sexta-feira, 16 de abril de 2010

Um Tipo Especial de Sabedoria


A primeira vez que vi aquele velho nos trilhos da estrada de ferro foi numa fria manhã de começo de primavera. Eu estava caminhando para a universidade, a uns três quilômetros de minha casa. Cristais de geada cobriam os trilhos e os velhos dormentes. O ar estava sereno.

Estava absorto em meus pensamentos e teria passado pelo velhos sem notá-lo, não fosse por uma coisa: eu podia sentir sua presença sem mesmo ter olhado para ele. Algo irradiava-se de seu corpo. Senti que estava sendo observado e, quando levantei o olhar para ele, percebi que estava me olhando atentamente. Seus olhos penetrantes deixaram-me um pouco inquieto. E ele continuou me observando. Nenhuma palavra foi trocada entre nós.

Como se num mudo acordo, ambos deixamos que algo se descontraísse em nosso âmago, e seus olhos de súbito brilharam, como os de uma criancinha a olhar um presente.

Parei e esperei.

Ele inclinou a cabeça e sorriu.

Isso foi tudo. Nada de “Tudo bem?” ou “Parece que vamos ter um belo dia”. Apenas seus olhos fitando os meus, um sinal de cabeça e um sorriso, e ele se voltou para partir.

Quis correr atrás dele, detê-lo e lhe perguntar o que havia de fato acontecido. Felizmente não o fiz. Teria quebrado o encanto que houvera entre nós. Algo extraordinário tinha acontecido eu não queria que isso fosse estragadol.

O modo como ele havia olhado para mim proporcionara-me o sentimento de ser alguém especial, alguém interessante o bastante para que fosse considerado atentamente observado. Ele usara sua visão de modo singular, e isto me remetera bruscamente aos ‘meus’ sentidos. A geada pareceu mais branca, as pedras começaram a ranger sob meus pés, e eu pude sentir o doce aroma de uma madeireira próxima.

Durante dias dei tratos ao nosso encontro. Ele parecia sem importância [um velho e um jovem cruzando caminhos numa estrada de ferro], não fosse pelo estranho modo como o velho olhara para mim. Por que isso mexera tanto comigo?

Os meses passaram e eu percorri o mesmo trecho da estrada de ferro dia após dia, sem ver qualquer sinal do velho. Talvez ele tivesse passado por ali apenas aquela vez. Lembrando-me do sobretudo esfarrapado e do sapato sem cadarço que ele usava, eu não me surpreenderia com isso. Homens como aquele geralmente medem sua vida em quilômetros.

Mas eu o vi uma vez mais. Era uma cálida tarde ensolarada, quando eu voltava da universidade. Ele usava a mesma roupa de antes, e estava juntando pedaços de madeira jogados fora pela madeireira. Curvava-se, socando os pedaços de madeira numa sacola de lona a seu lado. As pontas das ripas apareciam desordenadamente em todas as direções.

Ele se endireitou, acomodou a sacola, e olhou para suas mãos. Virou as palmas para cima e examinou cuidadosamente a pele, cheia de sulcos e calos. Satisfeito, deixou-as tomar ao lado do corpo.

Este simples gesto, o modo como examinou suas mãos, intrigou-me, e compreendi que ele era uma pessoa plenamente consciente de seus atos. Tudo fazia com atenção. Não desperdiçava nenhum esforço.

Esta capacidade o tornava especial. Sua concentração era um dom; percebi que podia aprender alguma coisa simplesmente observando-o.

Notou minha presença e caminhou até onde eu estava. Surpreendeu-me, ao dizer: “Já faz algum tempo que o vi...” e, antes que eu pudesse falar, acrescentou: “...e, sabe, parece que você está preocupado com alguma coisa”.

O que ele disse era verdade, e fiquei espantado com sua objetividade.

“Você está deixando de aproveitar este sol”., disse ele apontando para o céu; “você deveria procurar sentir-se bem ao invés de mal. Como a escolha é minha, eu sempre estou me sentindo bem”.

Quando eu comecei a argumentar, ele se voltou e começou a procurar mais madeira no mato. Nunca falei com ele. Vi-o perambular pelo campo, completamente absorto em cada um de seus movimentos, totalmente concentrado na tarefa simples de catar madeira colocá-la na sacola. Notei o modo como se abaixava, a deliberação com que estendia os braços as mãos, e percebi que estava observando um artista. Não um artista que pintava ou esculpia em madeira ou metal, mas, um artista que vestia roupa de segunda mão e se movia com segurança, graça e honradez. Saboreei aquele momento e fui-me embora em silêncio.

Deixei o velho trabalhando calmamente ao lado da linha do trem.

Levei comigo, para casa, um tipo especial de sabedoria.
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[Texto de Jim Ballard]

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