quarta-feira, 31 de março de 2010

Fundamentos Filosóficos da Consciência Cósmica


Apresentamos neste ensaio introdutório aos fundamentos filosóficos da Consciência Cósmica uma proposta de tese unificadora de princípios e conceitos de três teorias independentes, relativas à natureza do ‘eu’ e sua associação à ’consciência universal’. O presente artigo está dividido em duas seções: Teologia e Psicologia Transcendental.

Iniciamos a partir da seguinte questão básica: qual é o objetivo da experiência psíquica da Consciência Cósmica?

TEOLOGIA
Em síntese, é a percepção plena do EU para com o Absoluto. Essa percepção e essa consciência, associadas, são denominadas ‘iluminação psíquica’. A iluminação [abhsiambodhi] é o conhecimento da consciência universal. Esse não é um conhecimento no sentido espistemológico do termo; trata-se de um conhecimento sem conteúdo e, portanto, de uma experiência incomunicável através da palavra. Pode-se estar e não estar, simultaneamente, nesse estado.

A iluminação é obtida por meio de um estado intermediário entre a fase objetiva e fase subconsciente da mente, no qual se manifesta a consciência pura [ou integrada], onde não existem pensamentos. Esse estado intermediário ou intervalo ocorre quando a mente interromper suas funções em conseqüência de:obstrução da atividade perceptivo-sensorial, conjugada com a interrupção dos processos de cognição e linguagem, e a ausência de impressões mentais subconscientes. Advindo portanto uma condição transcendente à ‘intuição intelectual’ caracterizada pelo aniquilamento da mente objetiva, que corresponde à total extinção da individualidade ou eu objetivo.

O ‘eu interior’, como um ser unificado, é em essência equivalente ao estado de ‘nirvana’ ou [‘wou-wei’], que consiste no estado negativo de ausência de mente [vazio absoluto] ou de não ação. Considerado no sentido de que o ser deve preceder ao agir – ‘agere sequitur esse’. O nirvana é a identificação da consciência individual do Eu com a Consciência universal.

No bramanismo, com efeito, o EU [atman] e o Real [Brahman], são manifestações diferenciadas do ser Absoluto; e no budismo esse conceito se inscreve no ‘indeterminado That’ e no ‘Uno invariável [Vignaptimatra], ‘eterna consciencia’, e também no vazio de ‘Nagarjuna’. Nas escrituras em pali [pitacas Sutta e Abhidhamma] do budismo, o Absoluto é definido como o conhecimento do Vazio [sunya-vada], ou o Caminho Médio [majjima patipada], segundo o qual ‘o universo não é nem real nem irreal, nem coisa alguma’ – essa doutrina é denominada a perfeita sabedoria [prajnaparamita]. Fazemos a exposição, a seguir,m da tese da verdade dupla, fundamentada na prajanparamita e descrita pelo grande mestre chinês Zhizang [Tche-tsant, 549-623 d.C], da escola Caminho Médio, ap.:

1º_ “As pessoas comuns consideram todas as coisas como tendo uma existência real [“yu” ou “yéu”] e ignoram que em verdade elas não existem e que há apenas o não-existente [“wu”]. Mas, dizer que elas não existem também é falso, pois elas existem de certa forma. Deve-se admitir que as coisas não são nem ‘yu’ nem ‘wu’;

2º_ “Dizer que as coisas não são nem ‘yu’ nem ‘wu’ continua sendo uma afirmação incompleta. A verdade absoluta é que as coisas não são nem ‘yu’ nem ‘wu’, nem ‘não-yu’ nem ‘não-wu’. Enfim, nada deve ser negado ou afirmado, a verdade, por conseguinte, está na dialética dos dois, para além de qualquer julgamento conceitual;”

A obra intitulada “Corpus Areopagiticum”, traduzida por Scotus Erígena e atribuída a Dionísio o Aeropagita, mas que data do século IV d.C., apresenta Deus, o Absoluto, como transcendente à razão, ao intelecto e ao ser. Reduzindo-o a uma ‘abstração total de que nada lhe pode ser predicável – a abstração de tudo o que existe, e Deus é nada em nada”; inexprimível e incognoscível. O neoplatonismo de Plotino, estabelece que Absoluto metafísico, transcendente às categorias do conhecimento do ser, é fonte, por intermédio de emanações do “Nous”, a Inteligência Universal, da qual é derivado o ‘Logos’ a Lei Natural.

A base ontológica e epistemológica dessa linha diretriz de pensamento filosófico, remonta à obra “Sobre a Natureza e o não-ser’, do sofista grego Górgias, que expõe as contradições [antinomias insolúveis] inerentes à noção eleática de Ser [ser absoluto, idêntico ao pensar e ao exprimir], mostrando que, mesmo se ele existisse, não poderia ser conhecido nem expresso.

