quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Aristóteles e a Busca da Certeza


Verdade é certeza. Não obstante, a certeza que é verdade esquiva-se à descoberta somente pelo intelecto; precisa ser também vivenciada pela alma. Ou assim declara Platão, que é um idealista, porque para ele o universo é bom e sua filosofia é um instrumento para provar a presença do bem em toda a Criação, como está expresso na máxima: “assim como em cima é embaixo”.

Por outro lado, o discípulo de Platão, Aristóteles, estabelece uma divisão na filosofia platônica; não nos aspectos primários do conhecimento [“as divinas e imutáveis realidades transcendentes”] mas apenas nos aspectos secundário ou “realísticos” do conhecimento. Evidentemente, os admiráveis ensinamentos de Aristóteles sobre lógica, ética e física foram e continuam a ser a pedra angular da civilização como a conhecemos hoje em dia. Entretanto, uma filosofia que limita sua aplicação à explicação dos fenômenos físicos da natureza corre o perigo de se tornar, ela própria, ‘irrealista’, no sentido de que as religiões do passado e do presente se tornem literalizadas.

Mesmo filósofos posteriores, como lamblico, Siriano e Plotino, na tentativa de preservar os ensinamentos de Pitágoras e Platão, enfrentaram obstáculos colocados pela filosofia de Aristóteles. A divina filosofia ficou dividida nos campos opostos do provável e do improvável. Todavia, dentro da filosofia platônica, a teologia e a ciência, como extensões ideais de polaridade, estavam suspensas de modo neutro entre o improvável e o provável. Por outro lado, a pessoa culta comum, então como agora, tem dificuldade para alcançar a disciplina abstrata necessária a uma compreensão experencial da geometria pitagoriana, para não falar nos arquétipos da Alma platônicos.

Aristóteles era um realista. Por toda a sua vida não conseguiu encontrar lugar para algo que não se ajustasse a fatos demonstráveis na natureza e suscetíveis de classificação em categorias. Não obstante, realizou um grande bem ao se opor às extravagâncias de pensadores abstratos; apenas levou esse ponto longe demais.

Em nossa cultura computadorizada, que muda rapidamente, muitos homens e mulheres de modo geral cultos não estão conscientes de sua dívida para com Aristóteles, embora a tendência para o experimental e o particular tenha dominado o escolasticismo religioso e científico por mais de dois mil anos. Obviamente, então, Aristóteles pode ser uma pessoa muito interessante de se conhecer melhor, mas o que é que realmente se sabe a respeito do homem propriamente? Bem pouco. Para o leitor com discernimento, pode haver um lado humorístico numa análise do mestre da análise científica.

A julgar pelas descrições e figuras de Aristóteles que chegara até nós, parece que ele era um homem de corpo pequeno e feições aquilinas. No busto herculaneano ele é visto sem barba, com cabelo curto e encaracolado, olhos fundos e penetrantes, queixo firme e agressivo, e lábios finos demais para uma disposição agradável – estando esta última observação em conformidade com um crítico. Mas parece que Aristóteles não tinha boa saúde. Sofria consideravelmente de dispepsia, que é tida tradicionalmente como “mal de ponto de vista”. Além disso, ele tem sido citado como propenso a discussões por natureza, de forte opinião pessoal e bastante intolerante para com aqueles que discordavam dele e que por sua vez o resumiam como “um mecanismo de pensar não tocado pelos sobretons da percepção mística”.

A declaração acima não é nada elogiosa, tratando-se de um homem quase deificado pela comunidade religiosa do passado e do presente! Haverá nisso algo mais que uma atitude do tipo “raposa e as uvas”? E quem pode responder, considerando que, quando é feita uma pesquisa imparcial, bem pouco parece restar para nos fazer amar Aristóteles como ser humano? Ele parece ter sido uma pessoa de pouco senso de humor. Seu enfoque de todo problema é de uma seriedade extrema que as vezes se torna opressiva.

Como um outro aspecto psicológico, é possível que tenha havido considerável dissipação de várias intemperanças em sua juventude, pois seu temperamento parece trazer a marca da pessoa auto-reformada. E é sabido que, quando um homem se arrepende de erros na sua maneira de agir, pode desenvolver uma atitude excessivamente virtuosa que leve a extremos e o faça tender a ser fanático em sua vida e em seu pensamento. Por um lado, e em sua defesa, Aristóteles era uma mente muito avançada para ser fanático, mas, por outro lado, seus discursos filosóficos indicam um inegável tom de amargura e ‘cinismo’ no sentido comum desta palavra. Esse cinismo ou essa irritação mental pode ter sido causada pela insistência de Aristóteles, ao longo de toda a sua vida, em limitar sua filosofia “exclusivamente” à explicação dos fenômenos físicos da natureza. Mas, como sabem todos os estudantes, a matéria encerra mudança – alteração constante – e as teorias científicas estão sempre se modificando.

Se Aristóteles tivesse atentado para os últimos discursos de Platão, poderia ter poupado ao mundo muita incompreensão e dificuldade. Platão conhecia filosofia “in totum”, como Aristóteles jamais conheceu. Mas isso não significa necessariamente, que Aristóteles negava realidades espirituais, e sim que ele edificava sua compreensão das mesmas em bases físicas, apegando-se por toda a sua vida ao visível como a suprema certeza. Era sua conhecida convicção: “O que eu vejo, assim é;o que eu não posso ver, talvez assim seja.”

