sábado, 6 de fevereiro de 2010

Os Teóricos da Utopia


Entre os mais antigos sonhos da sociedade, encontramos o que costumamos chamar Utopia. Teoricamente, uma utopia é qualquer lugar onde a cortesia humana reina soberana e o idealismo nobre supera todas as qualidades grosseiras da natureza do homem. Quando o homem, pela primeira vez, se tornou consciente do seu próprio comportamento e das relações entre seus semelhantes, descobriu que certas condutas ou atos de seus companheiros eram prejudiciais à própria coletividade. Podemos dizer que, em tal época, surgiram os rudimentos dos princípios éticos e morais.

Em seu caráter específico, a moral é, fundamentalmente, utilitária. Entretanto, o seu fundamento é duplo. Primeiro temos o impulso inerente para fazer o que é ‘certo’. Este ‘certo’, na sua interpretação primordial, não era o impulso para fazer o BEM ou evitar o MAL. De fato, tal conceito precedeu, mesmo, o dos vocábulos ‘bem’ e ‘mal’. Os homens desejam empenhar-se numa atividade que tenha aceitação coletiva, isto é, tudo que contribua para o bem-estar geral de si mesmos e dos outros. Psicologicamente, então, fazer o certo é não se opor ao curso de ação no qual os homens parecem vislumbrar supremacia de sua espécie. A chamada ‘consciência’, em seu estado primitivo, é o impulso para fazer o Bem.

O outro aspecto da moral se relaciona com o primeiro – isto é, o desejo de fazer o certo – mas, neste caso, o certo está formado pelos costumes da sociedade a que pertence e aos tabus e preceitos de costumes estabelecidos. Considerando que na maioria das sociedades as normas pelas quais são regidas provêm de uma fonte religiosa, tal como o clero, a elas [leis e regulamentos] se dá uma autoridade espiritual ou implicitamente divina.

Analisando-se a maioria dos códigos de ética, verificamos que os mesmos, em sua base, apresentam um aspecto prático, utilitário. Em outras palavras, mesmo se neles não houvessem preceitos de ordem religiosa, ainda assim os homens veriam a desvantagem prática para a sociedade de condutas tais como o homicídio, o roubo, o estelionato, o adultério e o abuso de incapazes.

As leis de Moisés e o código de Hamurabi, antigo Rei da Babilônia, incluíam preceitos morais, decretos divinos, para coibir condutas que a sociedade havia verificado ser prejudicial ao seu bem-estar material. Por exemplo, constituía pecado a ingestão de certos alimentos apenas porque, do ponto de vista higiênico, tal dieta não era sadia. O fato de se atribuir tais códigos a uma fonte divina, deu-lhes maior eficácia do que se fossem atribuídos meramente ao Homem; e, por conseguinte, maior obediência lhes foi assegurada.

Entretanto, os homens verificaram que tais códigos de conduta eram de difícil observância, sob as condições de vida existentes. Certos hábitos dão margem a tentações que provocam violações de preceitos morais e éticos. Conseqüentemente, se as emoções e paixões não são disciplinadas com propriedade, não poderemos evitar uma demonstração qualquer de cobiça, inveja e ódio. Força ou autoridade mal colocada – ou melhor, tirania – resulta em ódio fumegante no coração dos homens, a conspirar uns contra os outros. Desigualdades de oportunidade e direitos criam a inveja e a perfídia.

Assim, desde as primeiras civilizações viemos raciocinando no sentido de que as sementes da justiça devem ser plantadas num solo fértil, para que os homens vivam uma existência digna e nobre. Devemos escolher um ambiente e prescrever um meio de vida que possa promover uma transição completa nas relações humanas, ou seja, uma UTOPIA. Encontramos nos “Diálogos de Platão” uma das primeiras utopias, o “Timeus”. Ali se relata um conto segundo o qual um sacerdote egípcio falara a Sólon, o grande estadista ateniense, a respeito de um poderoso império que existira nove mil anos atrás, no Oceano Atlântico.

“Tal poderio advinha do Oceano Atlântico, pois, naqueles dias, este oceano era navegável; e havia uma ILHA situada defronte dos estreitos que vós denominais de Colunas de Hércules...Nesta ILHA, havia um grande e maravilhoso império que dominava não só a própria ILHA, assim como várias outras e determinadas regiões continentais...”.

