domingo, 22 de novembro de 2009

EM BUSCA DA TOTALIDADE ORIGINAL_A FONTE DA VIDA


Durante toda a história da humanidade, ciência e religião vem tentando compreender – através de caminhos opostos – a origem da vida e do universo. Neste século, suas descobertas começam a convergir para o mesmo ponto: uma fonte primordial, que se acha além da dualidade mente-matéria.

Todos conhecem a diferença entre sossego e desassossego?[1] Sossegados, nos sentimos em casa, no próprio corpo, estamos integrados, unos e não-divididos pelo conflito interior. Desassossegados, ficamos tensos, retraídos, cheios de estados emocionais não-resolvidos, em luta contra nós mesmos e contra os outros, infelizes, neuróticos a ponto de gerar a doença física[2] em nós.

O corpo físico, além de sua linguagem genética e dos aportes do meio ambiente, é um repositório codificado para todas as emoções, pensamentos, sentimentos e valores que corporificamos. Visto que é difícil separar esses diferentes campos de influência na vida diária, o termo “mente-corpo”[3] tornou-se de uso comum. Ele expressa a unidade do pensamento, do sentimento e da ação. Em alemão, a palavra ‘leib’ tem este sentido, em contraste com o sentido puramente físico do termo ‘körper’. Em grego, a palavra “soma” significa algo mais próximo de “forma”. A sobreposição e a interconexão dos campos de formas do corpo constituem o nosso soma. No Novo Testamento, a palavra soma é utilizada por Paulo para incluir também o corpo não-físico, o corpo de luz ou “corpo de ressureição”.

Assim, o somo, no seu significado, parece próximo de alma; a palavra “alma” é as tradução do termo grego “psiché”. Os seres humanos ponderam por milênios a respeito da relação entre “corpo” e “mente”. Dos diversos pontos de vista propostos, o de uma “identidade psicossomática e antitética” [Reich] capta melhor a união entre a forma física e os campos da consciência que podemos reconhecer como diferentes níveis da “mente”. Experiências de morte clinica sublinharam o entendimento de que, sob certas circunstancias, esta união é dissolvida e que campos de consciência podem reter uma forma distinta quando o corpo morre. Poderia ser mais correto pensar que o corpo é um destilado ou uma concretização do nosso soma, nossa forma.

“Couraça” é o termo que Wilhelm Reich utilizava para descrever a crosta filosófica e psíquica de defesas que erigimos a partir de estados de desequilíbrio, perda de contato e infelicidade básica. A couraça implica a redução da pulsação e a compreensão ou afrouxamento excessivos dos tecidos, uma ausência de sincronia entre pensamento, disposição e atos. Muitas teorias foram postas em evidencia por Reich e por outros, como as origens do processo de encouraçamento humano, o aparente voltar-se do homem contra si mesmo, a cultura contra a natureza, a criação do deserto interior na vida emocional, que por sua vez cria o deserto exterior: o pesadelo ecológico com o qual assustamos o planeta.

O que é importante aqui não são as origens desse profundo processo de “seqüestro”, a construção de paredes rígidas para vedar a comunicação entre as partes do todo, mas a distinção clara entre duas esferas de experiência; a do soma sadio, ficando no processo natural, gracioso e em harmonia consigo e com os outros, e o corpo encouraçado, cindido de um sentido de conexão mais profundo, envolvido num manto de formações de defesas neuróticas e travado ou resignado em uma corrente de vida bloqueada ou apática.

A distinção básica foi descrita por Reich em termos de expressões ‘primárias e secundárias’. Primário quer dizer original, não-distorcido, claro, funcionando bem. Secundário quer dizer restrito, confinado, emparedado, confuso, perturbado e, com freqüência, destrutivo. Reich acrescentou uma terceira categoria, que chamou de terciária, para a tentativa de mascarar esta segunda camada perturbadora e patológica e apresentar uma falsa aparência.

Não importa, não se preocupe – Se a mente não pode ser reduzida ao cérebro, como argumentaram neurofisiologias proeminentes como Sir John Ecles, então vivemos num universo unidual. O cérebro e a mente podem ser acoplados[ unidade e identidade], mas também podem ser discriminados [dualidade e antítese]. Há muitas evidências que apontam para a conclusão de que, se o cérebro é uma parte da natureza altamente organizada que ocupa uma região discreta do espaço e do tempo, protegido por um capacete ósseo craniano, a mente não tem lugar, e opera além das quatro dimensões universais de espaço e de tempo. Esta evidencia surge de mais de um século de pesquisa parapsicológica e parafísica. Ela também é profundamente sustentada pela física quântica moderna, que descobre a mesma unidualidade operando nas raízes da natureza, na complementaridade da onda e da partícula.

A física quântica, provando os segredos mais interiores da matéria, embaraça-se diante do fato irredutível de que as propriedades da matéria estão ligados indissoluvelmente às propriedades da consciência. Este é o assim chamado problema do “observador” da interpretação do “quantum”, que permanece como uma questão não-resolvida depois de 60 anos de debates dos físicos a respeito de suas implicações sobre sua visão de realidade.

Foi um colega de Einstein, o físico inglês David Bohm, que propôs um modelo de duas ordens distintas da natureza, o qual nomeou de ordem explicada e implicada.[4] Ele propôs um espectro da densidade em que as formas materiais se desdobravam a partir de uma ordem implicada, na qual se encontrava a sua potencialidade. Isso significa que, em sua visão da natureza, a matéria, do modo como a podemos observar e medir, é a manifestação de algo mais sutil, que podemos intuir, postular ou mesmo criar matematicamente, mas que está além da esfera dos cinco sentidos típicos ou quaisquer instrumentos que possamos criar para ampliá-los ou refiná-los.

