segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Homem _ quem ele é? [Parte VI] Homo Loquens


HOMO LOQUENS - HOMEM DE LINGUAGEM
Recapitularemos alguns conceitos já apresentados em artigos anteriores, a fim de subsidiar a apreensão do presente e dos subseqüentes.

Avaliar o homem sob o prisma da antropologia filosófica é olhá-lo como expressão humana. Nas palavras de Mondim é: analisá-lo enquanto tal, enquanto Homem com seus mais variados atributos: somático, vivo, inteligente, volitivo, falante, sociável, religioso, etc.

Assim, é mister entendermos que o enfoque não é uma exclusividade da física ou da metafísica, mas abrange os dois lados. Na verdade, busca a compreensão do que é o Homem, e que lugar e posição metafísica ele ocupa dentro da totalidade do ser, do mundo, do cósmico.

É inegável que a linguagem é uma característica do homem. Ele é Homo Loquens. Tal propriedade faz dele um ser totalmente singular.

Como é sabido, na filosofia clássica a preocupação principal diz respeito à metafísica; a filosofia, para todo o pensamento antigo e medieval, era essencialmente metafísica: estudo do ser.

Depois, com Descartes e os filósofos modernos, a filosofia assume uma nova dimensão, uma direção crítica; o conhecimento torna-se a preocupação principal. O estudo do ser é subordinado ao estudo do conhecimento.

O interesse pela lingüística na filosofia contemporânea nasceu do fato de alguns filósofos colocarem na linguagem a explicação de quase todos os problemas filosóficos.

PRIMÓRDIOS DA FILOSOFIA DA LINGUAGEM
Já desde a antiguidade clássica, os pré-socráticos formulavam duas questões que preocupam os filósofos até os dias de hoje.

a. A questão da origem da linguagem [ se ela era recebida dos deuses ou elaborada pelo homem].
b. A questão da natureza da linguagem [se as palavras são signos convencionais ou naturais das coisas].

Os pré-socráticos acreditavam que ela era natural, era um espelho direto e imediato das coisas, enquanto os sofistas consideravam-na convencional, tanto sua origem como sua função. O grande Aristóteles concebe a linguagem como instrumento do pensamento, e dado que o pensamento retorna às coisas, também a linguagem tem, em ultima análise, a função de representar as coisas, mas a escolha deste ou daquele som para significar uma dada coisa depende da decisão do homem. A linguagem é, portanto, natural na sua função, mas convencional na sua origem.

Os escolásticos e os românticos situam o problema da linguagem ora no campo simbólico ora no da sua origem.


No nosso século outros enfoques são dados ao problema da linguagem:

O semântico, o gnosiológico, o social e o psicanalítico são aqueles mais estudados.

IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM
A palavra é um utensílio extremamente útil para a tomada de posse do real. As classificações que fazemos, os nomes que damos, os signos, permitem-nos, por assim dizer, ‘capturar’ o mundo nas malhas do pensamento refletido, expresso por nomes, por palavras.

Numa outra linguagem, equivale dizer: através da linguagem, ‘captura-se’ o mundo que nos cerca e o mundo subjetivo que somos capazes de codificar. Tomamos, de fato, posse sobre ambos através da linguagem.

Heidegger chamou a atenção sobretudo para a importância ‘metafisica’ da linguagem, buscando mostrar que ela constitui a primeira e mais importante epifania [manifestação divina] do ser.

O ser mora na linguagem, nas palavras de Heidegger.

Pretende-se dizer que propriamente a linguagem faz do homem o ser vivente que é enquanto homem.

Dada a importância que a dimensão lingüística tem para a compreensão da realidade autentica e profunda do homem, é lógico que nós nos interroguemos sobretudo o que seja a linguagem, que procuremos compreender o que seja em si mesma e quais sugestões ela oferece para a compreensão do homem.

DEFINIÇÃO DA LINGUAGEM
A linguagem é um sistema de signos artificiais e convencionais destinados à comunicação. Ela comporta uma estrutura essencialmente intencional. Com efeito, a linguagem quer significar intenções, idéias, sentimentos, coisas, etc. Pode-se mesmo dizer com justa razão que a linguagem é o instrumento ideal da intencionalidade essencial do homem. Ele é fundamentalmente um ser aberto e em continuo movimento, orientado para toda a realidade que o circunda e supera. Tal abertura dispõe à comunicação, e a comunicação efetua-se principalmente mediante a linguagem.

