quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

TEXTOS DE SARCÓFAGOS


Os Textos de Sarcófagos, encontrados no Egito Faraônico, constituem-se em documentos e paleografias e podem ser compreendidos como a estigmatização do Dharma no ser humano.

Na antiguidade a vida material estabeleceu-se na região conhecida como Crescente Fértil, mais precisamente, no Egito, há alguns milhares de anos, e evoluiu graças às peculiaridades do rio Nilo e a espiritualidade de uma população laboriosa que habitava a região.

A história deste povo não é muito diferente do florescer de outras civilizações orientais, a não ser pelo seu alto grau de religiosidade e respeito pela vida. Uma sociedade teocrática formada a partir de uma genética comum [sociedade gentílica], politeísta, antropozomórfico e ressurreicionista, mas acima de tudo, crente na imortalidade da alma e na existência de um “juízo final”.

Ao referir-se a esta conduta modelar não se quer generalizar e dizer que, sem exceção, todo o povo vivia dentro dos preceitos de fraternidade e harmonia, mas sim que a maioria buscava fazê-lo, pois este era, sem dúvida, o único caminho para se justificar no “julgamento de Osíris”.

Portanto o objetivo deste trabalho é examinar os chamados “textos de sarcófagos” ou confissões negativas que eram colocados junto à múmia que era por sua vez depositada dentro de um sarcófago. Esse documento era escrito em papiro e apresentava itens de defesa da moral, ética e religiosidade do falecido no seu juízo final.

FILOSOFIA DO POVO EGÍPCIO_
O entendimento de filosofia na Antiguidade Oriental difere das noções desta mesma matéria que emergiu na Grécia. Porém, sem dúvida é possível ver no Egito antigo especulações filosóficas a partir de preceitos litúrgicos, ritos de magia e pronunciamentos de figuras exponenciais da sociedade. Isto pode ser observado em textos como o “Diálogo de um homem casado”, tido como uma das mais profundas e introspectivas obras escritas no Egito.

Outro aspecto importante na filosofia egípcia era o constante preparo e diálogo escatológico para a transição de outra esfera de vida, que poderia ocorrer em qualquer momento, seja por vontade dos deuses ou em conseqüência da própria natureza finita do homem. E por isso buscavam seguir um estrito código de conduta estigmatizado em seu íntimo pelo próprio Criador.

Nos chamados textos de sarcófagos eram comuns os temas que diziam:” A alma no céu e o corpo firme na terra”, ou “ O corpo fincado na terra e a mente livre na Eternidade”. E assim era este povo em vida,queria, de todas as maneiras estabelecer um regime de parceria com os deuses e viver em completa e estreita relação com eles.

OS TEXTOS DE SARCÓFAGOS_ A compreensão dos “Textos de Sarcófagos” passa pela idéia da vida além-túmulo existente no imaginário egípcio. Entende-se por sarcófago um monumento fúnebre que abrigava o corpo mumificado. Para os egípcios, o que se chama de morte, era uma transição entre esferas de vida. O homem do vale do rio Nilo acreditava em um mundo subterrâneo onde os falecidos desenvolviam atividades semelhantes às que exerciam em vida. Contudo, além desta crença existia também a idéia de um paraíso atraente e acolhedor, cujo acesso era feito através do Tribunal de Osíris, onde ocorria uma psicopatia no atma nirvânico do ser.

Então, ainda de acordo com esta imaginação, apresentada em diferentes afrescos e textos escritos em hieróglifos, a alma do falecido era levada ao Tribunal de Osíris, que, sentado em seu trono, presidia a audiência, na qual, quarenta e dois juízes divinais iriam inquiri-las s obre os quarenta e dois aspectos morais, éticos e religiosos. Neste ato, a alma procedia a sua defesa apresentando uma confissão negativa, escrita em um rolo de papiro e colocado em seu sarcófago, na qual proclamava a sua inocência declarando entre outras coisas que:

1] NÃO CAUSEI SOFRIMENTO AOS HOMENS_
Os egípcios já observavam que causar sofrimento a um semelhante era “pecaminoso”, depunha contra os desejos dos deuses, poderia custar-lhe a vida eterna.

