segunda-feira, 3 de maio de 2010

Fardos Inúteis


Um meio de aliviar o fardo do carma, a lei de causa e efeito, é simplesmente sair de seu raio de ação. Isso pode consistir num grande passo, num pequeno passo ou em vários passos. Se bastou um só para entrar na sombra, pode bastar um só para sair.

Essa ação indica que consideramos o carma como produto nosso, não o limitando a penalidades de longo prazo por ações há muito passadas. A afirmação ‘colhemos o que semeamos’ pode ser mais apropriada, pois essa metáfora implica haver uma estação, um ciclo de germinação e crescimento entre causa e efeito. Sem dúvida existem tais efeitos retardados, alguns dos quais podemos não ter previsto.

Entretanto, existem também efeitos imediatos; o carma também ocorrre agora. O Carma é o que estamos fazendo a nós mesmo – tudo o que esteja promovendo ou impedindo nosso crescimento, criando harmonia ou desnecessários fardos de infelicidade. Por exemplo, se fechamos uma porta, não podemos entrar por ela enquanto não esteja aberta novamente. Se cairmos ao chão,só poderemos engatinhar enquanto não nos levantarmos. Bater à porta ou choramingar engatinhando, não só é inútil; significa que estamos aceitando resultados [carma] que não são imperativos. Não precisamos suportar esse desconforto.

Nossa tradição religiosa tem sido algo opressiva com relação ao ‘pecado’, uma palavra que possui surpreendente embasamento nas escrituras sagradas. Na escritura ‘judaica’, a palavras hebraica ‘chet’ é proveniente da arte de manejar arco e flecha, e significa ‘errar o alvo’, ou [por extensão metafórica] ficar aquém, não atingir especificações. Na escritura cristã, a palavra grega ‘hamartia’ vem também da prática de arco e flecha, e tem os mesmos significados. Na escritura inglesa essas palavras ocasionalmente são traduzidas como ‘falta ou ofensa’, mas com maior freqüência são traduzidas como ‘pecado’. As centenas de referencias a ‘pecado, pecador e pecar’, quase exclusivamente se originam dessas raízes, que significam errar o alvo.

D modo análogo, palavras cuja raiz se relaciona com perambular são traduzidas como erro. Em ambos os casos a conotação das palavras-fonte é fracasso em relação a algum propósito, e não o de violação que exige penalidades extrínsecas. As penalidades para o erro são resultados intrínsecos, os efeitos inexoráveis de uma causa.

‘Pecado e Fracasso’ são palavras que têm carga emocional em nossa cultura atual. Estigmatizamos alguém de ‘fracassado’, não necessariamente em termos de ‘seu propósito’, mas em termos dos nossos próprios propósitos, que dele esperamos. Imputamos ‘culpa’, em vez de meramente ‘erro’, a ‘um fracassado ou pecador’. Nossa sociedade enfatiza fortemente a ‘culpa’. Algumas aplicações da psicanálise exigem aceitação de culpa pelas emoções da infância. Algumas ‘conversões’ religiosas, reconhecendo a importância da aceitação da graça e orientação divina, pedem que os postulantes primeiro aceitem sua própria culpa, mesmo aumentada. A doutrina teológica do ‘pecado original’ implica que o erro, fracasso e culpa humana são inexoráveis. Estamos a ponto de nos tornarmos uma sociedade oprimida pela culpa.

‘Compensação’ de muitos atos é exigida em tribunais. Sabemos também que, pelo carma, teremos compensação de outros atos – de omissões ou incumbências não cobertas pela lei civil. Geralmente pensamos que esses atos são prejudiciais a outrem, não reconhecendo o dano que acarreta em nós. As leis civis têm tentado reconhecer isso, proibindo atos que são considerados destrutivos ou nocivos a nosso bem-estar ou futuras recompensas. As leis contra a ‘blasfêmia’ são exemplo. Trata-se de ‘crimes sem vitimas’, e que ninguém além do infrator acha que foi prejudicado. Hoje parece cada vez mais fútil, se não incorreto, legislar essa moralidade pessoal.

Quando o prejuízo é para outrem, às vezes há chance de ‘restituição ou compensação’. Sentimentos de culpa podem impelir a pessoa a fazer reparos, o que pode ser realizado sem que a pessoa se ‘martirize de culpa’. Quando um prejuízo é acarretado para alguém, não há essa alternativa. Qualquer fardo de culpa, por si só, não faz reparos; é mutilante e destrutivo, não construtivo. Na melhor das hipóteses, ajuda a evitar a repetição de um ato; na pior, polui outras áreas e envenena o poço de onde retiramos sustento espiritual. Ele nos priva de alguns benefícios cósmicos que poderiam apresentar oportunidades de compensar e auxiliar os outros, bem como de acarretar crescimento pessoal e maturidade espiritual.

