terça-feira, 8 de dezembro de 2009

CONSCIÊNCIA CÓSMICA E HIPNOTISMO


Quais são as possibilidades do hipnotismo? Poderia uma pessoa ser levada à maestria por contínuas sugestões em estado hipnótico, duas ou três vezes por dia, ou isso criaria uma ‘planta de estufa’ que não suportaria o teste da vida real? Poderia o hipnotismo ser usado como um atalho para a maestria? Estas perguntas são comuns.

O hipnotismo tem passado por toda uma gama mista de opiniões técnicas e populares, ao longo de séculos. Durante muito tempo esteve relacionado com o sobrenaturalismo e há toda indicação de que seus praticantes não tinham plena consciência de sua natureza. Mesmo quando devida e inteligentemente usado por uma minoria, foi injustificadamente condenado como um grosseiro charlatanismo, a despeito de quanto tenha sido bem aplicado.

Como e quando os primeiros princípios do hipnotismo foram aplicados é, naturalmente, desconhecido. Foi encontrado um papiro egípcio de 3.000 A.C., contendo um procedimento semelhante ao que é usado no moderno hipnotismo. Escritos antigos fazem referencia ao “sono no templo” induzido pelos ‘kherihebs’, ou sumos sacerdotes do Egito. Com toda probabilidade, os sacerdotes induziam o sono hipnótico.

Outros povos antigos, se interpretarmos corretamente seus escritos, estavam bastante familiarizados com o hipnotismo e as vantagens que ele oferecia. A razão de o hipnotismo ter tido má reputação por tanto tempo está no medo que ele causa. O fato de que um hipnotizador parece assumir o controle da mente de uma outra pessoa, combinado com a falta geral de conhecimento sobre as causas fisiológicas e psicológicas do hipnotismo, levou a esse medo.

Médicos responsáveis, que não estavam preocupados com as leis físicas em jogo, e que encaravam o hipnotismo como um mistério, satisfizeram-se em declarar toda essa prática fraudulenta. Foi somente no tempo de FRANZ MESMER [1734-1815] que foi feita uma pesquisa séria do hipnotismo e que seus princípios começaram a ser compreendidos. As declarações de MESMER de que o ser humano podia emanar um ‘magnetismo animal’ atraíram considerável atenção, especialmente à luz de muitas de suas espantosas demonstrações de natureza hipnótica. Cientistas da medicina deram início a estudos destinados a denunciar MESMER como uma fraude, bem como amainar o interesse e a pressão do público. Naquela época o hipnotismo, como um campo de fenômenos e estudo, estava na mesma posição, no tocante a pesquisa acadêmica, da telepatia hoje em dia. Muitos livros foram subseqüentemente escritos, contendo muitos casos típicos de experimentos com hipnotismo. Mas é de se admitir que ele ainda se encontra num estágio experimental no que tange a uma explicação cabal das causas do fenômeno.

A apresentação dos seguintes pontos altos é necessária a uma correta consideração do hipnotismo e de como ele se relaciona com outras práticas. A pessoa que nunca foi hipnotizada precisa primeiro ser levada a reagir ou responder a sugestões no estado de vigília. A pessoa que se ressente, ou que deliberadamente se opõe a sugestões diretas de uma outra pessoa, seria difícil de hipnotizar. Por exemplo, suponhamos que disséssemos a alguém:...”É melhor você beber um pouco de água; você deve estar com sede”. Se a pessoa reagisse ou respondesse positivamente a este estímulo auditivo [desde que estivesse com sede], iria beber água. Diríamos então que ela seria um tipo suscetível a sugestões diretas. Por outro lado, se a sugestão tivesse de ser muito sutil,por exemplo, “como está quente nesta sala!E como a gente fica seca nesta temperatura!”, diríamos então que a pessoa seria difícil de hipnotizar.


