quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Veio Áureo da Civilização


Haverá, em toda cultura e civilização, algum fator ascendente que se perpetue a si mesmo? E estará esse fator presente mesmo quando uma cultura encontra-se em declínio?

No que se refere à influencia de seus indivíduos, nenhum grande Estado ou civilização já foi absolutamente retrógrado. Em termo de alcance coletivo, o sr humano adquiriu uma inata autodisciplina.

Se tivéssemos de enquadrar a natureza humana em duas classificações genéricas e arbitrárias, poderíamos dizer que são elas a ‘sensual’ e a ‘emocional’ e, além disso, que o intelecto exerce variada influencia em ambas. O aspecto sensual da natureza humana consiste na gratificação instintiva dos apetites e de outros desejos com eles relacionados. Embora todos esses impulsos sensuais sejam comuns a todos os homens, sua intensidade varia conforme o organismo. A compulsão de uns, em comparação com a outros, resulta em excesso.

Quanto à outra classificação da natureza humana, a ‘emocional’, consiste em impulsos variados. Os mais comuns são amor, ódio, medo, raiva, admiração, tristeza e alegria, que impelem a uma forma específica de comportamento. A predominância de alguma das emoções pode resultar de várias causas: desordens nervosas, tensões, influências ambientais.

O ‘amor’ é o desejo daquilo que ‘agrada’. Mas existe uma ‘gradação’ de coisas que agradam. Alguns amores estão relacionados exclusivamente com o aspecto ‘sensual’, a satisfaça dos apetites sensuais. Basicamente, são apetites biologicamente essenciais, mas de uma ordem inferior a certos outros amores que o homem vivencia. Os amores ‘superiores’ podem ser categorizados como impulsos estéticos, impulsos morais e impulsos de indagação.

Esses ‘amores’ são considerados ‘superiores’ porque seus resultados são mais abrangentes; são, em outras palavras, menos egocêntricos e abrangem mais os outros, ainda que não tenham essa intenção. Ao amor estético, atribuímos as artes, como a musica, a pintura e a escultura. O amor estético envolve uma consciência da harmonia e ritmo da natureza. Faz com que o indivíduo experimente maior afinidade com a vida; em termos simples, o ‘amor estético’ abrange a realidade mais plenamente que os ‘amores inferiores’.

OS IDEAIS
Outro dos amores superiores é o moral. De nosso ponto de vista, não restringimos o significado de moralidade aos ditames ou dogmas explícitos de um credo religioso. Por ‘moral’, referimo-nos antes ao senso imanente de retidão inerente ao homem. Essa retidão está contida nas profundezas do ‘eu psíquico’, o ‘subconsciente’. Embora esses impulsos morais, ou CONSCIÊNCIA, não sejam universais em sua expressão ou interpretação, todos os seres humanos percebem-nos.

Todo ser humano tem consciência de dois valores fundamentais de seu comportamento: “o certo e o errado”. A conquista dos impulsos morais indica subjugar os amores inferiores – os desejos sensuais. Os desejos sensuais possuem um valor essencial, mas não a despeito dos amores ‘superiores’. A pessoa verdadeiramente moral interpreta seu senso de certo em termos de sua relação comportamental com os outros indivíduos; sucintamente: “Não faça aos outros o que você não quer que façam a você”.

INDAGAÇÃO
A indagação é outra das ordens superiores do amor. Está relacionada com o instinto de ‘curiosidade’. É o amor pela investigação, a excitação de rasgar o véu do desconhecido. A indagação leva o intelecto a conhecer, compreender e a identificar. Esse é o amor expresso pelos ‘místicos, filósofos e cientistas’.

O amor à indagação não serve ao eu pessoal apenas. Como geralmente se expressa em ‘criatividade’, seus produtos encerram eventualmente um valor para os outros componentes da sociedade. Por exemplo: um escritor não escreve um livro exclusivamente para si mesmo, nem um engenheiro eletrônico inventa um aparelho que não se aplique às necessidades dos outros. E o esclarecimento ou iluminação dos místicos e filósofos contribuiu para o acúmulo de conhecimento humano. Haverá algum amor maior e de ordem mais elevada à humanidade que aquele que rompe as correntes da superstição e o medo que escravizam a humanidade?


A natureza inferior do homem, o aspecto sensual e seus desejos, está voltada essencialmente ao indivíduo. Tais ações e suas conseqüências são benéficas somente para o indivíduo e para os que com ele se relacionam estreitamente, como os integrantes de sua família. As conseqüências de tais ações contribuem muito pouco no sentido de inspirar os outros a transcenderem seu modo de vida.

O ódio, a cobiça, a concupiscência – e as cinzas de uma cultura outrora grande por eles produzidas – podem despertar a tristeza naquele que os observa, ou levá-lo a se revoltar contra os homens do passado que deixaram sua vida ser aprisionada num escalão inferior do EU.

A ASCENSÃO DA CIVILIZAÇÃO
Observar a devastação de uma cultura passada não suscita na imaginação a cena de um futuro repleto de aprimoramentos, especialmente se se enxerga tais ruínas em sua totalidade. Mas os observadores que possuem a sensibilidade suscitados pelos amores superiores podem detectar nas ruínas de uma grande civilização [simples talvez, e inconspícua para alguns]: aquilo que se percebe como ‘símbolo’ dos dramas e aspirações dos homens do passados que eram motivados pelos amores da estética, moralidade e indagação.

O brilho desse veio áureo, pelo qual o homem e sua sociedade lentamente ascenderam, jamais foi completamente diminuído, pois está sempre preservado na sensibilidade dos amores superiores dos novos homens. As culturas podem surgir e desaparecer, ou parecer estagnar como na chamada ‘Era do Obscurantismo’. Mas sempre haverá indivíduos que possuem dentro de si um filamento do veio áureo. Esses indivíduos têm em mira uma ascensão maior da humanidade. Têm o amor, o desejo exacerbado e a capacidade de manifestar essa ascensão.

Assim, como a fênix, uma cultura mais esclarecida nasce das cinzas do passado. O acelerado avanço da sociedade em termos humanitários, isto é, da disciplina do EU, dependerá de que aspecto da vida o homem enfatize mais: o sensual ou os impulsos refinados do seu ‘eu psíquico’.

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[Texto do Imperator]

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