segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A Racionalidade da Reencarnação


Cedo ou tarde o buscador da verdade mística de defronta com a doutrina da reencarnação. Geralmente, nesse ponto, ele é iniciado nas doutrinas mais secretas dos filósofos místicos ou encerra sua busca e fecha para sempre o livro da revelação mística.

Não é necessário que o buscador do conhecimento superior aceite essa doutrina, para que possa progredir em sua busca desse conhecimento. Lê pode rejeitá-la totalmente e, mesmo assim, alcançar um estágio elevado. Mas é preciso que a rejeite sem qualquer preconceito, mantendo uma mente aberta que diga: ‘não a compreendo e, portanto, vou deixá-la de lado até que esteja convencido de que ela seja verdadeira ou falsa’. Mas é raro que alguém que se recuse a aceitar essa doutrina o faça com essa atitude. Conseqüentemente, a pessoa acaba inibindo sua futura iluminação.

Que é tão difícil na doutrina da reencarnação para as mentes do mundo ocidental aceitarem? Que é que existe na educação e nas convicções religiosas dessas mentes, que não dá margem a essa aceitação? Cerca de três quartos da população da Terra tem aceitado essa doutrina há séculos e somente as atuais religiões judaicas e cristãs não têm princípios que permitam sua aceitação. No entanto, originalmente, essas religiões aceitavam a reencarnação. Isto fica provado por escrituras sagras ainda existentes.

Será incompatível com qualquer manifestação na vida que conhecemos afirmar que nada morre, que tudo simplesmente muda e renasce numa forma semelhante, embora ligeiramente superior? A ciência nos informa de que tanto a matéria como a energia são indestrutíveis. A despeito de como modifiquemos a matéria, ela não perde sua substancia e se manifesta novamente, de modo progressivo, em outras formas.

Se cremos que a personalidade humana, ou o caráter espiritual presente no âmago do ser humano deixa de existir ao térmico do seu ciclo de expressão no plano terreno e nunca mais volta a se manifestar numa forma física semelhante, então estamos fazendo uma exceção a uma grande lei universal. Para os filósofos antigos e para todo estudante da lei natural e espiritual, essa exceção era incongruente e impossível.

Estou ciente de que há um grave equívoco generalizado quanto à doutrina da reencarnação no mundo ocidental. Por alguma razão inexplicável, ela acabou confundida com uma antiga doutrina supersticiosa denominada ‘metempsicose’, que já era um deturpação da doutrina da reencarnação. Só acreditavam nela as mentes não inquiridoras de épocas antigas, que eram dadas a toda sorte de crença supersticiosa.

Essas pessoas gostavam de acreditar que o renascimento na Terra não era apenas uma lei da alma humana, mas podia ocorrer em formas inferiores de expressão física, tais como cães, jumentos, répteis, aves e outros animais, muitos dos quais eram venerados como bichos sagrados em suas religiões. O fato de que pessoas inteligentes zombem da idéia da reencarnação baseando-se em que não acreditam que ‘a alma humana renasça num cão ou num gato’, é um dos aspectos espantosos de nossa atual compreensão das leis naturais e espirituais.

A DOUTRINA ORTODOXA
O cristão ortodoxo em geral é talvez o mais forte oponente da doutrina da reencarnação. Ele argumenta que essa doutrina refuta as doutrinas da fé cristã. Não percebe que não há nada na Bíblia, original ou em versão revisada, que contradiga a doutrina da reencarnação ou seja incompatível com princípios religiosos revelados. Essa doutrina pode ser incompatível com certos credos e princípios teológicos adotados pelas igrejas cristãs, mas esses credos e princípios foram estabelecidos por ‘concílios religiosos’ depois que a Bíblia foi escrita. Trata-se de postulados teológicos e não de princípios cristão fundamentais revelados por Jesus ou ensinados pó seus discípulos.

Portanto, de um ponto de vista puramente ortodoxo e dialético, não é a doutrina da reencarnação que está destacada, e sim esses credos e princípios que foram introduzidos após a época de Jesus. Se o devoto cristão quiser discutir sua fé com base na ortodoxia rigorosa, verá que será mais fácil aceitar a doutrina da reencarnação do que rejeitá-la em função de doutrinas teológicas. Isto se aplica também ao devoto do judaísmo na forma moderna de sua religião.

O CONCEITO BÍBLICO
Para aqueles que talvez perguntem onde podem ser encontradas insinuações na Bíblia que apóiem a declaração de que os cristão e judeus anteriores à era cristã acreditavam na doutrina da reencarnação, chamo atenção para alguns pontos ou trechos especiais e sugiro que a eles sejam dedicadas a mesma consideração e análise das doutrinas teológicas tidas como incompatíveis com a doutrina da reencarnação. Se essas pessoas forem tão tolerantes e analíticas para com as citações bíblicas que seguem como são em sua tentativa de contradizer a doutrina da reencarnação, verão que só esta doutrina pode explicar esses trechos.

Por exemplo, nas escrituras pré-cristãs, encontramos o livro de Jô, capitulo quatorze, vários provérbios e comentários sobre a vida do homem, seu nascimento, o desenrolar de sua existência e sua transição. No versículo 12 daquele capítulo, há uma clara afirmação relativa ao corpo físico do homem e ao fato de que, na chamada morte, ele vai para o túmulo e ali permanece até ‘que não haja mais céus’. Afirma-se que esse corpo nunca mais desperta do seu sono. Mas no versículo 14 levanta-se uma outra questão clara quanto ao ‘verdadeiro ser humano’, a parte que é realmente viva. Afirma-se então que o homem verdadeiro aguarda durante os dias do tempo que lhe cabe, após a transição, até que ocorra sua mudança.