ORIGEM DA LINGUAGEM
Sobre a questão da linguagem, as alternativas são duas: ou a linguagem foi recebida [de Deus ou da Natureza] ou então foi inventada pelo homem [imitando a natureza ou artificialmente]. Ambas as soluções encontraram a adesão de numerosos adeptos, tanto na antiguidade quanto em nossos dias.

Hoje, porém, a tese mais comum é que a linguagem tenha tido origem por evolução. Mas há modos diferentes de interpretar esse evento. Alguns sustentam que a evolução tenha sido determinada por onomatopéia; outros, pelo contrário, assinalam como a parte principal o acaso e a convenção.

A teoria segundo a qual a linguagem nasce pela formação de sons onomatopaicos [ou seja, pela imitação de sons já existentes na natureza, por exemplo, o silvo do vento, o murmúrio da água, o canto dos pássaros, etc] fora já inventada pelos estóicos e mais tarde por Leibnitz, mas foi proposta pela primeira vez de modo cientifico só por Herder, o qual já na sua tese de doutoramento afirmava: “O primeiro vocabulário constituiu-se de sons tirados de todas as partes do mundo. De cada objeto natural que emite um som tira-se o seu nome; a alma humana vale-se de tais sons como signos para indicar as coisas.”

Para outros, a linguagem tem uma origem convencional. É como homo sapiens que inventa certos sons para cumprir determinadas operações.

Para Mondim, essas duas teses sobre a origem da linguagem não são contraditórias, mas integram-se.

Dando por certo que a linguagem é uma invenção do homem e não um dom da natureza ou de um ser superior, parece-nos que essa invenção tenha acontecido mediante a imitação dos sons emitidos pelos animais e pelas coisas. “Assim, para designar o cão, repete-se o latido do cão; para designar o lobo, repete-se o uivo do lobo; para o vento, repete-se o rumor do vento, e assim do mesmo modo para muitas outras coisas.” Essa origem primeira da linguagem é confirmada pela grande quantidade de sons onomatopaicos presentes em todas as línguas. E é também confirmada pelo modo com que a criança aprende a falar, imitando os sons que ouve da mãe.

Mas sobre essa base onomatopaica, o homem em seguida manobrou com liberdade e genialidade, investigando sons novos ou então combinando de maneira diferente sons velhos [por exemplo, automóvel, televisão, aeroplano, etc]. Dá-se, assim, que grande parte da linguagem atualmente em uso tenha origem convencional.

FUNÇÃO COMUNICATIVA
A linguagem possui enquanto fenômeno humano várias funções.

Elencamos duas que consideramos mais importantes:
- a comunicativa
- a existencial.

É fácil de concluir que aa comunicação é a função principal da linguagem humana. Não somente por sua característica de oferecer descrições de objetos, coisas, fenômenos, leis da natureza, etc., mas afetos, sentimentos, desejos, comandos.

Além de instrumento privilegiado da comunicação, a linguagem é responsável também pela presença de sociabilidade, ou seja, possibilita uma maior aproximação com o outro. O que dizemos a um conhecido ou amigo quando queremos nos aproximar? – Precisamos bater um papo! - Qual a resposta? – Liga para mim!., etc.

A palavra é pois, intrinsecamente doadora, há subjacentemente uma doação na sua expressão. Quando não gostamos de algo ou de alguém, qual a reação humana mais evidente? Não falo com ele [ela]. Não me dou pela palavra.

Outrossim quando falamos conosco mesmos criamos um intercambio entre os dois ‘Eus” – tornamo-nos ao mesmo tempo sujeito-objeto.

Neste mesmo enfoque, na oração dos damos a Deus, nos jogamos nas suas mãos.

Há, como em tudo, aspectos ambíguos na linguagem que foram constantemente sublinhados por vários filósofos.

Ela se presta ao mesmo tempo à formação [educação], à deformação e à corrupção, como frisava Sócrates contra os sofistas.

Heidegger em sua obra “O Ser e o Tempo” diz-nos que a inautenticidade dos indivíduos se dá devido à linguagem: a maioria não pensa por si mesma, reproduz sim aquilo que outros pensaram, captado pelas palavras articuladas ou escritas. Dizia: O Homem não pensa por si mesmo, não julga com a própria cabeça nem decide por conta própria, mas pensa, julga, decide, etc., segundo o que ouve dos outros. A palavra oculta o Ser que mora na linguagem. Neste ponto é que ocorre o desvio à metafísica!