Os árabes, também, possuíam lendas a respeito de um paraíso terrestre, uma UTOPIA, no Oceano Ocidental ou Atlântico. Tal paraíso corresponde à ATLÂNTIDA referida na obra de Platão. Também é interessante ler o relato de Plutarco sobre a vida ideal em Esparta, sob o regime de Licurgo. Isso tudo eram sonhos onde os homens concebiam uma vida isenta de frustrações, tentações e frivolidades da sua existência normal e com todas as recompensas e virtudes de um paraíso. Mais tarde, haveria de aparecer, ainda, a renomada “ UTOPIA de Sir Thomas More [1566] e também a Nova Atlântida, de Sir Francis Bacon.”

CONCEITOS MODERNOS_
Hoje em dia defrontamo-nos com histórias de novas utopias distantes, remotas no espaço e tão românticas como as reivindicadas, pelos antigos, para a Atlântida. Os entusiastas da nave espacial e simpatizantes dos Discos Voadores, em grande parte da sua literatura e nas palestras públicas proferidas por alguns dos seus líderes, sustentam a existência de utopias em planetas remotos. Tais artigos e conferencias aludem a comunicações com essas inteligências celestiais. Os contatos, segundo se diz, seriam realizados pela conversação direta com os viajantes espaciais que teriam aqui aterrisado, ou, por algum misterioso encontro mental, através do espaço, esses visitantes da Terra, vindos de planetas do nosso sistema solar ou de algum outro, têm a missão de descrever, pessoalmente, aos terrestres, a maneira pela qual vivem.

Somos induzidos a acreditar que essas civilizações dos outros mundos não estão, apenas do ponto de vista tecnológico, tremendamente adiantadas sobre as nossas realizações terrenas. Também são grandes em comparação com a nossa espécie de civilização, nos aperfeiçoamentos de ordem sociológica, moral e ética. Contudo, é interessante notar que as descrições dessa utopias espaciais estão expressas em termos de valores que são feitos para transcender condições em que os humanos pensam como sendo defeitos, nas próprias grandes civilizações extraterrestres. Em outras palavras, é estranho que se diga que os seres desses planetas tenham aperfeiçoado um método de vida transcendental, mas que não tenha relação com o nosso.

Tal semelhança está em que o povo da UTOPIA ESPACIAL daria a entender ter, deliberadamente, procurado corrigir, em algum lugar remoto, todas as falhas de pensamento e ação em sua maneira de viver, das quais ainda somos portadores. Esses homens espaciais possuem uma sociedade que não é revolucionariamente diferente da existente na Terra, mas, ao contrário, apenas de caráter corretivo. Neles, então, a utopia se encaixa numa concepção possuída pelos terrestres, a respeito daquilo que deva ser uma UTOPIA.

Não estamos preocupados com a verdade, falsidade ou mesmo a probabilidade de que tais histórias sobre a vida em outros planetas tenham sido reveladas pelos seus respectivos habitantes. O que é de interesse é que os humanos que descrevem as UTOPIAS desses planetas estão, aparentemente, muito influenciados pelos seus próprios fundamentos sociais, políticos, econômicos e religiosos.

Estão fazendo com que as respectivas concepções a respeito de um povo superior do espaço e de sua maneira de vida obedeçam a um ideal que nós, os terrenos, afagamos com carinho. Um ideal nascido da consciência dos elementos inferiores na estrutura da própria conjuntura social terrena e dos tempos por que passa a raça humana.

Quais são, na sociedade, os males de que os homens poderiam se livrar? Que tipo de conexão ou comportamento imaginam como uma UTOPIA capaz de impedir a reincidência dos males e transtornos por que agora passam? Busquemos uma resposta através dos olhos de alguns dos que têm emitido TEORIAS a respeito de um Estado ideal, a UTOPIA ou paraíso sobre a Terra. Desigualdade e diferença de classes sociais tem desempenhado um papel destacado na descrição da vida, na utopia. Alguns desses paraísos concebiam a segregação como sendo essencial para a felicidade a ser desfrutada numa utopia. Outros, porém, insistiam na dessegregação como necessária para a harmonia entre os homens.

Thomas More pensou numa comunidade de cerca de quatro milhões de pessoas. As relações familiares não deviam ser perturbadas. Não devia haver distinções quanto aos serviços a serem executados. Nem, tão pouco, classes privilegiadas de artesões, nem classe permanente de trabalhadores subalternos. Nessa sociedade ideal, todas as pessoas, a seu tempo, deviam participar das várias tarefas. O trabalho agrícola era considerado o mais árduo; mas dele todos deveriam participar mediante um sistema de rodízio. O povo elegia os superintendentes das suas tarefas. Aparentemente, a teoria do plano era que nenhuma pessoa poderia assumir uma atitude sobranceira com relação à sua tarefa e, assim, provocar a ira daqueles que estivessem fazendo algo menos complexo ou árduo. Por conseguinte, sustentava Thomas More que a hierarquia de classes era um fator que contribuía para a dissensão em qualquer sociedade.