Todo esse capítulo de Jô deve ser estudado analiticamente, para que se possa sentir a mensagem divina nele contida. Certamente, o versículo 12 não deixa margem a nenhuma interpretação que pudesse ser considerada coerente com a doutrina teológica da ressurreição do corpo e de uma nova vida no mesmo corpo. O versículo 14 não permite outra interpretação senão a de que a alma do homem aguarda seu momento ‘determinado’ para a mudança que ocorrerá.

Passemos agora ao capítulo 33 de Jô. Todo o capítulo é esclarecedor, especialmente a segunda metade. No versículo 28, lemos que Deus há de livrar a alma do homem de ir para a cova e que ela verá novamente a luz. No versículo 29,lê-se que essas coisas ‘são obra de Deus, duas e três vezes para com o homem’. Em que outro sentido que não o da reencarnação podem esses versículos ser interpretados? Se a alma do homem deixa a cova e volta para a luz dos vivos, e isto acontece várias vezes, não precisamos procurar nenhuma outra afirmação para apoiar a doutrina da reencarnação.

Essas passagens são extraídas das escrituras judaicas e não lhes é dada nenhuma ênfase elaborada. Não há nenhuma tentativa de fazê-las parecer doutrinas religiosas especiais, visto que são citadas tão naturalmente quanto qualquer um dos complexos da vida, porque a doutrina da reencarnação era tão universalmente aceita e compreendida como uma lei cientifica, biológica e física do universo.

Para verificarmos o quanto a crença na reencarnação era universal entre os judeus mesmo durante os dias da missão d Jesus, basta nos voltarmos agora para os Evangelhos cristãos e localizarmos um dos muitos incidentes que revelam total compreensão e crença na reencarnação. Chamo sua atenção para o incidente em que Jesus voltou-se para seus discípulos e fez uma pergunta que pareceria estranha se não soubéssemos nada a respeito da doutrina da reencarnação. Jesus perguntou: “quem dizem que eu sou?”

Que era que Jesus queria saber, que não teria importância para ele a menos que se relacionasse com algo que revelasse a percepção e compreensão espiritual cujo desenvolvimento ele esperava constatar no povo? Ele não fez essa pergunta para receber cumprimentos ou elogios.

UM PROFETA VOLTA À TERRA
Jesus queria verificar se o povo relacionava sua obra com a dos profetas que o haviam precedido e se percebia que ele era um de seus antigos profetas que retornara à Terra como tinha sido previsto e esperado. Que era essa a sua intenção fica indicado claramente pelas respostas dadas por seus discípulos. Eles disseram que o povo achava que ele era esse ou aquele profeta que vivera antes.

Depois, quando lê lhes perguntou quem eles próprios achavam que ele era, sua resposta indica que os discípulos estavam conscientes da razão desse questionamento, que sabiam que ele queria verificar se eles compreendiam que ele era, não somente a reencarnação de um grande profeta mas, também o espírito infinito da mais alta consecução como Filho de Deus. Lendo esse incidente da vida de Jesus e associando-o às declarações de João Batista e de outros profetas a respeito daquele que ainda estava para nascer, podemos perceber que só a doutrina da reencarnação pode explicar essas passagens.

NOS EVANGELHOS
Que é que pode ser encontrado nos Evangelhos que refute a doutrina da reencarnação? Pessoas que não pensam podem argumentar que, segundo as doutrinas cristãs, a alma da pessoa, no momento da transição, passa para um período de consciência suspensa, a fim de aguardar o dia do juízo, quando todos alcançaremos o reino espiritual e viveremos eternamente na consciência e presença de deus. E pode sustentar que esta doutrina contradiz a possibilidade de renascimento e a doutrina da reencarnação.

Mas será que isso é verdadeiro?
Haverá algo na doutrina cristã que exclua as mudanças freqüentemente mencionadas no livro de Jó? A verdadeira doutrina da reencarnação nos assegura que termos muitas encarnações na Terra, mas que, finalmente, após muitas oportunidades de aprendermos as lições da vida e fazermos compensação por nossos atos errôneos, chegaremos ao dia do juízo. Nessa ocasião será determinado se nos tornamos puros de espírito, semelhantes a Deus e dignos de viver eternamente na consciência divina.

Toda noite, quando fecharmos os olhos e adormecemos, encerramos um período que apresentou muitas oportunidades para o bem ou mal e com lições destinadas a nos purgar de nosso comportamento errôneo. Cada despertar é como um renascimento para a luz, como no versículo 28 do capitulo 33 de Jó. Cada dia é um novo período de existência encarnada para corrigirmos os males do dia anterior e nos redimirmos antes que chegue o dia do juízo. Se comparamos cada período de encarnação a um dia de nossa vida, vemos que a final e a suspensão da vida terrena que precede a hora do julgamento não exclui a possibilidade de períodos intermediários de encarnação e preparação antecipando o dia do juízo final.

A doutrina da reencarnação ensina, entre muitas outras coisas maravilhosas, extensas demais para serem enumeradas aqui, que a finalidade da vida, com seus períodos de reencarnação, é de nos habilitar a trabalhar pela nossa salvação. Devemos fazer compensação pelos males que cometemos, de modo que possamos finalmente ser absorvidos na consciência de Deus e ali permanecer eternamente.

Será isso incompatível com os princípios místicos e espirituais ensinados por Jesus e seus discípulos? Embora a doutrina da reencarnação possa parecer incompatível com algumas doutrinas teológicas que foram posteriormente acrescentadas aos ensinamentos cristãos, ela não é incompatível com o que Jesus ensinou e revelou.
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[Texto de H.S.Lewis]

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