terça-feira, 26 de janeiro de 2010

QUE É O VERDADEIRO CONHECIMENTO?


A busca do conhecimento sempre foi uma busca esquiva, principalmente porque não estamos certos do que é exatamente o conhecimento ou quais os benefícios que ele nos traz. Geralmente supõe-se que o conhecimento produz uma transformação em nossa vida. Mas não é definido o modo pelo qual essa transformação ocorre. Pode-se perguntar: o conhecimento faz por nós algo que acarreta uma transformação, ou somos nós que usamos o conhecimento para concretizar algum fim almejado?

Afirma-seque vários canais levam ao conhecimento ou constituem seus componentes básicos. O “mistério” do conhecimento, se nos é lícito chamá-lo assim, vem intrigando a mente humana há séculos. Filósofos da antiga Grécia, como Sócrates, Platão e Aristóteles, inclusive os sofistas e as escolas jônicas, buscavam uma definição concisa e abrangente do conhecimento. Hoje ‘conhecimento’ continua sendo um termo que comumente se usa mas que comumente não se compreende.

Além disso, certas palavras aumentam a confusão sobre a natureza do conhecimento. Tais palavras indicam um tipo de conhecimento cuja origem é supostamente sobrenatural – indicando que ele transcende os processos mentais normais, que se trata de um substituto do conhecimento ou que nada mais é que uma concatenação de pensamentos, ou seja, uma cadeia de idéias correlacionadas.

Em particular, palavras como fé, crença e razão fornecem elementos para o conhecimento. Elas são tão familiares que temos a certeza de que compreendemos essas palavras e sua relação e diferenças. Mas compreendemos realmente?

PERSCRUTANDO A FÉ
Comecemos com uma análise da fé. Não recorreremos à convencional definição do dicionário. Antes, vamos compreendê-la a partir de uma análise mais pessoal do uso comum do termo.

Não podemos, por exemplo, afirmar que são permutáveis os significados de fé e experiência. De ordinário, ao termos a experiência de algo isso se dá por meio de nossas faculdades sensoriais, como a visão, audição, tato, paladar e olfato. Além disso, a experiência é direta e imediata. Por exemplo, quando percebemos uma rosa, seu aroma, cor e forma são percebidos diretamente como sensações que identificamos como o objeto que reconhecemos ser uma rosa. Em outras palavras, entre nós e a rosa não há nenhum intermediário além das impressões por ela irradiadas. Não estamos aceitando a existência da rosa com base em boatos ou em qualquer outra fonte que não o próprio objeto.

Por conseguinte, a fé não é uma experiência direta e imediata; entretanto, em geral é considerada equivalente à experiência direta e, portanto, com o mesmo valor de conhecimento. Isso levanta a questão: qual é a verdadeira qualidade do conhecimento?
Em essência, o conhecimento sempre é o mesmo. Ele pode apresentar-se de diferentes modos; contudo, a despeito das idéias de que seja composto, sempre terá a mesma essência, isto é, a qualidade em que o conhecimento consiste.

Essa qualidade do verdadeiro conhecimento é a realidade, a qual deve ser acessível à percepção objetiva humana, ou seja, deve ser vista, sentida, ouvida, etc. Deve ser aquilo que nós ou outros possam perceber como realidade. Mas será que isso desqualifica de verdadeiro conhecimento aquilo que aprendemos por estudo? Talvez jamais venhamos a ter a experiência pessoal de uma realidade lida num livro didático ou de História; não obstante, o conteúdo desses livros são denominados de conhecimento. Esse conhecimento, porém, não passa d um substituto socialmente aceito de nosso próprio conhecimento intimo, adquirido.

Passamos a reconhecer como autorizada certas fontes de informação. Nesse sentido, autoridade implica que a fonte, o autor ou informante, teve a experiência real do que nos conta ou tem motivos para crer que sua afirmação é uma realidade demonstrável. Há uma visível diferença entre fé e esse substituto socialmente aceito para o conhecimento. A fé aceita como fonte autorizada aquilo que não pode ser comprovado por todos, inversamente, ao lermos um livro didático ou de História, podemos presumir que o autor é uma autoridade e que pode ou vai comprovar o que expôs.

O que normalmente se chama de ‘fé cega’ ocorre quando a fonte de conhecimento não é contestada, ainda que pareça contrária aos fatos ou à experiência pessoal. Isso se evidencia mais comumente em se tratando de religião. A fonte de ‘fé cega’ pode ser considerada sobrenatural e infalível. Pode-se, então, crer que é um sacrilégio questionar a essência dessa fé. Obviamente, seu conteúdo não é conhecimento do ponto de vista realístico, objetivo. A pessoa que recorre ‘à fé cega’ está volitivamente se privando de ser receptiva ao verdadeiro conhecimento. O conhecimento qual contradiga a fé que essa pessoa nutre, ainda que comprovado pelos fatos, com freqüência é por ela considerado indício de um propósito maligno de difamar sua fé.

CRENÇA – GERAL E PESSOAL:
Que dizer sobre a crença do ponto de vista de uma convicção pessoal? Há duas espécies genéricas de crença. A primeira pode ser considerada geral – um conceito ou idéia de ampla circulação considerado irrefutável. Em termos psicológicos, implica verdade, dado o número de pessoas que têm crença análoga. Entretanto, há na história inúmeros casos em que se acreditava numa explicação de algum fenômeno natural e em que a explicação era errada. O indivíduo precisava ter coragem para refutar uma noção amplamente aceita, mesmo quando podia provar explícita e objetivamente que a noção estava errada.