Para evitar os parasitas sociais e o mal deles decorrente, advogava Thomas More a idéia de que, na sua utopia, todas as pessoas deveriam exercer as suas tarefas na presença dos outros. Conseqüentemente, “não poderia haver pessoa preguiçosa, já que seria observada pelos outros”. Segundo a teoria econômica de More, se todas as pessoas trabalhassem, não haveria privações nem, tão pouco, cobiça. Tudo depende, entretanto, de como se deve interpretar a palavra “privação”. Deve ser entendida como uma necessidade, ou um desejo inqualificável?

Há os apetites naturais que são saciados pelo fator quantitativo. Existem, porém, outros desejos que jamais são satisfeitos, isto é, jamais são integralmente atendidos como, por exemplo, a cupidez própria da natureza de alguns homens ao achar prazer na posse, na acumulação, sejam elas necessárias ou não, para a sua subsistência. Tais homens sempre hão de desejar exceder, em alguma coisa, os seus semelhantes, não importando a quantidade que cada pessoa possa adquirir. Homens de tal espécie jamais conheceriam a felicidade num Estado em que a cada um provê as suas necessidades de maneira equânime.

Platão era um aristocrata, oriundo de família rica e distinta. Em sua República Ideal pouca consideração dispensou aos princípios econômicos. Ele e sua família tinha consideráveis posses. Jamais souberam o que fosse privação. Outros contribuíam para a satisfação de suas necessidades, pelas quais pagavam. Seus esforços eram intelectuais. Os intelectuais seriam os filósofos, a classe mais alta m seu esquema utópico. Deviam ser firmes, inexoráveis, mas justos no exercício do comando sobre as outras divisões da sociedade, tais como os agricultores, artesões e soldados. Na realidade, no fundo mesmo, Platão reconhecia e aprovava o trabalho escravo, sistema este que vigorava na sociedade grega. Platão proclamou para a sociedade uma hierarquia definida de classes, a servir de meio para a consecução de um Estado pacifico e Feliz. Vemos, portanto, que Platão, tal como muitos outros no passado e também no presente, tinham pontos de vista restritos pelas respectivas épocas e ambientes.

Para os TEÓRICOS, assim como para muitas seitas religiosas de hoje, era óbvio que as crianças constituíam a base sobre a qual suas idéias deviam ser estruturadas. Platão sustentava que as crianças deviam ser educadas pelo Estado. Não se lhes devia dizer quais eram os seus pais, nem deveria haver distinção de berço. Todas as crianças deviam ter a mesma posição social. Não deveriam ser influenciadas pelas vibrações dos hábitos paternos, fossem eles bons ou maus. Sustentava-se que a uniformidade da instrução estatal haveria de formar homens de caráter forte tornando-os mais tratáveis e responsáveis dentro das respectivas classes sociais.

Thomas More não sugeria, na UTOPIA que expôs, o rompimento dos laços familiares. Quando uma família possuísse maior número de crianças do que pudesse sustentar, o excesso deveria ser adotado por aquelas que não tivessem filhos. Não haveria, pois, necessidade de se perturbar a tranqüilidade da UTOPIA. O sistema escolar paroquial da Igreja Romana e outras endossam a instrução da mentalidade infantil, a fim de perpetuar o dogma e a hierarquia religiosos. Pelo estabelecimento de certos conceitos e preceitos na mente de uma criança, em idade de formação, criavam raízes subconscientes que viriam a se constituir em hábito moral. Mediante tal definida impressão, constituem a ‘consciência’ privada, quando o individuo se torna adulto. Embora mais tarde possa estar sujeita, na sociedade, a pontos de vista antagônicos, a instrução infantil, certa ou errada, torna-se a influência dominante. Isto proporciona apoio ao sistema social ou religioso, seja ele, também, certo ou errado.

Francis Bacon, em sua Nova Atlântida, idealizava uma utopia em que a ciência seria a chave para a felicidade universal. Em sua obra, imaginava uma ilha onde os homens, livres das perturbações e preconceitos da sociedade, se orientavam na Senda do Conhecimento. Prosseguia dizendo que a maioria dos instrumentos que os homens haviam produzido eram descobertas acidentais e que muito mais poderia ser realizado se a humanidade metodicamente buscasse, exclusivamente, o CONHECIMENTO.

Francis Bacon, mediante a fala do Segundo Conselheiro, um dos personagens da sua obra, concebe um plano definido.

