segunda-feira, 12 de abril de 2010

Frankenstein, o Moderno Prometeu


“Penso, logo existo” R.Descartes

No chuvoso verão de 1816, o poeta Shelley e sua esposa Mary Shelley passaram as férias na mansão de Isaac Newton, na Suíça, onde se reuniam com freqüência na casa do também poeta Lord Byron.

A época era a da Revolução Industrial e do crescente avanço do saber cientifico e racional. Na Arte, porém, o espírito rebelde romântico enaltecia a subjetividade e o sentimentalismo, pregando a liberdade criadora inata do homem, o que se chocava com os princípios de um capitalismo e um progresso que levavam à miséria e ao trabalho forçado nas fábricas.

Lord Byron se interessava pelas descobertas de Volta e Galvano sobre a eletricidade. Na época, vigorava o princípio da ‘abiogênese’, que dizia ser possível criar vida a partir de matéria não-viva. Shelley especulou se era possível dar vida a um cadáver pela eletricidade.

Numa noite em que estavam reunidos, Byron lançou um desafio aos presentes – Shelley, Mary e um médico conhecido, Polidoro – de fazerem um romance macabro, bem ao gosto dos românticos.

Mary Shelley não conseguiu dormir bem, ficando a noite inteira no limiar entre o sono e a vigília. E no dia seguinte anunciou que criara uma história. A história de um cientista que dá vida a um corpo formado a partir de pedaços de cadáveres é mais que uma fantasia romântica. Algum tempo depois, Mary Shelley escreveu o romance “Frankenstein, o Moderno Prometeu”, em que a figura perturbada do cientista Frankenstein tem que dialogar com sua obra, que é um ser consciente e humano [aqui não se lembre da versão do cinema] e que procura desesperadamente o sentido da criação buscando seus próprio criador, o doutor Frankenstein.

O título do romance, “Moderno Prometeu”, explica-se nesse contexto de discussão sobre o ‘poder criador do homem’. Assim como nós observamos o universo e a nossa própria natureza tentando descobrir o nosso Criador, também o ser criado por Frankenstein interroga-se continuamente, procurando o sentido de sua existência.

Mary Shelley foi fortemente influenciada pelo Mito de Prometeu, pois seu marido estava traduzindo os originais gregos para o inglês naquele verão. Para os românticos, Prometeu é o símbolo da genialidade criadora lutando contra convenções sociais; em Goethe, Prometeu é o próprio homem lutando para se libertar da escravidão de deuses titânicos. Para o historiador Jean-Pierre Vernant, Prometeu tem ligações com o conhecimento técnico. É um deus artesão que rouba de Zeus o conhecimento de fazer o fogo, mas tem que trabalhar para mantê-lo. Uma analogia clara com o mito de Adão que, ao descobrir o fruto do conhecimento, deve suar e enfrentar os cardos e espinhos para poder tirar o pão que o sustenta.

O mito de Prometeu representa a emancipação humana pelo conhecimento racional, mas além disso a árdua tarefa de conquistá-la lentamente. É esta a vida de Prometeu – ter seu fígado comido durante o dia enquanto pensa, mas ao cair da noite sua mente não-racional e onírica recompõe seus pedaços esfacelados. O saber cientifico atual pode libertar, mas ao mesmo tempo causar dependência. Em Frankenstein, o Moderno Prometeu antecipa inquietantemente a bomba atômica, criação que destrói o próprio homem. O mito reconstrói-se em cada momento importante na história das mentalidades humanas. Para Tertuliano, no princípio da Igreja Cristã, Prometeu é Cristo que ama a humanidade e morre por ela; no Renascimento ele é o saber que luta contra essa mesma Igreja, que ameaça com a fogueira os hereges. Sua reconstrução, sob a forma de Frankenstein, pela esposa de um grande poeta, que nunca pensara em ser literata, mostra a vontade criadora e a rebeldia individual no Romantismo.

Na versão do cinema – a primeira, pela Universal, em preto e branco – numa eloqüente e bela interpretação, Boris Karloff é um monstro assassino porque seu cérebro é o de um criminoso. Claro reflexo da “teoria cientifica de que é o cérebro a sede de nosso caráter.”

Ainda virão outros tempos e novas visões enriquecerão ainda mais o antigo Prometeu.

A reflexão que deveríamos fazer acerca do mito é sobre o uso que fazemos de nosso conhecimento. Francis Bacon nos interroga sobre o uso de nosso aprendizado. Tal como o doutor Frankenstein, muitas vezes podemos criar algo para nos arrepender depois. Em nossa era atômica, é impressionante a prova de que avanço tecnológico e cientifico por si só não irá trazer felicidade, necessitando de uma contra-parte espiritual. Através da experiência onírica, reconstruímos nosso pensar a cada noite, mas talvez possamos também alcançar um mundo de experiências espirituais superiores e, assim, unindo o racional ao intuitivo, passar da análise à síntese e, por fim, num claro exemplo da vontade e do esforço prometéico, libertar nosso Prometeu.
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[Texto de Henrique Cavalcanti de Albuquerque]

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