O outro tipo de crença é a ‘convicção pessoal’. Esta não é influenciada pelas opiniões alheias. Podemos ter chegado a essa crença por meio de nossos próprios processos mentais, não necessariamente por raciocínio intencional. Por exemplo, pode chegar à atenção da pessoa algum evento - algum acontecimento ou fenômeno – para o qual ela não tem nenhuma explicação definida. Pensando sobre isso, associando idéias sem usar qualquer método formal de raciocínio, a pessoa obtêm uma convicção pessoal sobre a causa do fenômeno ou ocorrência.

O que com toda a probabilidade aconteceu foi que o indivíduo extraiu da memória várias idéias correlatas, que forneceram, em termos de crença, uma convicção pessoal ‘plausível’. Constituirão conhecimento essas crenças, ainda que não tenham sido nem provadas nem refutadas? Um tipo de convicção pessoal é o tipo por ‘conhecimento intuitivo’. Tais impressões intuitivas, que lampejam na consciência sem elaborações, têm uma indubitável veracidade. O esclarecimento pessoal da iluminação produzido por essas impressões lhes confere a essência de verdadeiro conhecimento.

Entretanto, geralmente o indivíduo não consegue reduzir essas impressões intuitivas à concretude factual. Pode ser incapaz de provar sua crença a outrem. Além disso, os outros podem ser incapazes de refutá-la. Essa forma de conhecimento subjetivo não contém a objetividade da realidade e, portanto, em grande parte só traz benefício imediato à pessoa que teve o esclarecimento intuitivo. O recipiente, pois, tem a obrigação moral de dar concretude a seu conhecimento intuitivo, isto é, deve tentar lhe conferir a realidade passível de ser percebida pelos outros e de tornar-se conhecimento geral. O processo por meio do qual se consegue isso é a razão.

A VELHA QUESTÃO DA RAZÃO:
E que é a razão? Uma vez mais, defrontamo-nos com um tema que vem ocupando a mente dos filósofos há séculos, sendo, porém, essencial para nossa investigação da natureza do conhecimento.

Iniciemos nossa análise afirmando que os pensamentos são idéias, e que as idéias são elaboradas por nossas faculdades de ‘percepção e concepção’. A percepção é a consciência que temos das sensações captadas por nossas faculdades sensoriais. A concepção consiste na recordação de impressões registradas na memória, sendo também o reagrupamento dessas impressões numa nova ordem e imagem mental. Exemplo disso é a faculdade da imaginação.

A razão é a integração e associação mais precisa e intencional de nossas idéias. Nesse processo a mente busca uma relação definida entre idéias particulares, para chegar a uma conclusão satisfatória. A conclusão depende totalmente do ordenamento das idéias que a consistem.

Há dois métodos gerais de raciocínio: dedutivo e indutivo. O dedutivo é o processo de raciocínio que parte da idéia ou dos princípios gerais em direção às particularidades. Por conseguinte, o processo dedutivo parte de uma idéia geral que, para a mente, não é auto-explicativa, ou seja, não é em si mesma conclusiva. A razão, portanto, pelo uso de uma análise progressiva, procura um meio de examinar a idéia em consideração como um todo compreensivo, e não como um pensamento indefinido.

Exemplificando, podemos levantar a questão:a vida inteligente é um fenômeno cósmico universal ou está limitada à Terra apenas? Para responder a essa pergunta, poderíamos recorrer ao processo de raciocínio dedutivo, isto é, poderíamos buscar os elementos que se relacionam e que provam ou refutam o conceito.

O processo de raciocínio indutivo consiste em tomar uma idéia que se percebe ser completa em si mesma, e depois, por observação e análise, determinar de que modo por ela ser correlacionada a ‘particularidades’ para formar uma idéia geral. Sucintamente, o método indutivo parte do particular para o geral.

O raciocínio, porém, só é aceitável como ‘verdadeiro conhecimento’ se suas conclusões oportunamente puderem ser evidenciadas ‘objetivamente’. Se a conclusão não puder ser percebida objetivamente, trata-se apenas de crença, de um substituto do conhecimento. Trata-se de uma identidade temporária que a mente conferiu à experiência. Não obstante, a razão é um tipo de conhecimento mais confiável, dada a cogitação que requer.

Pelo que foi exposto, talvez pareça que, para adquirirmos conhecimento, consideramos mais confiável o recurso a nossas faculdades sensoriais, como a visão, o tato, a audição, etc. Contudo, todos em geral sabemos que nossos sentidos podem nos enganar. Por exemplo, quando olhamos os trilhos de uma estrada de ferro, estes parecem convergir a certa distância; entretanto, se chegarmos a esse local, perceberemos que a convergência não passa de uma ilusão de óptica. Do mesmo modo, o paladar e o olfato também podem nos enganar.

Será que podemos afirmar, portanto, que, quando a maioria das pessoas percebem do mesmo modo um objeto, trata-se de uma realidade? Não: a qualidade ‘numênica’ do objeto, isto é, a coisa em si pode ser bem diferente do que os seres humanos percebem. Aristóteles afirmou que os fenômenos numênicos opõem-se aos fenômenos dos sentidos. Tais fenômenos constituem ‘realidade’ e, portanto, verdadeiro conhecimento.

Cada um dos três temas que analisamos – i.e., fé, crença e razão – faz contribuição fundamental para o que se aceita como verdadeiro conhecimento. Contudo, nenhum deles, em si mesmo, é conhecimento absoluto.

A contribuição da fé está em sua pressuposição de autoridade. A contribuição da crença consiste na substituição de plausibilidade em ausência do fato. E a contribuição da razão para o conhecimento consiste num processo que visa ao ordenamento sistemático de idéias, de modo a fazê-las parecer realidade para a mente, que, por conseguinte, pode aceitá-las como verdadeiro conhecimento. [Texto de R.M.L]

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