não poderemos ter tudo o que queremos, que não poderemos ser felizes o tempo todo e saibamos que sofreremos dores, teremos azar e desapontamentos no curso de nossa vida, isso não nos impede de querer ficar livres de tudo isso.

Em outras palavras, a criança dentro de cada um de nós quer ser a estrela de um conto de fadas em que todos os desejos sejam realizados. Querer isso, mesmo que intelectualmente saibamos que não poderemos tê-lo, é o que os budistas chamam de apego. Não precisamos nos envergonhar de admitir que nos sentimos assim. Isso acontece com todo mundo. Trata-se da condição humana.

É por isso que o poder nos corrompe. O poder nos dá a ilusão de que chegamos a um pouco mais perto desse sonho de conto de fadas, de que podemos controlar as circunstancias da nossa vida, de impedir que aconteçam coisas desagradáveis e de evitar a dificuldade e o sofrimento. E não se trata inteiramente de uma ilusão. Se você for rico, tem o poder de evitar muitos dos inconvenientes da vida comum. Você nunca terá de enfrentar a agitação da hora do rush – poderá contratar uma limusine. E, se as avenidas estiverem realmente lotadas, poderá contratar um helicóptero. Ou talvez ter um helicóptero!

Já sucumbi a algumas dessas tentações. Quando eu era um monge budista, enfrentava o inverno sem aquecimento central. Eu andava mais a pé do que de carro. Minha alimentação era frugal, simples. Eu via dificuldades modestas como parte do meu treinamento espiritual, portanto, elas não me incomodavam. Agora, durante minhas viagens de negócios, fico irritado se o hotel onde estou é barulhento, se meu assento, no avião, fica na fila do meio, ou se o serviço do restaurante é lento. Porque vivo uma vida de mais riqueza e mais controle aparente, meu estado mental é menos flexível e menos receptivo que na época em que eu era monge. Pelo fato de eu ter mais poder externo, sou tentado a usá-lo para tornar minha vida mais protegida e tranqüila. Mas isso tem o efeito inverso. Pelo contrário, eu tenho menos poder interior. Sou mais vulnerável e fraco.

O poder é uma ilusão, mas uma ilusão muito convincente. Construímos toda uma sociedade ao redor da premissa de que o poder, particularmente o poder do dinheiro, é uma coisa boa. Segundo as imagens que nos bombardeiam de cada tela de televisão, não existe nada mais excitante e glamouroso do que uma vida repleta de dinheiro e poder.

BOM PATRÃO, MAU PATRÃO_ Uma grande amiga que estava lendo o manuscrito deste livro comentou:
“Você não parece retratar uma imagem muito boa dos patrões.”
Considerei o comentário dela e concluí que provavelmente ela estava certa. Existem bons e maus patrões, mas acho que a maioria das pessoas já teve dificuldade com o patrão em alguma época da vida.

Além da corrupção intrínseca do poder, a maioria das pessoas que tem cargos de liderança recebe pouco treinamento, se algum, sobre como administrar o poder e suas corrupções. Signifique o que significar, treinadas ou não, as pessoas ascendem ao poder, exercem poder e, em muitos casos, abusam do poder. Se os patrões não fazem bem seu trabalho, não é porque eles sejam pessoas ruins, mas porque as organizações não os treinam para saber como lidar com o poder, ou não lhes proporcionam um sistema de valores que coloque o poder na perspectiva correta.

O PODER DA INTEGRIDADE_ James Hillman estudou o poder em seu livro “Kinds of Power”. Em acréscimo aos tipos que já mencionei, ele analisa mais um, que ele chama purismo. O purismo, exemplificado pelos líderes como Martin Luther King e Gandhi, é bastante diferente dos outros tipos de poder. O poder do purismo, que eu chamaria de integridade, não está baseado numa categoria exterior ou na riqueza, no conhecimento ou na beleza, mas no caráter, num firme senso interior de valores que permite que você seja fiel aos seus princípios independentemente do que esteja fazendo ou de onde esteja.