“Confiarei a Vossa Alteza quatro principais trabalhos e monumentos. Primeiro, organizar a mais perfeita e generalizada biblioteca que reunirá todo o conhecimento que o Homem até agora foi capaz de transferir para livros de real valor, sejam eles antigos ou modernos, impressos ou manuscritos... Em seguida, um maravilhoso jardim espaçoso, contendo todo e qualquer vegetal que o sol de diversos climas da terra faz surgir...neste jardim devendo haver compartimentos para acomodar todos os animais raros e enviveirar todos os pássaros raros, com dois lagos adjacentes, um de água doce, o outro, de água salgada, para nele habitarem os peixes mais variados. E então tereis, em pequena escala, um modelo privado da natureza universal...Terceiro, um enorme compartimento, bem apropriado, para conter tudo que mão do homem, por arte ou engenho esmerados, tornou raro, em forma, movimento ou matéria-prima...Quarto, uma residência silenciosa, tão provida de engenhos, instrumentos, fornos e recipientes quanto pode ser um alojamento próprio para uma pedra filosofal [laboratórios]”.

Plutarco, em sua biografia de Licurgo, descreve a qualidade utópica da antiga Esparta sob o governo daquele legislador. Licurgo eliminou a cobiça mediante a adoção de um estratagema. Determinou a requisição de todas as moedas de ouro e prata. Em troca, emitiu moeda feita de ferro, ‘cujo peso e quantidade’ eram de muito pouco valor.

“Qualquer acúmulo considerável de tal dinheiro importava em se ter que dispor de um grande espaço de armazenagem, sendo, outrossim, excessivamente difícil o seu transporte”. Fazendo isto, diz Plutarco: “ baniu-se, então, de Esparta, um grande número de vícios.” De modo particular, tornou-se difícil roubar tal moeda, de sorte que cessaram os crimes contra o patrimônio. Também o suborno foi eliminado em virtude de ser tal moeda de difícil ocultação. E considerando que o peso e o tamanho do dinheiro dificultaram o seu acúmulo, diz adiante que: “O rico não tinha vantagens sobre o pobre”. Outro vício que, de igual modo, se eliminou por força desse dinheiro feito de ferro, foi o da procura louca dos prazeres da carne.

Licurgo também determinou que todas as pessoas fizessem as suas refeições em comum, partilhando do mesmo pão e da mesma carne, de modo que os homens não engordassem demasiadamente, em seus lares, “como se fossem brutos gananciosos e se tornassem enfraquecidos pelo vício e excessos de qualquer natureza.” A atuação de Licurgo também se fez sentir na remoção do medo e da superstição relativos aos mortos. Exigiu-se que o povo sepultasse os seus mortos dentro da própria cidade “e mesmo ao redor dos seus templos”. Isso, para que se tornassem acostumados a tais espetáculos. Assim, não teriam medo de tocar um cadáver ou acreditar que o mesmo pudesse ser profanado, quando passassem sobre uma sepultura.

AUTO-ANÁLISE
Qual a vantagem de uma UTOPIA TEÓRICA?
Psicologicamente, constitui uma auto-análise e purificação. Aquele que concebe uma UTOPIA tem consciência daquilo que acredita serem práticas malévolas e insensatas. Não apenas deseja transcender os prazeres que na ocasião usufrui da vida, mas está vivamente consciente das coisas e circunstâncias que parecem lhe impedir de atingir um grau de felicidade ainda maior. A teoria racional utópica expõe um plano para evitar os elementos que parecem tornar indesejável a presente sociedade.

Os que procuram realizar uma sociedade ideal, no mundo atual, são tão realistas como idealistas. Aqueles, entretanto, que apenas imaginam uma UTOPIA, em alguma terra remota ou noutro planeta, são escapistas. É de pouso valor para os entusiastas do espaço conjeturar a respeito de uma utopia em Marte, Saturno, Vênus, ou algum outro planeta. É necessário, primeiro, que reconheçam as falhas de suas próprias naturezas e procurem retificá-las. Do contrário, contaminariam qualquer utopia neste ou noutro mundo que porventura pudessem visitar.

Jamais há de haver uma UTOPIA onde todos os homens e mulheres experimentem a felicidade de igual modo. Felicidade é prazer, e os prazeres são variados, tais como os do corpo, da mente e do espírito. São também relevantes para a inteligência, sistema nervoso, natureza emocional e experiências do ser humano. Pelo aperfeiçoamento total da individualidade e adiantamento da sociedade, podemos assegurar, a cada indivíduo, alguma espécie e grau de felicidade. Entretanto, tal felicidade somente é apreciada pela experimentação, até certo ponto, do seu estado oposto, ou seja, a irritação e a angústia. Se a felicidade for a satisfação de certos desejos, necessariamente, em tais desejos deve existir, primeiro, uma irritação, cuja remoção dá lugar à satisfação.
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[Texto de R.M.L]

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