Observava-se que em um período onde a maioria das chamadas “civilizações” estavam quase na “barbárie”, este povo evoluído possuía definições acerca de seus deveres para com seus semelhantes. Além disso, poderíamos notar a presença de um elo quase fraterno entre os seres, mesmo não sendo íntegro, poderíamos dizer que florescia intimamente o tão decantado amor-ágape.

Seria, portanto, justo atribuir-lhes um grau de evolução muito além dos estabelecidos pelos demais povos. Ressalva-se os povos da região do Crescente Fértil, em redor do ano 1750 aC, pois o rei babilônio, Hamurabi, criou o primeiro código de leis escritas do mundo como também norteava seus princípios nas questões éticas e morais.

2] NÃO USEI DE VIOLÊNCIA PARA COM MINHA PARENTELA_
A violência já era vista como forma de deformidade do caráter e da personalidade, e a família como instituição sagrada, a qual dispensava-se respeito, consideração e admiração. É importante lembrar que o único país da antiguidade oriental onde a mulher desempenhava funções destacadas na sociedade, bem como possuía direitos era justamente no Egito.


Como já foi mencionado, o Egito era formado por uma sociedade gentílica, ou seja, todos tinham um antepassado em comum, isso é quase a visão dada pela enorme fraternidade hebraica no Velho Testamento. Esta questão era tão importante, que na família real, o herdeiro só podia ser concebido através de uma relação consangüínea preferencialmente com uma irmã. Portanto fica evidenciado que a base de sustentação era a família. Os laços familiares e a não violência faziam destes trechos dos textos de sarcófagos uma conotação bem vinda nos dias de hoje.


3] NÃO SUBSTITUÍ A INJUSTIÇA EM JUSTIÇA_
Este é o item de maior fundamento moral: não adulterar, não forjar, não se beneficiar com o prejuízo de outrem, não ser vil ou criminoso, não permitir que a injustiça triunfe. Esta passagem que demonstra a importância da justiça, principalmente a social, é premente e fica muito clara nesta carta escrita pelo faraó Altoés II para seu filho e herdeiro Mericaré:

“...um povo rico não se levante para se rebelar, não o empobreças, de maneira que não seja levado à rebelião...

...não faças diferença entre o filho de um homem de qualidade e o de um homem comum...”

4] NÃO FREQÜENTEI OS MAUS _
Esta é a visão de um povo que diferencia os bons e os maus, e sabe que a simples convivência pode tatuar o homem com o estigma do mal.
Afasta-te dos ladrões, assassinos, dos violentos, dos falsários e daqueles que sempre estão tramando algo infinitamente errado. Caso contrário sua eternidade estará comprometida. Depreende-se da mensagem percebendo-se também a importância que era dada a uma vida regrada e sadia. Isso também seria como lei de convivência.

Acredita-se ser possível que o ser humano, desde os primórdios, possa ter sido regido pelo medo do desconhecido, do eterno, mas este código, ao qual preferimos chamar de DHARMA, atemoriza até os mais altos dentro os mortais, o próprio faraó também levava consigo os textos de sarcófagos, também precisava se justificar perante o Tribunal de Osíris, isso indicava que poder terreno e ligação com os deuses não garantiam uma passagem para a eternidade.

Observe a partir deste trecho que existia um nivelamento ou condição de igualdade entre todos os seres.

5] NÃO COMETI CRIMES_
Estava estabelecido um modo de convívio. Havia uma lei. Mesmo sem a existência de um código escrito, e esta lei indicava que aquilo que desligava o homem na terra [sociedade]também o desligava nos céus[mundo extrafísico]. Estava tão implícito no homem que a criminalidade era impura que, quem a cometesse, fosse sob que aspecto fosse, jamais conquistaria a imortalidade. Seria antes julgado pelos homens e banido da sociedade para posteriormente ser julgado por Osíris e banido dos céus.

Quando uma sociedade estabelece o “crime”, e busca ao mesmo tempo formas de impedi-lo, conceitua-se assim como “evoluída”. Está alicerçada na firme teoria que tudo que está em baixo é exatamente como o que está acima.

A única forma de se transmigrar para a eternidade é cumprir rigorosamente aquilo que o Deus da compreensão do homem legou-lhe como DHARMA.

