sábado, 13 de março de 2010

Zen, Koans e Dualismo


Em sua eterna busca de união com o Ser Divino, o ocidental criou rituais, cânticos e orações para alcançar esse objetivo. Contudo, apesar de todos os seus esforços, o homem continua cego ao fato de que a Verdade não pode ser alcançada por meios externos, e sim pelo que o Budismo Zen chama de ‘a arte de olhar para dentro do seu próprio ser’.
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Que é o Zen? Quais as suas característica, qual a sua filosofia? E, acima de tudo, por que alguém iria querer estudar o Zen? A resposta é que o estudo e a prática do Zen leva ao que se conhece como ‘abertura do terceiro olho’. No idioma japonês isso tem o nome de ‘satori’, que significa iluminação. Sucintamente, ‘satori’ é a união com o Ser Divino.

Em contraste com as religiões orientais, existe no Ocidente o conceito do dualismo. Esse conceito afirma que o homem e Deus são duas entidades separadas, que o homem ‘está aqui em baixo’ e ‘Deus está lá em cima’, eternamente fora do alcance humano. Este conceito dualista impede que o homem s torne unido a Deus e à Natureza.

Um excelente exemplo de não dualismo é encontrado no Budismo Zen. Com base nesse não-dualismo, sabe-se que os mestres Zen afirmam que nada há para ensinar, nada para aprender, que não existe ‘satori’. Que é que isto significa? Este é um conceito muito difícil de assimilar, especialmente por parte dos ocidentais, que medem o valor de realizações pela conquista e o acúmulo de mais e mais conhecimentos novos. A reação imediata, portanto, é: “ Por que preocupar-se com isso?”

Entretanto, se considerarmos a questão do ponto de vista de que não existe separação entre o homem e o Ser Divino, significando com isto que os dois são de fato um só e o mesmo, infere-se que nada há realmente para ensinar, nada para aprender e, assim, nenhum ‘satori’ Isto quer dizer que o homem, possui dentro de si mesmo tudo o que há para ensinar e tudo o que há para aprender, porque a ‘Sabedoria do Universo’ é também a sua sabedoria. Quer dizer também que o ‘satori’ se encontra aqui e agora em nossa vida diária.

Qualquer que seja o caso, acho que, à parte do conceito de não-dualismo, o homem é em si mesmo um ser dual. Ele tem um estado consciente e um estado inconscient de percepção. Em sua maior parte, o homem age num nível consciente, objetivo, durante sua vida diária. Esse estado objetivo de consciência só lhe permite limitada observação da ‘Verdade do Universo’_ “adormecida” em seu inconsciente. É preciso trazer à superfície, à esfera da consciência objetiva, aquilo que se encontra no inconsciente. Mas como fazer isso? Como pode o homem estabelecer essa linha de comunicação entre esses dois níveis de consciência? O uso de ‘koans’ pelos mestres Zen é um meio de alcançar esse objetivo.

A pessoa que não esteja familiarizada com o Zen imediatamente perguntará: “ Que é um koan?” O ‘koan’ é uma resposta enigmática altamente ilógica por parte de um mestre Zen a seu estudante. Os ‘koans’ são desconcertantes para qualquer um – especialmente para o não-iniciado – e não podem ser solucionados intelectualmente. Nas palavras de Suzuki: “O koan é um tema, ou afirmação, ou pergunta que o Mestre Zen propõe, cuja solução leva o estudante a um lampejo de compreensão espiritual.” Entretanto, a afirmação “Sete queixos de linho” absolutamente não é uma resposta muito esclarecedora à pergunta: “Que é o Buda?” Pelo contrário, essa resposta não faz qualquer sentido.

Que é que o estudante tem de fazer com semelhantes respostas irracionais a suas perguntas perfeitamente racionais e profundas? Obviamente, a mera análise intelectual, objetiva, jamais trará a solução que leva ao lampejo de compreensão espiritual. Na verdade, a análise intelectual concentra-se no dualismo, convencendo o homem da eterna separação entre ele próprio e o Ser Divino, entre sujeito e objeto. O intelecto só pode compreender que ‘A’ é sempre e exclusivamente ‘A’, e jamais ‘não-A’. A chave do problema, portanto, reside na eliminação de nosso modo intelectual de pensar.

De acordo com a disciplina Zen, o estudante deve dedicar-s noite e dia à solução do seu ‘koan’. Seja qual for a atividade que ele esteja desempenhando, todo o seu pensamento deve estar fixo em seu koan. Essa é uma proposição de longo prazo; pode durar dias, talvez anos. Oportunamente, a mente do estudante acaba ficando vazia devido a exaustão extrema, e todas as suas faculdades de raciocínio estacam. Nesse momento a solução do ‘koan’ é revelada ao estudante num lampejo súbito de intuição. Isto constitui a ‘abertura do terceiro olho’, ou ‘satori’.

A fixação do próprio intelecto e atenção à solução do ‘koan’ é a forma Zen de meditação, ou ‘dhyana’. O pensamento que é constantemente mantido na mente objetiva torna-se uma poderosa sugestão para o inconsciente. Quando a mente objetiva se esvazia e o estudante perde toda a percepção consciente, o inconsciente responde ou reage à sugestão. O resultado disso é a Iluminação.

Na tradição ocidental de mistério, técnicas semelhantes de sugestão objetiva, destinadas a suscitar respostas do inconsciente, são empregadas com o objetivo de alcançar a iluminação. Quer a pessoa seja oriental ou ocidental, o resultado dessas técnicas, quando corretamente aplicadas, é o mesmo: união pessoal direta com o Ser Divino.

Pode-se afirmar, portanto, que o Ser Divino reside dentro do inconsciente do homem. Percebemos a Verdade dentro de nós, e ao mesmo tempo nós somos essa Verdade. Com efeito, ‘A’ é ‘A’ e também ‘não-A’, simultaneamente. Diz Gensha:”Estamos aqui como que imersos em água, com a cabeça e os ombros sob o grande oceano e, apesar disso, com que lamentação estendemos as mãos em busca de água.”
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[Texto de Edith Esty]

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