sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Lei Natural e Espiritual

Qual é a diferença entre uma lei natural e uma lei espiritual?

Leis naturais e espirituais referem-se a diferentes níveis de fenômenos de que o homem tem experiência. A distinção está na humana percepção e concepção, e não na essência. Por analogia, qual é a diferença entre ‘acima e abaixo’? A resposta é: ‘a posição em que o individuo assume em relação a um objeto ou a uma direção’. O que está mais alto que a nossa cabeça é ‘acima’, e o que está mais baixo que os nossos pés é ‘abaixo’., nem acima nem abaixo têm natureza absoluta:Ambos são relativos à nossa percepção de direção. A lei natural consiste em fenômenos que ocorrem periodicamente. Esses fenômenos pertencem ao tipo de realidade, ao tipo de ser, que parece ter tanta existência física quanto o próprio ser humano. Quando falamos em natureza, queremos dizer todas as forças, energias e substâncias que o homem percebe objetivamente e que não tem origem em sua imaginação e sua vontade. Uma outra maneira de conceber a natureza consiste em pensar nela como expressão ou manifestação de energia e ordem cósmicas, que o homem é capaz de discernir. Trata-se de matriz de fenômenos cósmicos que estão dentro da faixa de percepção humana.

Obviamente, aquilo que transcende essa faixa de percepção humana ou não é conhecido pelo homem ou ele apenas especula a seu respeito. Essa realidade desconhecida ou abstrata geralmente não é concebida como natureza e, sim, como o ‘Absoluto’. A maioria das pessoas situa o absoluto na categoria do campo Divino ou espiritual. É uma falácia comum associar aquilo que não é compreendido pela mente humana ou que se diz que a transcende com o espiritual. Este último, por sua aparente invisibilidade e qualidade de infinito, é tido como um produto mais direto de um ser ou uma mente Divina. Em sua cosmogonia, os gregos antigos pensavam que o firmamento para além das montanhas mais altas dos limites marítimos, tal como eles o conheciam, era divino, devido a seu mistério e sua infinidade. Quanto mais o homem reduz o infinito ao finito, isto é, a uma natureza qualitativa e quantitativa, mais material isso se torna para ele, mas cai na categoria do que ele chama de ‘forças naturais’. Portanto, isso não pertence à categoria do sobrenatural.

Podemos dizer que, com efeito, o ‘espiritual’, para a maioria das pessoas, implica ‘sobrenatural. Significa que transcende ou parece transcender o universo físico. Ultrapassa aquilo de que o homem é objetivamente consciente. É um fenômeno que ele parece não poder dirigir à vontade.

Com o passar dos séculos, mais e mais do ‘sobrenatural’ tem sido reduzido ao nível do ‘natural’. Alguns homens na realidade consideram aquilo que eles compreendem menos importante do que o intangível e desconhecido. O que é ‘misterioso’ sempre inspira temeroso respeito. Na maioria das mentes, é de imediato associado, diretamente, com ser divino, e assume para elas uma qualidade completamente fora de proporção à sua verdadeira natureza.

Houve época em que tentar analisar cientificamente o sangue era considerado sacrilégio por algumas seitas religiosas; era tido como uma invasão do campo espiritual, do reino sobrenatural. Os alquimistas, por suas tentativas de transmutar metais inferiores, eram considerados pervertidos. Dizia-se que Deus tinha um processo secreto para a criação dos elementos. O homem era presunçoso ao penetrar no campo sobrenatural e tentar descobrir as leis espirituais que nele operavam. As mesmas idéias são às vezes expressas por algumas pessoas com relação às pesquisas da natureza da matéria pela Física moderna.

O HOMEM INQUIRIDOR

Hoje em dia, a maioria dos homens está condicionada à pesquisa de fenômenos físicos. Eles não questionam, ou raramente o fazem, o direito do homem de arrancar do universo os seus segredos, capazes de liberar forças materiais. Para eles, o espiritual continua relacionado com o que eles chamam de alma e suas propriedades. A alma é vista como uma consciência ou mente amorfa, divina, com certos atributos, como os impulsos morais que eles chamam de Consciência. A combinação cabe diretamente a Deus. Todos os princípios ou regras de pensamento e códigos morais que parecem ter origem na alma, na Consciência, são assim tidos como ‘leis espirituais’.