6] NÃO PERMITI QUE TRABALHASSEM EM EXCESSO PARA MIM_
Apesar de ter existido escravidão no Egito, nos períodos Antigo e Médio, e mesmo sendo costume fazer-se escravos aos que não podiam pagar as dívidas ou que caíssem prisioneiros em guerras, havia uma idéia perfeitamente clara que a exploração do homem pelo homem constituía uma das maiores contravenções contra os deuses e contra a sociedade. Observa-se o parâmetro de igualdade nas relações de trabalho, esta igualdade, no entanto, não caracterizava status ou direitos, mas uma equiparação entre ter o poder mas não para usá-lo contra seus semelhantes.

Esta forma de pensar perdeu-se pelo resto do mundo, onde, principalmente na Europa moderna, a escravidão e a expropriação do homem pela condição social ou cor de pele estabeleceu-se de maneira natural e não animalesca ou errônea como de fato o era. Para tanto, a sociedade européia buscou auxílio na Igreja para não ser taxada de maligna.

No mínimo o homem possuía conhecimento, mesmo sem a lei escrita, de que escravizar um ser igual era pecaminoso e corrompia sua alma imortal.

7] NÃO FOMENTEI INTRIGAS POR AMBIÇÃO_
Esta negativa encerra em si dois dos maiores crimes contra a lei divina, por isso era de suma importância: Negar a intriga e a ambição.

Muito tempo depois deste período, o próprio Cristo veio reafirmar esta versão: “A ambição nos deixa fora das portas do céu”.

Na visão judaica, a intriga e a ambição são maléficos contra toda a sociedade e pecados realmente pesados que comprometem a ascensão a um plano espiritualmente mais elevado.

Apesar de politeísta, a religião egípcia estava muito relacionada com o direito, e todos os deuses, convergiam para as questões do merecimento e da retidão de caráter. A justiça social também tinha um papel importante dentro das crenças estabelecidas. Mesmo que estes fatos não acontecessem exatamente assim, a visão era bem objetiva, real, e isso miseravelmente conduz para a realidade de que trinta séculos atrás vivia no planeta terra uma sociedade muito mais evoluída que a atual.

8] NÃO MALTRATEI MEUS SERVIDORES_
Outra visão contrária à exploração do homem pelo homem, independente de posição social. Portanto uma lei moral de relevante importância, pois teologicamente nos conduz ao ponto de que: todos somos iguais e que apesar de sermos, muitos, somos ‘unos’.

A valorização do homem que trabalha é a condição social desta negativa. Agrega ainda em si, a política, que necessita de trabalhadores ativos e satisfeitos, e a humana, que impede os maus tratos a todos que trilham seu aperfeiçoamento na terra.

Esta visão humanista do povo egípcio nos leva a pensar que a Declaração dos Direitos do Homem já estava impressa em nosso ser desde os primórdios da existência. Novamente temos em nossa ligação com o Cosmos uma condição única de vivermos indiferentes ao tempo e ao espaço, uma vez que o Todo nos leva, em sua Sapiência a sermos convivas de todas as épocas e de todos os lugares, pois somos herdeiros do mundo através do DHARMA.

Somente a Lei Imutável é capaz de anular o passado, o presente e o futuro, pois encerra uma única e perpétua verdade: a da imortalidade.

9] NÃO FIZ CHORAR, NÃO FIZ NINGUÉM SOFRER_
Aquele que não faz chorar ou sofrer pode também não fazer ninguém rir ou vencer.

Mas a questão em pauta é a da santidade da vida, é a visão de não ser o homem caminho para a dor ou para a desgraça. Portanto, não criar sofrimentos é uma virtude capaz de apagar muitos erros.

MAAT, a Deusa da Justiça, responsável pela condução do morto ao tribunal de Osíris, ganha destaque nesta negativa, e surge como sendo o caminho da eternidade, pois o simples fato de não fazer o mal, encerra o bem.

10] NÃO TIREI O LEITE DA BOCA DAS CRIATURAS_
O que é isso senão o velho adágio:”Daí a César o que é de César?”.