SUGESTÃO _ A sugestão é fator essencial no hipnotismo. Se uma pessoa se oferece como voluntária para ser hipnotizada, as experiências e os processos de ideação do passado determinam nesse momento se as sugestões vão ser aceitas. A sugestão tem de conter algo relacionado com elementos de experiências passadas. Obviamente, uma pessoa não pode aceitar alguma coisa que é incompreensível para ela. Suponhamos que sugeríssemos, em termos rigorosamente técnicos de Química, que o paciente produzisse um composto seguindo uma fórmula, embora ele não soubesse nada de Química. Por mais que ele desejasse ser hipnotizado, não poderia seguir essa sugestão.

A ideação exige que o tema seja de tal natureza que esteja contido no âmbito da capacidade intelectual do indivíduo. As idéias da sugestão precisam ter significados correspondentes para o paciente; devem sugerir alguma coisa a ele. Além disso, a ideação [opiniões ou conclusões bem implantadas na mente subjetiva do paciente] se oporá à sugestão do hipnotizador, se essa sugestão não estiver de acordo com ela. Por exemplo, mulheres em estado hipnótico não responderam positivamente em testes de sugestão de conduta imoral.

INDUZINDO O SONO HIPNÓTICO _ A estimulação visual é talvez um dos mais antigos métodos de induzir hipnose. O uso de um estímulo em movimento, para atrair e prender a atenção, é o principal meio de fazer uma sugestão em estado desperto para induzir o sono. Note-se que foi usada a expressão “sugestão em estado desperto”. A sugestão ao paciente enquanto ele ainda está desperto e normalmente consciente é uma parte tão essencial do processo quanto quaisquer sugestões depois que ele é hipnotizado. Esse estimulo móvel pode ser o lampejar de uma luz forte, ou a rotação de um vidro cortado de maneira que reflita luz nos olhos do paciente. A grande vantagem de um estímulo móvel é bem conhecida em publicidade. Isso é usado em várias mídias, como em letreiros elétricos com luzes que mudam e formas que se movem.

Ao contrário de um estímulo móvel, têm-se a fixação do olhar numa luz forte ou numa superfície altamente polida que reflete luz. Quando são usados tais estímulos, é recomendável que eles se originem num ponto ligeiramente acima do nível dos olhos do paciente; isso obriga os olhos a se voltarem para cima. Esta posição dos olhos é uma posição natural durante o sono.

Um estímulo visual não é suficiente por si mesmo para induzir o sono. Uma ideação adequada deve acompanhá-lo. Os estímulos visuais precisam ser reforçados por idéias que sugiram sono. As palavras, “você está se sentindo sonolento;suas pálpebras estão ficando cansadas; será muito confortável fechar os olhos e mergulhar num sono profundo!”, são muito eficazes quando acompanham estímulos visuais. Em termos simples, os estímulos visuais devem ser acompanhados de estímulos auditivos.

O leigo em geral acha que sons monótonos serão suficientes para induzir o sono hipnóticos. Estímulos auditivos como o tic-tac de um relógio, ou de água pingando, ou uma batida rítmica com uma vara, são também ineficazes a menos que sejam acompanhados de ideação. Se for dito ao paciente voluntário que estiver escutando esse som monótono, “este som vai fazer você se sentir muito cansado;você vai pouco a pouco fechar os olhos e adormecer”, então o estimulo auditivo dos sons monótonos poderá, por sugestão, induzir o sono hipnótico.

Há um terceiro topo de estímulo que pode ajudar a induzir o sono hipnótico: sensações táteis. Bater na testa leve e regularmente, ou nas pálpebras fechadas, induz relaxação. Com o apoio de estimulação auditiva, da sugestão de que o paciente está descansando confortavelmente, de que ele vai dormir, e assim por diante, isso provocará um estado de sono hipnótico.

A mente responde muito facilmente a sugestões que estão em consonância com suas experiências e sua ideação do passado. Tais sugestões são aceitas como reais. Numerosos testes psicológicos foram feitos para demonstrar a resposta visual e auditiva de adultos e crianças e sugestões totalmente ilusórias. Um brinquedo com uma manivela foi mostrado a um grande numero de crianças de escola. Foi sugerido que, girando-se a manivela, far-se-ia um animal de brinquedo se mover ligeiramente. Setenta e cinco por cento das crianças que fizeram o experimento pensaram que o animal de brinquedo se movia quando a manivela era girada – o que não era verdade!Analogamente, foi dito a um grupo de estudantes que vários aromas seriam borrifados numa sala com um ‘spray’. Mas cada vez, nada além de água pura foi realmente borrifado. No entanto, sessenta e cinco por cento sentiu vários odores, que, naturalmente, não existiam de fato.