Quando a Filosofia e a Psicologia modernas revelam que a Consciência não é totalmente um produto de alguma qualidade espiritual inata, muitas vezes causam ressentimento naqueles que insistem numa separação entre o espiritual e o material. São estes que querem que essa separação seja absoluta, e não apenas relativa. E eles se ressentem também da afirmação de que a personalidade-alma seja também a conseqüência de um ajuste psicológico entre o nosso ambiente e a nossa consciência do ego.

O motivo desse ressentimento é que esses indivíduos pensam que relacionar fenômenos naturais, ou aquilo que tem propriedades físicas, com os fenômenos mais intangíveis, é um sacrilégio. Para eles parece que Deus perde sua Eminência se fica demonstrado que qualquer função que Lhe é atribuída tem uma extensão no universo físico. Esta concepção é extremamente dualística. Assenta na idéia de que Deus, sob todos os aspectos e sempre, tem de transcender o mundo real. Essas pessoas acham que Ele não pode ser imanente, ou seja, vivente de algum modo dentro do mundo. A natureza, ou o universo físico, para elas é apenas um subproduto de Deus. Elas concebem o mundo como uma espécie de mecanismo criado por um artesão e tal que o artesão pode dirigis, mas em que não existe nenhuma parte dele próprio [já que o mundo é apenas um produto da inteligência e das mãos do artesão].


A IDÉIA DO MÍSTICO

Para o verdadeiro pensador metafísico e o panteísta místico, como o filósofo ‘rosacruz’, existe somente um vasto espectro ou escala de fenômenos. É o Cósmico, a mente universal ou mente de Deus, atuando através de um mar de energia vibratória. As leis são na realidade a função básica dessa energia. Não há divisões de fenômenos nesse espectro. Cada manifestação se funde com o inicio seguinte. O homem sente esses fenômenos de dois modos:

Um é totalmente objetivo, resultante de seus cinco sentidos receptores e das limitações orgânicas especificas dos mesmos. Esta parte da realidade tem para o homem uma substancia, uma qualidade que ele chama de ‘material’ ou ‘física’. Ele descobriu muitas de suas causas imediatas, que chama de ‘naturais’. Há outros fenômenos que o impelem e que são subjetivos, como sonhos, ou mesmo suas inspirações, suas emoções, seu idealismo moral. E ele percebe que é difícil remontar esses fenômenos a causas ditas naturais. Por isto eles são relacionados pelo homem com a causa primordial, com o espiritual.

Na realidade, porém, em essência, esses fenômenos não são mais espirituais do que as forças que causam a majestosa procissão dos planetas ou o movimento da Terra em torno do Sol. Se descobrimos que as maravilhosas experiências místicas que temos, e que transcendem em sua beleza e inspiração qualquer coisa percebida objetivamente, na realidade não fluem diretamente de uma fonte espiritual externa, e sim das profundezas de nossa própria consciência, elas passam a ser menos divinas? A consciência em nosso âmago é como um rio; à medida que ela flui para fora, para o Oceano do Cósmico, torna-se mais profunda e ampla, e mais extensiva nas impressões que gera na mente humana. Essas experiências mais amplas de nossa consciência são apenas uma perspectiva maior de toda a inteligência divina no interior do nosso ser.

Quando contemplamos uma flor, ou o mar, ou um simples elemento químico, ou organismo humano, estamos nos colocando face a face com a causa divina. Essas coisas não são em si mesmas Deus, mas ‘pertencem à Sua consciência’. Ele está presente nelas.

Uma árvore não é nenhuma de suas folhas, mas, para ser uma árvore, ela precisa incluir todas as partes de que se compõe. Não podemos ver a olho nu as células microscópicas que dão à árvore vida e crescimento; não obstante, não seria razoável chamarmos essas células de ‘espirituais’ e a manifestação mais grosseira das mesmas [a casca da árvore e as folhas] de materiais.

Tenhamos em mente que as manifestações do Cósmico que são suficientemente baixas para serem objetivamente percebidas, nós chamamos de ‘materiais’ por hábito. Ordinariamente as atribuímos à natureza. Inversamente, aquilo que no momento transcende essa faixa, definimos como ‘espiritual’. Subjacentemente, porém, suas respectivas causas se fundem para formar a harmonia do absoluto – o Cósmico.

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[Texto de Ralph M. Leewis]

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