terça-feira, 18 de maio de 2010

Confissão ao Deus Desconhecido


Deus de meu coração e de minha compreensão:

Por muito tempo te procurei, com o coração cheio do desejo de ‘contemplar tua face’, como Moisés e outros teus intermediários especiais com que, segundo consta, te comunicavas diretamente. Quis te compreender em plenitude, saber como eras, quem ou o que eras, abranger tua magnificência e grandeza, verte e fundir-me em ti, e assim vivenciar em tua glória,luz e conhecimento.

Não me dei conta de quanto era arrogante meu anseio, de quanto sou pequena, ignorante e incapaz para ousar imaginar tão extravagante tentativa. Perdoa-me, eu não sabia o que fazia! Era com amor que eu buscava te conhecer, mas um amor nebulado pela incompetência, equivocado em seus desígnios, tolado pela vã curiosidade, pela sede de saber, conhecer, com minha pobre e restrita mente!

Procurei e não te encontrei, inteiro como queria te encontrar. E duvidei de que existisse, pois eu não te encontrava! E pensei: “o mundo é obra do acaso, Deus é o Acaso. E se existe, não se importa comigo, com meus sofrimentos e aspirações”. Mas, bem no fundo de meu ser, continuava o desejo de te encontrar, e eu tentava te imaginar como eras:

ð luz?
ð Energia invisível e inexprimível?
ð Inteligência pura?

Li tudo que pude a teu respeito, fiz milhões de perguntas, e só consegui ficar mais confusa e perdida entre tantas teorias – pateticamente pobres, poeticamente lindas, inspiradas, apaixonadas, amargas, felizes, simples ou complicadas, e sempre suficientes e insatisfatórias!

Um dia, mandaste-me um recado especial. Num lugar retirado, no meio da mata, entre árvores, montanhas, em frente a um rio límpido e cantante, vi uma tempestade acontecer. Ribombos de trovão, nuvens gordas e cinzentas, chuva brilhante – sim, a chuva brilhava como o cristal, pois ao longe fazia Sol e sua luz se refletia na cortina d’água que caía à minha frente. Lufadas de vento fresco começaram a soprar e derrubar as grandes folhas da gameleira em frente à casa. Elas começaram a cair, aquelas folhas amareladas, grandes e grossas,às dezenas, numa dança encantadora. Ecos de trovão, reflexos de luz na chuva de verão, rio, montanhas e folhas caindo ... Após várias rajadas d vento, o chão estava forrado de amarelo, a grama luzindo, o céu voltando a ficar azul, e a voz da trovoada se perdendo ao longe, cada vez mais distante.

Em êxtase, comecei a sentir que algo me estava sendo dito, que ‘alguém’ me falava. Intui que era a tua presença que se fazia sentir naquelas coisas todas, e que m dizias: “Criança boba, como queres me conhecer por inteiro? Não percebes que és minúscula demais para conter o Todo, e que só o Todo pode te conter? Lê meus signos, minhas manifestações, que é tudo o que podes absorver de mim. Ouviste minha voz nas montanhas, meu toque na carícia do vento, minha poesia nas folhas douradas flutuando no ar, minha musica na canção do rio – manifestações simples, que te encheram d assombrada emoção. Imagina se me contemplasses por inteiro! Por que ambicionas o impossível? Continua a buscar-me, pois é meu desejo que me conheças cada vez melhor. Mas atém-te às tuas limitações, óh humana e sequiosa alma!”.

E então compreendi que só te encontraria por partes, e que um dia - quem sabe? – o quebra-cabeça seria completado.

Começou então uma nova etapa. Fiquei atenta a tudo. Passei a procurar vislumbres teus no canto dos passarinhos, na flor mais singela, no olhar das crianças, no balanço das árvores ao vento, na música do homem, nas suas artes, na terra, na semente, no céu, no mar, nas lágrimas sentidas, percebendo com certa surpresa que não é só no belo que te encontras...