SUSCETIBILIDADE AO HIPNOTISMO_ A suscetibilidade ao hipnotismo depende de três fatores importantes:

ð 1] a experiência passada;
ð 2]o hipnotizador;
ð 3]o método de indução hipnótica.

O paciente tem de submeter sua vontade. Ele precisa aceitar deliberadamente as sugestões do hipnotizador. Foi constatado que o excesso de ansiedade em se ajustar bloqueia freqüentemente o processo. Isso pode ser devido a imaginar a resposta que se seguirá, e essa ideação de fato interfere nas idéias que o hipnotizador tenta implantar na consciência do paciente.

As mudanças físicas que ocorrem durante o sono hipnótico são principalmente uma ligeira aceleração do pulso e um aumento da pressão sanguínea. Este último, porém, pode ser causado pela excitação,que causa uma considerável constrição dos vasos sanguíneos periféricos. A menos que as sugestões provoquem algum excepcional esforço físico e mental, os registros cardíacos não diferem dos registros do sono normal.

Tudo o que se realiza no sono hipnótico é uma substituição de um conjunto de estímulos por um outro. Usando sugestão, o hipnotizador substitui os estímulos visuais ou auditivos os estímulos que o paciente recebe normalmente de seus próprios sentidos objetivos, ou que resultam de seus próprios processos de raciocínio objetivo. Em lugar de o paciente reagir a sensações que tem, por exemplo, através dos olhos, ele responde às sugestões do hipnotizador, que podem estar relacionadas com ouvir ou sentir. Quando o paciente é receptivo à sugestão hipnótica, a vontade do hipnotizador suplanta a do paciente.

Houve época em que se acreditava que o sono hipnótico era uma espécie de anestesia. Agora sustenta-se em geral que, durante o sono hipnóticos, os nervos transmitem os mesmos impulsos que transmitem no estado de vigília. Mas o paciente suprimiu todas as percepções e todas as respostas a sensações, exceto a percepção suscitada pelas sugestões do hipnotizador.

Sonhos podem ser induzidos num estado hipnótico por uma leve estimulação sensória, do mesmo modo como são induzidos no sono normal. Ao voltar a si, o paciente pode muitas vezes se lembrar de um sonho que foi induzido pela estimulação feita durante o estado hipnótico.

Atos pós-hipnóticos consistem em sugestões ao paciente enquanto ele está em sono hipnótico, para serem realizados depois que ele volta a si. Pode-se dizer ao paciente ainda hipnotizado que a visão de certo objeto vai lhe provocar fortes náuseas. Quando o paciente volta à consciência normal, não se lembra da sugestão em si mesma. Mas, quando aquele objeto lhe é mostrado, o estímulo visual causa náuseas intensas.


PODE O HIPNOTISMO INDUZIR CONSCIÊNCIA CÓSMICA?_ Conforme dissemos, não se sabe completamente como ocorre o hipnotismo. Acredita-se que a hipótese é uma neurose artificialmente induzida, isto é, um colapso na sintetização da consciência. Normalmente, todos os aspectos da consciência de uma pessoa são sintetizados, relacionados entre si. Somos mais ou menos igualmente receptivos a estímulos visuais, auditivos, olfativos, e outros, que recebemos através dos sentidos objetivos. No estado hipnótico, só funcionam os aspectos da consciência que respondem aos sentidos físicos que estão sendo estimulados pelas sugestões do hipnotizador.

A Consciência Cósmica é uma reação ou resposta da consciência ao EU divino, àquele EU que está em harmonização com todo o Cósmico. É um estado em que a consciência transcende todas as impressões exceto as impressões mais sutis do Cósmico que vêm através dos sentidos superiores, tais como os centros psíquicos e o sistema nervoso simpático. A consecução deste estado requer muita prática.