Gandhi é um bom exemplo. O momento culminante da luta da Índia pela independência aconteceu quando Gandhi chegou, sozinho, ao palácio do vice-rei para negociar a independência com o Império Britânico. Na versão cinematográfica desse momento [com Bem Kingsley no papel principal], Gandhi subiu lentamente as escadarias, despido a não ser pelo pano cingindo os rins, enquanto o vice-rei e seus criados espiavam por trás das cortinas.

“Eis que ele está chegando!” – sussurrou o vice-rei, temeroso com o incorruptível poder desse velho esquelético descalço.
Esse é o poder da integridade. Ele é, segundo o dr. Hillman, uma força mais potente do que qualquer outro tipo de poder, porque ele é incondicional e provém totalmente de dentro.É por isso que tantos heróis espirituais, como Gandhi, morrem assassinados. A morte é a única maneira de detê-los.

PODER EXTERIOR E PODER INTERIOR_ Todos os tipos de poder que mencionei, exceto o poder da integridade, pertencem à categoria de poder exterior. O poder exterior é relativo. Para que funcione, algumas pessoas têm de ter mais do que as outras. O presidente da sua companhia tem mais poder do que você. Você tem mais poder do que o faxineiro que varre o chão. Este tem mais poder do que o indigente que vive na rua. O indigente tem mais poder do que um cão de rua.

A hierarquia do poder exterior é mutável. Você é uma estrela em ascensão num dia e uma notícia velha no outro. Uma nova direção entra com seus rostos bem barbeados e idéias brilhantes. Um ano depois o preço das ações despenca e todos eles são despedidos. Este ano o valor da sua opção de compra de ações sobe e você pena em se aposentar mais cedo. No ano seguinte a companhia está com a corda no pescoço e você fica preocupado em manter o emprego.

Os jogos de poder que as pessoas fazem no local de trabalho podem ser os aspectos menos agradáveis do trabalho. Muitas pessoas que vêm aos meus cursos deixam grandes firmas ou estão pensando em fazer isso. Quando pergunto qual é a parte mais difícil da sua vida profissional, elas muitas vezes dizem: “A política.”

Essa busca por poder e a influência dentro de uma companhia certamente não é um exemplo de seres humanos fazendo o melhor que podem, mas reflete a realidade da vida organizacional. A sabedoria convencional diz que a competição no local de trabalho traz à tona o melhor das pessoas. Conquanto a competição interna possa ser boa para as companhias, cobra um preço alto dos relacionamentos humanos.

É por isso que acho tão importante cultivar não apenas o poder exterior, que leva ao sucesso convencional no local de trabalho, mas também o poder interior, que leva à verdadeira realização e à satisfação espiritual.

As pessoas costumam pensar que existe alguma relação entre o poder interior e o poder exterior, que se trabalharem muito, forem leais à companhia, honestas e justas ao lidar com as pessoas, então serão recompensadas com estabilidade no emprego, promoções, status e reconhecimento. Uma das grandes mudanças dos últimos dez anos foi o colapso desse sistema. Nossa economia agora é global. Até mesmo os diretores das companhias não são donos do próprio destino. Não é apenas o nosso país que está passando por uma mudança avassaladora, mas todo o mundo, e os velhos tempos de emprego estável e do futuro seguro provavelmente acabaram para sempre. Diante de uma mudança tão rápida como essa, o que o trabalhador que luta para manter a previsibilidade e a segurança da sua vida deve fazer? Hoje as pessoas têm de assumir responsabilidade pelo próprio futuro em vez de confiar em que o empregador o faça por elas. Isso significa que precisam tornar-se mais independentes, mais capazes de se firmar por si mesmas, tanto no sentido material quanto no espiritual.