Sentir-se culpado, portanto, é um aspecto do carma imediato; é algo a que nos entregamos e que causa infelicidade atual e futuras limitações. Isso nos faz coxear, como se tivéssemos uma pedra no sapato. Mas não é tão fácil nos livrarmos desse fardo depois de o termos posto às costas. Isso por um motivo: não desejamos nos considerar na mesma classe daqueles que consideramos ‘degenerados’, aqueles que parecem não sentir nenhuma compução ou culpa por aquilo que fizeram. Mas enquanto não pudermos, com humildade e compaixão, nos perdoar por errarmos o alvo ou não atingirmos nossos propósitos e ideais, continuaremos coxeando, compondo assim infelicidade.

HIGIENE INTERIOR.
Um exercício saudável ao término de cada dia é rever os acontecimentos do dia, principalmente aqueles em que agimos ou tomamos alguma decisão – ou em que poderíamos mas preferimos não fazer isso. Será encorajador você se lembrar de que resolveu alguma situação muito bem. Mas em outras você falhou. Que poderia você ter feito melhor, mais de acordo com seu propósito e seus ideais? Essa análise não visa castigar você por seus erros, mas prever o modo de agir melhor na próxima vez. Aprendemos com nossas deficiências só quando as reconhecemos como tais; e isso, em si mesmo, é o principal ingrediente da higiene interior.

Essa higiene, que é nos recuperarmos, não é o mesmo que punição ou expiação. Que dizer dos erros e ofensas d que não temos consciência? Não estamos imunes a seus resultados. A antiga concepção de sacrifício ou oferenda por algum pecado não era destinada a expiação, mas era uma forma de reconhecer que temos outras deficiências de que não temos consciência e que nem sempre foi possível a compensação daquelas de que temos consciência. Na realidade, não percebemos totalmente a divina lei de causa e efeito – aquilo que chamamos de carma. Reconhecer isso é o primeiro passo para se pedir maior iluminação.

Não é responsabilidade nossa, além disso, o punirmos a nós mesmos; isso foi ‘decretado’ de outro modo: “A retribuição [não vingança]é minha, disse o Senhor”. Vale dizer que a retribuição é inerente ao sistema cósmico. A expiação, quando tenhamos prejudicado ou ofendido a alguém, depende de compensação ou restituição para com essa pessoa, ou de atos meritórios alternativos que possam equilibrar os pratos da balança. O pedirmos ainda que nossos erros
[pecados] sejam ‘revertidos’ a nós mesmos – trazidos de volta a nós – não significa pedirmos punição “na mesma moeda”, e sim que tenhamos oportunidade de agir novamente, dessa vez corretamente, ou de fazer a devida compensação. Isto é cumprir a lei.

NEGAÇÃO
Existem outras maneiras de sermos um obstáculo, ou de ficarmos na sombra quando poderíamos ficar no sol. Essas maneiras são inúmeras, mas poderá ajudar destacarmos um elemento bastante comum. Temos tido o costume de abnegação, da renuncia, de nos privarmos de coisas que desejamos e, especialmente, de coisas agradáveis. Isso foi estimulado nas comunidades pioneiras, em que as condições de vida eram mais austeras. [É surpreendente como podemos passar ‘sem’ quando tudo o que ‘queremos’ ter precisa ser carregado nas costas ou puxado em carroças]. Mas isso também foi estimulado em outras circunstâncias como autodisciplina. No lado positivo pelo menos em teoria, a renúncia ou autonegação compele as pessoas a reavaliar suas prioridades e descobrir o que é mais importante e duradouro. Mas isso também tem sido usado como ‘punição’ e pode se tornar uma ‘superstição’.

A maioria de nós já passou sem alguma coisa porque não a podia ter. Mas passamos sem outras coisas por escolha ou omissão intencional, sem sabermos o que estamos perdendo. O pensamento negativo fecha para nós muitas portas que o pensamento positivo poderia abrir. É verdade que somos pressionados por uma verdadeira tormenta de ‘expectativas negativas’, como problemas de saúde, inflação, corrupção em altos cargos administrativos, e assim por diante. Mas o fato de não exercermos seja qual for a competência espiritual que tenhamos, e não neutralizarmos essas expectativas negativas, só serve para nos deixar em estado de privação, sem gozarmos de saúde, felicidade e realização.

Se ficarmos na sombra, como podemos ser aquecidos pelo sol? Se nos afastarmos da fonte, como podemos matar nossa sede? Agindo assim, mesmo inconscientemente, criamos um carmma ‘sombrio agora’, enquanto um carma mais brilhante está a apenas um passo de nós.
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[Texto de Edgar Wirl.Ph.D]

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