Todo aquele que trabalha tem que receber dignamente pelo que faz, isto é, poder sustentar aos seus, dar-lhes dignidade e respeitabilidade, é dar o direito à terra e ao cultivo,permitir aos socialmente menos abastados o direito à vida e a um lugar para descansar seu corpo. O que é isso senão o direito à infância e a vida, senão o direito da mãe amamentar e cuidar de sua prole.

No Antigo Testamento, o próprio código de ética do povo hebreu, também traz estas características rigorosamente estampadas:
“Não atemos a boca do boi que debulha”.

Resta dizer, após o exame das citações acima referidas, que no imaginário egípcio, do Tribunal de Osíris, Anúbis, o deus chacal, pesava o coração do falecido, e o equilíbrio da balança seria medido por uma pena de ave depositada na balança pela deusa Maat - a verdade. O coração não poderia pesar mais que a pena. Este era o grau de pureza que o indivíduo teria que ter para conquistar a eternidade, então, Thoth, o escriba dos deuses anotava o resultado e comunicava a Osíris.

O que nos assemelha, no entanto, é que os homens do Egito faraônico, durante o Antigo e Médio Império, traziam em si um referencial importante de conduta, parecendo que tinham estampado em si o DHARMA – a lei Divina e Imutável - que norteou os caminhos da decência do ser humano desde a mais tenra idade da humanidade.

Estes ‘TEXTOS DE SARCÓFAGOS’ põe à mostra uma consciência moral elevada, principalmente se considerarmos o contexto temporal, concluindo-se daí que a conduta ética do Egito antigo foi influenciada por estes mesmos textos.

Por outro lado é importante observar que em 1570 aC., no Médio Império, durante o reinado de Amena I, foi redigido o “Livro dos Mortos”, o mais importante veículo do conhecimento da religiosidade do povo do Nilo. Seus textos, em grande maioria foram extraídos das “escritas das pirâmides” e das “defesas de sarcófagos” e neste mesmo período estava tomando forma no Egito, a escrita hierática, - uma linguagem mais simples – o que facilitou a compreensão e o entendimento do mencionado “Livro dos Mortos”.

Se na introdução ficou claro o intuito deste trabalho é o exame dos Textos de sarcófagos, supõe-se que após o que foi apresentado sobre as confissões negativas, revela-se de modo inegável uma consciência moral elevada entre os egípcios. Por outro lado, fica implícito que o homem tem estabelecido com o Deus de sua compreensão um contato direto – mesmo que inconsciente – através da eternidade, e que este mesmo Deus manifestou na consciência humana um código, que encerra todas as questões sobre ética, moral, religiosidade, filosofia e vida em sociedade.

Além disso, também se conclui que esse código de condutas pode ser chamado de livre-arbítrio, pois somente estabelecendo “parâmetros” a Mente Cósmica pode cobrar os “excessos” humanos.

E, assim como foi escolhido o povo egípcio e os Textos de Sarcófagos para demonstrar essa questão, poderia ter sido escolhido o povo Caldeu, na Mesopotâmia e o Código de Hamurabi, ou ainda o povo Hebreu e o Velho Testamento. Contudo, pareceu ao autor, ser mais vibrante abordar a questão do juízo do homem, utilizando um código escrito apenas na consciência do seu imaginário. Por fim, deve ser dito, que o maior legado da religião egípcia foi sem dúvida a criação de uma ética e uma moral que garantissem a travessia para a eternidade.

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Notas:

1_[Texto de Rogério Sidaqui, Pesquisador da URCI – Seção C – Egiptologia e História Universal]

2_Referencias Bibliográficas:
- E.A.Wallis Budge – O Livro dos Mortos – Ed Pensamento;
- Os Mistérios do Egito – Ed Pensamento;
- Ferreira, Olavo Leonel – Egito, Terra de Faraós – Ed. Moderna;
- Bessant, Annie – O Dharma – Ed. Pensamento;
- Giordani, Mario Curtis – História da Antiguidade Oriental – Ed. Vozes – 1968;

Nota do Autor: O homem pronto é aquele que mesmo em estágio de evolução física, mental e espiritual, já estabelece uma relação de infinitividade entre aquilo que é e aquilo que será. Portanto quando indico o homem como ser pronto quero simplesmente dizer que ele, teologicamente se sabe infinito e ligado a um Ser superior com quem troca impressões e de quem recebe instruções.





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