quinta-feira, 27 de maio de 2010

Princípios Metafísicos na Psicoterapia


A fé, o discernimento e a responsabilidade, constituem a base da saúde mental e o cerne da harmonia espiritual. A ‘psicoterapia’, como a terapêutica metafísica, visa à transmutação da consciência egoísta numa harmonia holística com forças naturais, mentais e físicas. Os princípios em que assenta a mudança duradoura são entretanto metafísicos, e fundamentais.

A psicoterapia, como ciência médica, consiste no tratamento de estados graves de desarmonia psíquica, muitas vezes incapacitantes. O tratamento de distúrbios mentais por métodos psicológicos tem sido empregado, de uma ou outra forma, através dos tempos. Foi somente no século dezenove que ele ganhou ímpeto científico, fundamentalmente sob a liderança de Sigmund Freud. Seu emprego da hipnose no tratamento da histeria levou ao desenvolvimento da psicanálise. No século atual, grande variedade de outras ‘terapias’ ganhou popularidade, algumas apenas transitoriamente ou em áreas de interesse local.

Embora tenha surgido uma grande diversidade de ponto de vista e método, no tratamento da insanidade mental, alguns princípios são denominadores comuns. Na psicoterapia, esses mesmos princípios de cura metafísica são essenciais ao desenvolvimento de mudanças significativas e duradouro bem-estar.

DEFINIÇÃO DE FÉ
Sabe-se há muito que a ‘fé’ é um dos princípios mais importantes na cura metafísica. Palavra fé vem do latim, ‘fidere’, confiar. È comumente usada no sentido de ‘crença incondicional’. Crença é a aceitação mental de algo, como verdadeiro, talvez com base em raciocínio, preconceito, ou autoridade. No ponto de vista místico, porém, ‘fé é a confiança ou o conhecimento proveniente da experiência’.

Na psicoterapia psicanalítica, a ‘resistência’ é o oposto da fé ou confiança. Consiste na ‘oposição instintiva demonstrada para com qualquer tentativa de expor o inconsciente’.

Desde a infância somos treinados na disciplinação consciente da nossa vida. O comportamento impulsivo e os atos destrutivos são suprimidos no processo de nos tornarmos criaturas sociais. Se não são transmutados, esses impulsos são reprimidos para além da percepção consciente. Assim, pode-s vir a sentir que o ’inconsciente’, como a caixa de Pandora, tem um pernicioso conteúdo. Na insanidade mental, a possibilidade de que seja aberto o inconsciente é sentida como ameaça a toda ordem, a toda segurança reconhecida.

Todos nós já sentimos resistência em algum aspecto de nossos experimentos metafísicos. Em formas mais amenas, é ela sentida como desconfiança, fuga, irritabilidade, e impaciência. Em formas mais intensas, e associada a circunstâncias mais comuns, apresenta-se essa resistência como suspeita, agitação, bloqueios mentais de memória ou de percepção, e inconsistência de ação. Uma versão muito comum da resistência é a ilustrada na resposta, ‘vou tentar’, como reação a uma solicitação, quando o indivíduo age com grande esforço e sem sucesso.

A penetração no inconsciente revela que a resistência está sempre associada a uma crença. Na intensa desarmonia psíquica associada à insanidade mental, a crença diz respeito ao imaginário poder da emoção, do medo.

O medo está relacionado com a ameaça da perda. É suscitado quando nossa integridade física e nossas necessidades básicas, como de alimento, de abrigo, etc., são ameaçadas. No condicionamento social, ameaça de perda é freqüentemente usada para controlar o comportamento. O poder da ameaça de perda torna-se um recurso da personalidade na preservação do corpo e na proteção de relacionamentos sociais importantes. A aplicabilidade do poder do medo reforça a crença no mesmo.

A insanidade emocional, no entanto, a crença ultrapassa as fronteiras da realidade física. Torna-se a base para a manipulação de realidades emocionais, psíquicas, e espirituais. Aqui, a crença no medo opõe-se à confiança proeminente da experiência, ou fé. Compele a personalidade a reverter ao padrões condicionados de comportamento, ao invés de permitir a experiência criadora. O meio, então, passa a ser usado pela personalidade para justificar o comportamento egocêntrico, em nome da sobrevivência ou da constância da personalidade.

A compreensão intelectual, por si só, é ineficaz para produzir modificação terapêutica. A busca intelectual da compreensão racional pode constituir uma resistência ao processo terapêutico. A personalidade, em seu esforço para adquirir segurança através da ordem, procura racionalizar a experiência. Uma experiência insólita, ou criativa, é reduzida a termos coerentes com atitudes estabelecidas. O paciente, ao empregar o raciocínio motivado pelo medo,raramente constrói uma outra crença que se integra à sua resistência.

INSIGHT
Para o místico, o ‘insight’ é a habilidade para perceber e compreender claramente a natureza íntima das coisas, a maneira como a natureza interior [esotérica] e a natureza exterior [exotérica] se harmonizam. Em função dessa harmonização, novo conhecimento é adquirido. O novo conhecimento torna-se parte da base da realidade do indivíduo. Esse ‘insight’ é um recurso essencial da psicoterapia. “Com o perfeito ‘insight’ dá-se o reconhecimento da anormalidade pela qual passou o paciente. O ‘insight’ é um produto do processo de concentração, contemplação e meditação, conhecido como ‘a experiência intuitiva’. O ‘insight’ resulta da síntese subconsciente de idéias, que depois se transfere para a mente consciente, sem volição e com grande clareza.