CARÁTER E TENTAÇÃO_ Quanto mais pudermos confiar no caráter, tanto mais nós o tornamos a pedra de toque de como vivemos nossa vida, e tanto menos ficamos à mercê dos acontecimentos e forças exteriores. Quanto mais o modo como nos sentimos com relação a nós mesmos e à situação em que estamos se achar enraizado em algo interno em vez de externo, tanto melhor será o trabalho da nossa vida, e menos nos sentiremos vitimas das circunstâncias.

Ter poder interior significa que, independentemente do caos das circunstancias mutáveis ao seu redor, você tem algo sólido em que se basear. Você sabe quem é. A integridade pessoal tem sofrido um bom golpe nos últimos anos, não só no mundo dos negócios mas em toda a parte. Uma grande porcentagem dos alunos de faculdade conta que trapaceia regularmente. Funcionários que não têm do patrão o devido reconhecimento dão o troco fazendo seu trabalho de qualquer jeito.

Pode parecer fora de moda enfatizar a volta dos valores espirituais como um modo de lidar com o local de trabalho, mas é o único recurso que ninguém pode nos tirar. Além disso, a quantidade de experiências negativas que temos no trabalho, mesmo aquelas que não são faltas nossas – o estresse, a raiva e a preocupação, o medo, o tédio e o desânimo – são exacerbadas com a falta de poder interior. Quando podemos ser fiéis aos nossos princípios, a raiva e o medo não assomam tanto, e as ações dos outros, mesmo dos nossos superiores, não são tão ameaçadoras. Quanto mais pudermos recorrer ao nosso interior para obter consolo e apoio, menos as irritações do local de trabalho nos incomodarão. Quanto mais pudermos retornar aos fundamentos da nossa vida espiritual, menos as tentações do sucesso no local de trabalho nos corromperão.

É por isso que as histórias sobre a vida de grandes mestres espirituais incluem um momento de grande tentação, um momento em que o engodo do poder exterior parece prestes a prevalecer. Quando Satã tentou Jesus no deserto, oferecendo-lhe o mundo inteiro em troca da sua aliança, Jesus ficou tentado. Mas, no final, ele foi aos seus princípios, e quem perdeu foi Satã.

Gandhi usou o mesmo poder interior contra os ingleses. Ele não tinha armas, exércitos, nenhuma riqueza do império. Tudo que tinha eram suas convicções e a confiança de que seus milhões de seguidores leais não se moveriam diante de porretes, chicotes e armas de fogo.

E, por último, o poder interior lhe dará força para superar as incertezas do local de trabalho. Em situações de verdadeira adversidade, isso pode significar a diferença entre o triunfo e a derrota. E, se você está por cima, se o trabalho de sua vida é plenamente satisfatório e você não imagina como poderia torná-lo ainda melhor, nesse caso o poder interior lhe dará a perspectiva para não ser vaidoso, arrogante ou excessivamente orgulhoso.

Embora o ambiente de trabalho dos tempos modernos seja uma invenção recente e continue a crescer e a mudar, os valores espirituais sobre os quais estive falando são tão antigos quanto à própria humanidade. Na história da antiga Índia ou Judéia, da antiga Grécia ou de Roma, os dramas humanos são parecidos com os de hoje. A raiva, a cobiça, a tentação, a arrogância e a ambição co-existiram em desequilíbrio com a generosidade, a integridade, a honestidade, a compaixão e o perdão.

O poder exterior vai e vem. O poder interior, uma vez conquistado, fica com você durante toda a vida. Você talvez pense que no local de trabalho moderna não existe lugar para valores espirituais, que ele os varre para o lado como coisas irrelevantes para os objetivos da eficiência e do lucro. Pode parecer assim, mas na realidade isso não acontece. O poder interior é mais forte.
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[O Texto aqui apresentado é um excerto do capítulo 18 do livro O Trabalho Como Prática Espiritual, de Lewis Richmond, lançado pela Editora Cultrix. Tradução: Zilda Hutchinson Schild Silva]