Quando olhei para irmãos meus oprimidos pela fome, pela injustiça, pelo ódio, pelo ressentimento, achei que ali ‘não’ estavas. Até que falaste pela voz de minha consciência, pacientemente me instruindo; disseste que estavas ali, sim, mas que nem mesmo tu poderias interferir na vontade, no arbítrio dos homens, já que Tu mesmo o havias concedido; que estavas ali, sim, aguardando que as espessas camadas de ignorância e do medo fossem pelo próprio homem afastadas, a fim de que tua luz brilhasse e fosse vista. Disseste-me, ainda, que eu podia ajudar-te a mostrar tua radiância amando o ignorante, o raivoso, o revoltado, o marginal, e me ensinaste muitas formas de fazê-lo. E me conduziste a fontes de sabedoria, a pessoas especiais; fui aprendendo, e nem percebi que, ao tentar humildemente seguir teus conselhos, ‘em mim’ brilhou um pouquinho mais a tua luz, aumentou meu alcance de entendimento. Houve momentos em que até esqueci que te buscava, no afã de aprender a amar impessoalmente ’toda’ a humanidade, sem julgamentos ou preconceitos, eliminando invejas, ciúmes, percebendo o malefício desses sentimentos – é óbvio que só o consegui precariamente, tendo recaídas, tentando de novo, numa luta constante na arena da consciência, luta que não sei se e quando vai terminar...

Mas foi quando esqueci que te buscava, no acesso desta luta, que encontrei muito mais de ti! Só então compreendi um pouco mais, e percebi a sabedoria da frase “Deus de meu coração e de minha compreensão”. Sei agora que serás sempre o ‘Incognoscível’ que aparentemente se esconde mas está em toda parte. Não importa como nem por que – só importa que ‘és’ e que aquilo que eu conseguir saber de ti me será dado por merecimento – um merecimento que depende da eterna luta contra meus inimigos internos – arrogância, ansiedade, presunção, orgulho, preguiça, desamor, ignorância.

Procuro, pois, estar disponível à tua presença e tua voz, que me falam em muitas linguagens e me prometem uma abrangência cada vez maior de tua inefável vastidão. Aspirei ao infinito, esquecendo que o finito não pode contê-lo. Hoje aspiro apenas a ter a sabedoria de TE reconhecer em tuas manifestações. Continuas sendo o Deus Desconhecido que se desvenda por misteriosos meios. Reconheço um sorriso teu nas estrelas do céu, uma idéia tua no resplendor do dia que desponta, uma alegria tua na flor que desabrocha, o teu poder criador na semente que germina, tua grandeza no coração que ama, tua potência na vida que chora e canta, tua beleza na sinfonia do vento afagando um roseiral ou uma campina ondulante, tua pujança no calor do deserto, em cada animal, em cada pedra, enfim, no mistério de cada célula, cada átomo, cada respiração. Sim, te encontro e te sinto em cada segundo que passa, em cada chama de ódio que consigo extinguir, em cada esperança que renasce, em cada gesto fraterno que recebo, em cada perdão, em cada lágrima de arrependimento, em cada momento de alegria, em cada onda do mar que se abate sobre a areia e canta louvores à eternidade da vida, que é mutável, imprevisível, mas perene e cheia de promessas.

Perdoa, pois, minha antiga presunção e me concede a graça de tua paciência e tolerância. Aprendi a não querer saber, a não ter pressa, a apenas ‘ser em ti’. Sabes melhor do que eu o que me cabe conhecer. Agradeço por me amparares quando sofro, por me permitires o alivio do chorar quando preciso, do cantar quando é hora de louvores, de saber levantar cada vez que tropeço. Não sei como nem o que és, e isso não tem mais importância. Estou em ti isso me contenta, como se contenta a criança no abraço do pai, no afago da mãe, na cantiga de roda, sem perguntas nem complicações.

Continuo ignorante, e tu continuas a ser o Grande Mistério. Mas uma coisa aprendi – estou em ti, estás em mim. Não sou Deus, não és pessoa, entretanto, SOMOS UNOS. Como? Não sei, e, esplêndida e maravilhosamente, isso não tem importância! Não tenho mais perguntas, e nisso está a resposta que eu buscava...
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[Texto de Ceslawa M.Nicz]

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