Na psicoterapia, as crenças são transformadas, no processo intuitivo. A mente racional é temporariamente supressa, num ambiente relaxante. Os sintomas do paciente são usados como foco de concentração. Memórias e emoções reprimidas emergem na contemplação. As emoções primitivas são descobertas e eliminadas ao serem reconhecidas. As crenças que as sustentam se dissipam. Fatos objetivos são encarados numa perspectiva mais profunda. O ser humano conquista mais um grau de liberdade.

A responsabilidade, ao nível psicológico, consiste em poder ser o individuo responsabilizado por seus próprios atos, em contraste com sua sujeição a forças que transcendam sua vontade. Quando crianças, sentimos que nossos pais são ‘responsáveis’ pelo provimento de nossas necessidades básicas. Como adultos, assumimos essa responsabilidade. Quando nos emancipamos da adolescência, a responsabilidade torna-se um símbolo da liberdade adulta.

Para muitas pessoas, a responsabilidade está carregada de atitudes protetoras, de autodefesa. Essas pessoas são dominadas por um sentimento de incapacidade e vulnerabilidade. Comumente, tiveram pouca liberdade de expressão, em sua formação. Em função de fortes necessidades de ordem social, cultivaram atitudes de auto-repressão. Para elas, o fato de poderem ser responsabilizadas por seus atos não significa liberdade de opção, mas, a obrigação de estarem sempre corretas, em sentimento e ação.

Para o paciente que sofre emocionalmente de dor, medo e culpa, incapacitantes, a libertação é altamente desejada, mas fortemente temida. O exercício da opção é dominado por atitudes protetoras e fortes expectativas. Esse paciente vive preocupado com o fracasso, e o exercício da opção para desencadear mudanças causa-lhe tenebrosas sensações. Sente ele a responsabilidade como obrigação carregada de culpa e vergonha. Em grau extremo, a opção responsável é uma maldição.

O livre arbítrio é essencial à cura metafísica. É preciso que o paciente, em algum nível de consciência, faça a opção de ser curado, para que a energia curadora possa ser mobilizada. Neste sentido, toda cura é, em ultima análise, ‘cura de si mesmo’. Na insanidade mental, a opção de aceitar a cura é o ponto crítico da recuperação da saúde. O paciente precisa superar a aversão à responsabilidade e optar por enfrentar o medo, em suas múltiplas formas. Uma vez que ele tenha feito esta opção, terá despertado seu potencial para estar bem, sadio.

A psicoterapia prática usualmente emprega vários recursos de simples apoio, para o alivio de emoções e pensamentos intensamente negativos. Eles permitem a relaxação de tensões e produzem oportunidade para a opção de cura. O apoio de amigos ou parentes bem-intencionados muitas vezes cria oportunidade para o paciente fugir à responsabilidade. Seu fardo é transferido para aqueles que o auxiliam. Estes podem desenvolver sintomas semelhantes aos do paciente, assim como um terapeuta metafísico, tendo perdido sua neutralidade, pode adquirir sintomas físicos do paciente. O psicoterapeuta profissional é treinado para proporcionar apoio sem envolvimento pessoal que o venha desqualificar.

A psicoterapeuta, ou psiquiatra, atribui a sociedade uma imagem de autoridade. Em virtude de nossa dependência, na infância, todos passamos a buscar o apoio da autoridade, nas áreas em que nos faltam experiência e autoconfiança. Em conseqüência dessa dependência, usamos crenças baseadas na autoridade, para obter um sentimento de segurança e controle.

A autoridade atribuída ao psiquiatra tem objetivo análogo, quanto a proporcionar apoio temporário às pessoas, no auge de sua dor. Quando a dor diminui, deve o paciente desvencilhar-se de sua dependência da autoridade arbitrária do psiquiatra. No cultivo de seu próprio livre arbítrio, deve ele chegar ao ponto de reconhecer autoridade em sua própria experiência. Dentro de sua capacidade, pode o psiquiatra continuar a ajudar o paciente a descobrir campos de responsabilidade ainda mais amplos. Cada passo nesta senda, no entanto, evolui da dependência, através do reconhecimento da crença e de sua transformação, para a responsabilidade; ou, como dizem: as crenças são transmutadas no conhecimento que produz o domínio da vida.

Para o místico, a autoridade suprema é o Absoluto. Como neófitos, disto dependemos como base para as nossas crenças e orientação quanto ao rumo a seguir com confiança. À medida que nos adiantamos na Senda, defrontamo-nos com nossas dependências, nossas próprias questões de fé. Transformamos essas dependências pela iniciação, o estudo e a meditação, até que a crença é substituída pela fé e a iluminação. Assim alcançamos o ponto de reconhecer a Grande Fraternidade que transcende todo medo, dela compartilhar e para ela contribuir.

A cura metafísica ampara o individuo em seu progresso para a harmonia nas relações humanas, e restaura o reconhecimento entre o Cósmico e a alma humana. Analogamente, o objetivo da psicoterapia é de levar o paciente a um sentimento de harmonia ou bem-estar consigo mesmo, com sua família, e com seu ambiente físico e social. Nesse estado de harmonia, o paciente torna-se apto a reagir apropriada e espontaneamente aos eventos de sua experiência. Para o místico, porém, estar em harmonia não é apenas estar apto a reagir apropriada e espontaneamente à experiência; é também a vivência de sua imediata identidade com a Mente Cósmica. O sermos a fonte da nossa própria experiência constitui a suprema responsabilidade.
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O filósofo deve ser um homem disposto a escutar toda sugestão, mas determinado a julgar por si mesmo. Não se deve deixar levar por aparências, nem ter hipóteses prediletas; não deve pertencer a escola alguma e, quanto a doutrinas, não deve ter mestre... A verdade deve ser o seu objetivo primordial. [Michael Faraday]
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[Texto de Richard A. Rawson]

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