Observa-se, inicialmente, uma compatibilidade da filosofia búdica, conforme as obras supra-referidas, com a evolução dessa metafísica no ocidente, verificando-se uma área de convergência fundamental sob este ângulo de observação. A convergência está na possibilidade de existência do Absoluto, i.e., o budismo pretende postular sua ‘atualidade’ a nível de transcendência racional, id.q., conjecturar a indeterminação da natureza de sua essência [a Coisa em si] de modo semelhante ao ‘idealismo critico’ considerando, contudo, o ‘número’ [a essência absoluta no sentido denotativo de eqüidade] como ‘mônada universal’, ou seja, unidade invariante no tempo e no espaço, que implica numa estrutura ontológica. E, simultaneamente, como fenômeno-existência:”consciência cósmica”, num estado não-imanente. Outra analogia pode ser estabelecida relativamente a esse estado interativo: a teoria do “Pensamento do Pensamento”, do filósofo grego Aristóteles; o pensamento que pensa a si próprio, descrito como Deus.

A metafísica budista é, não obstante, compatível com a proposição sofisticada citada anteriormente. Sob o aspecto de que o Absoluto não é pensável nem dizível, aproximando-se, em decorrência, dessa forma de concebê-lo, da filosofia antiga ocidental. Nessa caso, a possibilidade de obter o seu conhecimento está restrita ao estado de intuição intelectual e iluminação psíquica.

PSICOLOGIA TRANSCENDENTAL
O ‘eu’ objetivo é uma realidade aparente e relativa, assim como o meio circunscrito à consciência, que determina o fenômeno-existência. Por conseguinte, não existe substância imutável, eterna, no espaço-tempo. A percepção-sensorial indica, nesse domínio finito, que toda matéria [e energia] está em perpétua transformação. Em outras palavras, essa é a resposta à seguinte questão: ‘se o meio fenomenológico circunscrito interromper sua existência perceptível, não subsistirá uma espécie de ‘inércia absoluta’, vazia e imóvel?

E, consoante com o esquema apresentado na primeira parte deste artigo, o verdadeiro ‘eu interior’ está inserido num ‘continuum’ de consciência cósmica.

A escola filosófica chinesa denominada ‘Nada além da Consciência’ elaborou um sistema filosófico para demonstrar essa teoria psicológica. Sistema esse similar à teoria do idealismo subjetivista de Hume. Segundo esse sistema,o estudo psíquicos pode ser classificado em oito níveis de consciência:

_ do 1º ao 5º as cinco percepções sensoriais, através dos sentidos objetivos, e.g., da visão, audição, tato, etc.,]

_ 6º a consciência objetiva, associada e interagindo com as cinco percepções e as percepções internas, e.g., o pensamento objetivo-concreto;

_ 7º a consciência subjetivo-reflexiva, o ‘eu’ interior consciente, e.g., a capacidade de linguagem e a inteligência racional;

_ 8º a consciência impessoal-universal, denominada ‘consciência do mais profundo’; o ‘eu’ consciente com as respectivas faculdades d percepção objetiva é derivado desse nível de ‘consciência psíquica’. Acrescente-se também que nesse grau de consciência são alocadas no registro de memória as impressões da experiência psíquica de caráter introspectivo e as noções intelectuais recebidas, organizadas perceptivelmente.

O ‘eu’ é descrito, portanto, como um conjunto de fenômenos perceptivo-conceptíveis que não tem substância própria.

De acordo com a concepção búdica: ‘o eu é vazio’ – ‘tudo é consciência’, as consciências individuais são manifestações da consciência universal. É possível formular a partir dessa asserção uma fundamentação psicológica do ‘espectro de estados da consciência psíquica’.

Essa formulação teórica proposta está diretamente relacionada e é complementar a duas teorias independentes – o ‘pan-psiquismo’ e a teoria ‘relativa da mente’, que apresentam respectivamente as seguintes doutrinas acerca da natureza do eu:

1ª _ Existe de modo subjacente a toda natureza uma realidade psíquica; logo, todos os seres ou coisas do universo são em essência fenômenos de ordem psíquica;

2ª _ A mente não é uma substância material ou uma força de qualquer natureza, sendo entretanto, um ‘sistema integrado’, constituído pelos sistemas nervosos central e autônomo numa primeira fase, e pelo meio exterior em escala macroscópica e em ordem microfísica, simultaneamente interagindo entre si.

A consciência consiste, então, conforme essa conceptualização, em uma designação aplicada a uma função receptora, determinando, por conseqüência desse inter-relacionamento, ‘variações de consciência’ no espectro de estados, cujo grau mais elevado nesse domínio [ou escala de atividade] e processo de interação é a ‘auto-consciência’.
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[Texto de Garibaldi Monteiro Sarmento]

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