Aristóteles, honrado hoje em dia como o filósofo que possibilitou a cultura moderna e o moderno modo de viver, tornou-se o guia infalível dos acadêmicos medievais. Destes já se disse que “apanharam os ossos das convicções de Aristóteles, até que não restou o suficiente da carcaça para fazer uma sopa”.

Por estranho que pareça, a Igreja Católica, atuando quase exclusivamente na esfera do improvável, desenvolveu uma paixão quase descomedida por Aristóteles. Em alguns casos, imagens do filósofo foram colocadas lado a lado com imagens do Mestre Jesus. Os primeiros teólogos aplicaram as classificações de Aristóteles às abstrações de sua fé, com um resultado espantoso. A concretização do cristianismo tornou-se uma obsessão para os escolásticos e, paradoxalmente, o resultado foi um complicado universo teológico, cheio de certezas incertas!

Para Platão e os demais gregos esclarecidos, os deuses, semideuses, as ninfas e os espíritos, eram símbolos místicos dos grandes poderes criativos da natureza. Esses poderes, propriamente chamados “seres espirituais”, não tinham nenhuma semelhança com o físico ou corpóreo, mas eram de várias maneiras simbolizados nas formas de imagens e figuras religiosas. Os seres espirituais mencionados na Bíblia eram também criaturas simbólicas que representavam poderes divinos presentes no espaço e que dirigiam o mundo. Ora, ao nível da mente subconsciente, imagens arquetípicas são perfeitamente aceitáveis, mas essas abstrações eram insatisfatórias para aqueles que haviam assumido o ponto de vista aristotélico e tinham de racionalizar sua doutrina de modo que ela se ajustasse ao pensamento mundano e concreto. O resultado foi um aglomerado de absurdos religiosos, e foram gastos séculos na tentativa de tornar o natural sobrenatural.

Nesta linha de pensamento e num tom mais leve, consideremos alguns exemplos dignos de nota de um livro publicado em Londres, em 1607, citado em “Jornada pela Verdade”, de M. P. Hall. Muito conhecido hoje em dia é o problema verdadeiramente aristotélico de quantos anjos poderiam dançar na ponta de um alfinete ao mesmo tempo. Também no espírito aristotélico houve o esforço de determinar a localização geográfica exata do Jardim do Éden. Podemos também imaginar com que alegria Aristóteles teria posto as mãos numa das penas [verde-claras] do anjo Gabriel, que foi descoberta uma pequena arca envolta em tafetá.Com uma pena como ponto de partida, o ávido Aristóteles tinha o “fato” de que necessitava. E, partindo desse “fato”, seria tão fácil reconstruir a pessoa de Gabriel como seria fácil para um cientista moderno remontar um dinossauro a partir de um único osso. A suspeita de que a pena da asa do Arcanjo Gabriel provinha da cauda de um papagaio proporcionou outro ótimo ponto para a discussão teológica. Foi finalmente decidido que a pena tinha sido arrancada da asa do anjo na ocasião em que ele aparecera à Virgem Maria para anunciar a imaculada conceição. Presumivelmente, a própria Virgem embrulhara a pena em tafetá, de modo que ela pudesse vir a ser uma das sete maravilhas do mundo da teologia. Um outro importante item de reverência religiosa foi uma unha de um querubim. E depois, maravilha das maravilhas, num ataúde de inestimável acabamento, foi encontrada uma das costelas do Verbo feito carne!

No tocante a encontrar prova para o improvável, a teologia demonstrou rara genialidade e considerável coragem, se não convicção. Sempre me pareceu que seria realmente difícil encontrar-se relíquia mais convincente do que um dos longos raios da estrela de Belém. Esse raio parece ter sido quebrado e guardado por um dos três Magos que foram adorar a Jesus na manjedoura. Quase tão convincente foi uma pequena garrafa dentro da qual havia notas que teriam sido entoadas pelas abelhas do Templo de Salomão.

Naturalmente, Aristóteles teria sido o primeiro a ridicularizar essas relíquias; mas ele foi indiretamente responsável pelo tipo de mentalidade que as imaginou como reais. E nem mesmo com essas fantasias teve fim essa triste história. A teologia resolveu eliminar todas as incertezas de suas crenças. E assim um elaborado sistema de leis e estatutos eclesiásticos foi instituído, sobrecarregando a religião com uma espécie de jurisprudência celestial. Todas essas leis foram consideradas infalíveis, embora nós, modernos, pudéssemos encarar seus autores como obviamente falíveis. Seja como for, a Igreja tem lutado desde então com essas “infalíveis” fantasias de tipo aristotélico. Por causa dessas desventuras filosóficas, a religião deixou de ser guiada por sua sublime inspiração espiritual e, de modo geral, tornou-se tão literalizada que de fato causa espanto ao intelecto mas dá bem pouco conforto ao coração.

Tivemos assim um vislumbre do que a filosofia aristotélica criou ao ser aplicada às abstrações da religião. O que pode ser de grande interesse aqui e agora é como os diversos aspectos da filosofia de Aristóteles continuam a afetar a ciência e a vida no mundo moderno. A compreensão de como funcionava a mente de Aristóteles pode ser conseguida comparando-se suas opiniões básicas com as de Platão, onde as duas opiniões estão em conflito. Parra o estudante, essa comparação pode parecer muito relevante e evidente; mas a revisão é claramente como encontrar um velho amigo. [Texto de Burnam Schaa]

Nenhum comentário:

Postar um comentário