Devido à sua importância, gostaria de ilustrar este conceito por meio de um pensamento abstrato.

Suponhamos que nos tempos imemoriais a relação sujeito-objeto, Criador-criatura fosse de tal modo tão evidente, tão próxima, que a expressão se desse com total fidedignidade, sem estereotipações. O que está além [metafísico] corresponde ao que está aquém [físico] e isto basta.

No entanto, a palavra possibilita desvios, artifícios à expressão do Ser que É. Invertamos o raciocínio. Imaginemos um mundo sem palavras. O que existe? O Silencio, o Ser. Quando ocorre a palavra já existe uma interpretação, um signo para simbolizar algo, uma capturação de algo maior, já se limita algo, “captura-se” pela palavra. Há uma perda, neste momento fragmenta-se o Uno. Algo deixa de ser em si, por si, para si para ser através de um símbolo, de uma ideografia, de uma palavra convencionada. Conceituar é limitar. Aí está o desvio à metafísica.

FUNÇÃO EXISTENCIAL
O que esperamos quando queremos constatar a presença de alguém?
R: Uma palavra. Analogicamente diríamos: Tem alguém ai?
A resposta é uma voz que implica em existência ou não.
Há portanto na palavra um poder existencial.

A palavra testemunha a minha existência a mim mesmo e aos outros. A palavra adquire consistência através do nome. Ter um nome significa possuir uma existência. Na disciplina da Estética aprendemos que a palavra dá o ser à coisa.

Reflitamos, o nome que me revela me exprime para os outros, franqueando-lhes o acesso ao meu ser. O anonimato, o incógnito podem significar certa ‘ausência social’. Porém, o meu nome me exprime aos outros ao mesmo tempo em que em entrega, me coloca em seu poder. Declarando meu nome, eu renuncio à parte de minha autonomia; daí em diante há certo domínio e posse. Qual a primeira preocupação do diretor de um internato senão conhecer o nome de seus rapazes para controlar e/ou disciplinar? A policia desenvolve continuamente a atividade de conhecer o nome e os apelidos [vulgo fulano] para de certa forma controlar-lhes os movimentos.

O nome é o sustentáculo à presença de uma pessoa. Onde quer que um nome seja pronunciado, tem lugar a sua presença junto aos outros e atende um certo desejo de ubiqüidade que é inato no homem.

Por fim, além de se estender aos limites de espaço, o nome permite suplantar os confins do tempo: a nossa presença perdura mesmo após a transição, enquanto a lembrança do nosso nome viver. Daí a tentativa de se alcançar certa notoriedade para garantir-se certa eternidade.

IMPLICAÇÃO ONTO-ANTROPOLÓGICAS DA LINGUAGEM
Quais as implicações que a dimensão lingüística contém com relação ao ser do homem?

Diríamos primeiramente que a linguagem revela o que é o ser profundo do homem. Com efeito, três coisas principais foram reveladas.

A linguagem distingue de modo nítido o homem dos animais, põe em evidencia a sua superioridade intelectual, dá-lhe a possibilidade de viver um tipo muito mais perfeito de sociabilidade, põe-no em condições de desenvolver técnicas para o domínio e a função da natureza, que no mundo animal são de fato desconhecidas.

1. Esse fato conduz-nos ao pensamento de que a função da palavra não é essencialmente orgânica, mas existe em função do intelecto e da espiritualidade.
2. A linguagem revela natureza complexa do ser do homem, ela revela claramente a interdependência do físico e do conceitual na existência humana.

Em outras palavras, fenômeno [físico] e fonema [conceito], sensível e sonoro, nascem de duas fontes: o corpo e a alma.

Ela é sopro como alma [anima], como espírito [animus, pneuma].

E mais ainda, pode mexer com as profundezas instintivas do homem, como também com o mais elevado da alma.

3. Desvela uma essencial capacidade do homem de autotranscender-se.


A linguagem, como significado feito com o signo escrito, é algo essencialmente supra-sensível. A linguagem assim entendida é, por sua natureza constitutiva, metafísica.

A compreensão total da linguagem humana no campo da física está fadada ao fracasso. Para se compreender o Homo Loquens é necessário ultrapassar os limites da física e voltar-se à metafísica.

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