segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Na Soleira da Porta da Casa da Tolerância

Acho que foi P. Claudel quem disse: ‘Tolerância? Existem casas disso!’ Piada, sátira, é claro... Mas olhando mais de perto, a ‘Casa da Tolerância’, que nosso comportamento muitas vezes fecha a porta e a torna uma casa ‘fechada’, não deveria ser aberta novamente? Essa casa cuja localização é o ‘Coração’. Eis então, entre muitos outros, alguns elementos de reflexão sobre a tolerância.


SITUAÇÕES PROBLEMÁTICAS

Existem situações que todo mundo reconhece como sendo um problema [por exemplo, desemprego, miséria, etc]. Mas embora haja uma unanimidade ao se dizer que os problemas existem, cada pessoa pode ter uma idéia diferente para uma solução e se sentir convencida de que a sua idéia é a melhor.

A ABORDAGEM MUNDANA

Na maior parte do tempo, cada um defende rigidamente uma solução, o que acaba em conflito e retardando o progresso das decisões a serem tomadas para resolver o problema, que se prolonga. A rigidez na defesa da sua posição é geralmente a fonte dos fanatismos. É a intolerância total.

Num grau menor, podemos observar o fenômeno das negociações que tendem a chegar a um acordo. É a tolerância relativa. Neste caso, os protagonistas levam um tempo mais ou menos longo a argumentar, apelando para todas as suas capacidades intelectuais e se apoiando em suas bagagens culturais. Aqui também o problema se prolonga, com toda sua agudeza, enquanto um consenso não é alcançado.

A natureza desse consenso será fortemente o reflexo daquele que for mais hábil nas negociações, aquele cujos argumentos tiverem mais peso. O que também envolve uma bagagem cultural importante. Porém, não é absolutamente seguro que o consenso seja a melhor solução possível. Assim, por exemplo, o negociador que tem a melhor solução poderá não ter a habilidade, a eloqüência ou a bagagem cultural, e ter diante de si uma pessoa dotada desses recursos, propondo uma solução menos acertada para o problema, mas que no entanto conseguirá a adesão do grupo que, seduzido pela vivacidade do orador, rejeitará a solução do orador menos brilhante mas portador de uma solução melhor.

QUAL A MELHOR SOLUÇÃO?

A melhor solução... mas somos levados a perguntar: em relação a que? Alguns pontos talvez nos dêem uma pista:

1. A melhor solução é o processo que permite chegar a um resultado justo.

2. Um resultado é justo quando está em conformidade, em todos os pontos, com as leis do sistema em que o problema está inserido.

3. Para se chegar ao resultado justo, só se pode usar o processo, sendo que este está em conformidade com as leis daquele sistema.

4. Em nosso mundo manifesto, experimentamos duas espécies de leis: as leis humanas e as leis cósmicas.

5. As leis humanas são cambiantes. As leis cósmicas, das quais nosso mundo faz parte, são imutáveis.

6. Então a melhor solução é aquela que está em harmonia com as leis cósmicas, permitindo chegar a um resultado que esteja em conformidade com essas mesmas leis.

A ABORDAGEM MÍSTICA

Enquanto a pessoa mundana busca instintivamente a solução de um problema baseando-se no sistema das leis humanas, o místico, graças aos estudos e à pratica dos ensinamentos, tem o reflexo natural de buscar a solução desse mesmo problema referindo-se primeiro e acima de tudo às leis cósmicas.

Isso quer dizer que cada um deve buscar saber se a solução que ele defende está de acordo com as leis cósmicas, antes de querer impor aos outros essa solução ou ele mesmo aplicá-la. Seria também conveniente perguntar-se sobre que grau de conhecimento das Leis Cósmicas ele se baseia para afirmar que sua solução está de acordo com elas.

A VIA DA TOLERÂNCIA

Tendo consciência de que ninguém detém o conhecimento total das leis cósmicas [salvo os Iniciados de Graus elevados e os Mestres Cósmicos], cada pessoa seria naturalmente levada a relativizar mais suas opiniões, seus pontos de vista. Isto diminuiria consideravelmente o fanatismo. Não seria apenas a simples tolerância relativa das negociações mundanas. Seria a via da Tolerância. E é no nível do ‘Coração’ que se faz o trabalho da relativização.

UNIDADE

Podemos até afirmar que se todo mundo tivesse um conhecimento perfeito e total das leis cósmicas [daqui a uma eternidade isto talvez seja possível], cada individuo chegaria à mesmíssima solução para a resolução de um dado problema. Assim, percebe-se que, na verdade, as divergências de opiniões não são nada mais do que a tradução de diferentes graus de conhecimento [ou diferentes níveis de ignorância] das leis cósmicas. Podemos até mesmo pensar que quanto mais se avança na senda menos a tolerância é uma realidade, pois as divergências de pontos de vista, diminuem para dar lugar à Unidade de Opinião. E onde não há divergências de opinião, reina a Unidade do ponto de vista. Ora, onde reina a Unidade de ponto de vista, a tolerância deixa de ser um conceito, deixa de ter realidade.

Em relação à abordagem das negociações baseadas nas leis humanas, que ganho de tempo oferece a abordagem mística! E quanto beneficio levado aos outros sem retardos supérfluos, ela permite em matéria de por em aço a melhor solução. Isso é ainda mais precioso quando se trata de um problema crucial a ser resolvido e que talvez reclame urgência.

CONCLUSÃO

Fica evidente que a abordagem mística para a resolução de problemas implica no conhecimento das leis cósmicas, e que só ele permite encontrar a justa solução. É a aprendizagem dessas leis que realizamos, e isto nos diz a que ponto temos responsabilidade de dar o exemplo da tolerância. A abordagem mística, esboçada aqui brevemente, é a chave que permite reabrir a Casa da Tolerância no coração de nosso ser; essa Casa que a abordagem mundana, antes dos nossos estudos, havia fechado, tornando-a uma casa ‘fechada’. Não seria interessante nos perguntarmos em que situações da vida cotidiana poderíamos nos esforçar em aplicar a tolerância, cujas palavras são: ‘relativização e modéstia’ Relativização das nossa opiniões porque nos conscientizamos que possuímos apenas um modesto conhecimento das leis cósmicas.

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[Texto de Jean-Marie Hurand]

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