O aspecto mais difícil da Consciência Cósmica é a eliminação da consciência do mundo exterior e da consciência do organismo físico [corpo]. O individuo precisa continuamente se determinar, sugerir fortemente a si mesmo a supressão das faculdades objetivas. Precisa resolutamente sintonizar sua consciência somente a impressões provindas das profundezas do seu próprio ser. Finalmente, a consciência se torna orientada de tal modo, a tal ponto introvertida, que responde por breves períodos aos impulsos interiores. Tais estados não podem ser sustentados por mais de alguns minutos, no máximo.

Poderia o hipnotismo ajudar a induzir a Consciência Cósmica, desde que o individuo desejasse ser hipnotizado? Dentro de certo conjunto de circunstâncias,provavelmente sim. Primeiro, seria necessário que a consciência do individuo, sua estrutura moral, estivesse em acordo com aquilo que estivesse sendo tentado. Já vimos que as experiências e a ideação do passado desempenham um papel importante na hipnose. Portanto, se o indivíduo não soubesse nada sobre a Consciência Cósmica[isto é, não tivesse nenhuma compreensão do que se quisesse dizer com essa expressão]; não tivesse nenhuma confiança ou crença nesses estados especiais; e não tivesse por sua experiência passada nenhuma tendência espiritual ou mística e de idealismo elevado, então nenhuma quantidade de sugestões hipnóticas poderia ajudá-lo.

Em outras palavras, se uma pessoa tivesse reverência pelo misticismo e sinceramente desejasse alcançar a Consciência Cósmica, pela beleza da experiência devido ao que isso significaria para ela, então não se colocaria contra ou faria oposição à sugestão do hipnotizador enquanto estivesse em estado hipnótico. Na verdade, obedeceria à sugestão. Psicologicamente, faria todo esforço para elevar sua consciência a um nível de harmonização com o Cósmico. Mas poderia falhar por certa deficiência em sua natureza interior. Por outro lado, porém, em igualdade de condições, o sono hipnótico a libertaria dos embaraços costumeiros que ela sentiria ao tentar objetivamente alcançar a Consciência Cósmica.

Há bastante duvida, na falta de real experimentação para provar o contrário, de que o paciente lembraria de qualquer uma de suas experiências extáticas. Quando afinal voltasse a si, talvez não retivesse a experiência da Consciência Cósmica que tivesse vivido. No caso desse paciente, um relato pós-hipnótico da experiência vivida durante o estado hipnótico seria um experimento interessante. Isso poderia ser feito sugerindo ao paciente em sono hipnótico que escrevesse os resultados de sua experiência posteriormente, no estado pós-hipnótico. A hora em que isso deveria ser feito teria de ser também sugerida ao paciente. Então ele seria acordado. Quando chegasse a hora determinada, o paciente, agora sob pós-hipnóse, entraria novamente em sono hipnótico. Durante esse breve intervalo, ele escreveria sobre suas experiências anteriores. Uma análise dessas experiências poderia determinar se ele teria vivido um verdadeiro estado de Consciência Cósmica.

Se a Consciência Cósmica pudesse ser alcançada dessa maneira, não seria muito benéfica, pois o individuo não seria capaz de induzir à vontade aquele estado, pelo controle do seu próprio ser físico. Ele não seria representativo de uma consecução pessoal. Além disso, é possível que, através de sugestão em sono hipnótico, o individuo simplesmente reagisse ou respondesse a idéias passadas, ao resultado de sua imaginação quanto ao que seria um estado de Consciência Cósmica.

Por exemplo, uma pessoa que nunca teve a experiência de se afogar vai simular um afogamento quando hipnotizada, respondendo à sugestão do hipnotizador no sentido de que ela está se afogando. Tal simulação é apenas aquilo que o paciente imaginou que fosse um afogamento. Conseqüentemente, a reação de um paciente a uma sugestão para alcançar a Consciência Cósmica, feita sob sono hipnótico, poderia analogamente ser um mero estado imaginativo.
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[Texto de R.M.Lewis]

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