Bohm desenvolveu mais ainda suas idéias expressando a unidualidade da forma sutil e densa no termo “significância do soma”. O soma é configurado pelos significados que contatamos, pela intencionalidade, valores e qualidades do ser. Como resposta a isso, esses mesmos valores são ajudados ou impelidos, adiantados ou retardados pela nossa experiência de vida somática. Há um relacionamento e uma interação entre a realidade exterior das situações cotidianas da vida no nosso campo de ação, a jornada existencial num corpo especifico, num século especifico, numa cidade especifica, e a realidade interior do mito pessoal, a memória arquetípica, a visão, o sonho e o domínio da realidade mítica, transcendendo o espaço e o tempo.

Jung distingue essas duas dimensões como a dimensão do ego e a dimensão do self. Hameed Ali refere-se ao homem do mundo e o homem do espírito. Stuart White, num livro que impressionou Jung e que ele discutiu em suas cartas, descreve o relacionamento entre o universo “obstruído” da matéria densa, o mundo como o conhecemos, e o universo “não-obstruído”, que permanece latente além d tudo que se manifesta.

O biólogo Rupert Sheldrake recentemente excitou e enraiveceu a comunidade cientifica com sua hipótese de que o crescimento da forma é governado não somente pelos processos bioquímicos e físicos bem conhecidos, mas também por campos mórficos indeterminados, que transportaram uma energia indetectável, mas que comunicam um padrão, um projeto e uma informação. Se esta hipótese mórfica for correta, ela sustenta a visão de muitas religiões mundiais de que os níveis sutis do ser organizam o denso, simplesmente como a onda contém a potencialidade da partícula. O psicofísico brasileiro Hernani Andrade propôs, alguns anos antes de Sheldrake, um modelo similar que chamou de “modelo organizador biológico”, um campo sutil de informação organizando e dirigindo a formação do corpo físico, que a genética sozinha não conseguiu explicar adequadamente.

A matriz da essência e da totalidade – Nas seções precedentes, vimos duas polaridades distintas e diferentes, a polaridade entre as expressões da vida primária e secundária e a polaridade entre ordens sutis e densas da natureza. Criaram-se muitas confusões pelo fracasso em reconhecer a diferença entre essa polaridades muito contrastantes. Tais confusões são de grande importância em todas as formas de trabalho bioespiritual com as pessoas, porque muitas delas interpretam a espiritualidade como uma maneira de sair ou ir além do corpo, e muitas religiões, do modo como vieram a ser interpretadas, ensinaram que o mundo é a armadilha.

Podemos ajudar a desemaranhar estas confusões criando uma matriz simples, com dois eixos de ângulo reto. O eixo vertical representa o espectro da densidade e o eixo horizontal a polaridade entre a totalidade e fragmentação.

Ordens sutis da natureza
/\



\/

Ordens densas da natureza


Totalidade Primária <===> Fragmentação secundária

Como se pode ver, há muitas metáforas para as seções superior e inferior do eixo vertical. Eis alguns exemplos:

Sutil
Denso
Física Quântica, Bohm, Budismo
Não obstruído
Obstruído
Stuart While, citado por Jung
Implicado
Explicado
Física Quântica, Bohm
Mórfico
Energético
Biologia Formativa de Rupert Sheldrake
Causalidade
Causalidade
Donald Campbell
Descendente
Ascendente
Solo Interior
Solo Exterior
Biossíntese
Céu
Terra
Acumpuntura Chinesa
Essência
Existência
Filosofia
Imaginário
Real
Relatividade Complexa, Jean Charon
Celestial
Terrestre
Sufismo, Henry Corbin
Purusha
Prakiti
Filosofia indiana
Consciência
Espaço-Tempo
Física neognóstica
Não Local
Local
Teorema de Bell
Outro Lado
Este lado
Longchenpa

A segunda polaridade pode, igualmente, ser representada por uma série de pares opostos:

ð Primária e secundária = [Reich, Longchenpa]
ð Essência e ego = [Sufismo:Hameed Ali; Cristianismo neognóstico]
ð Desenvolvimento e envoltório =[Biossintese]
ð Núcleo e Caráter = [Energética Nuclear]
ð Soma e Couraça
ð Vertical e Horizontal = [Psicologia neognóstica:Gary Zukav]
ð Corrente da vida e Armadilha = [Whilhelm Reich]
ð Campina e Palco = [Whilhelm Reich:Superposição Cósmica]
ð Totalidade e Fragmentação = [Holonomia:David Bohm]
ð Céu na Terra;Inferno na terra = [Cristianismo]~
ð Oceano Deserto = [Ecologia planetária, Wilhelm Reich]
ð Ordem Desordem = [ Teleonomia, Termodinâmica]
ð Não-Entrópico Entrópico = [ Herbert Guenther]


CRIAÇÃO DA ALMA E REPRESENTAÇÃO DE PAPÉIS: Quando eu tinha 17 anos, ficava muito impressionado com a poesia e a filosofia do poeta inglês John Keats. Ela teve forte influencia formativa sobre mim num estágio crucial da adolescência, antes do meu contato com o processo terapêutico ou com o trabalho de Wilhelm Reich.

Keats descreve o mundo como o “vale de criação da alma”. Ele define alma como o centro de profundidade da pessoa, que formamos entre o nascimento e a morte.

James Hillman, ao desenvolver a psicologia arquetípica como um desdobramento das bases criadas por Jung, também assume John Keats como um dos seus pontos de partida para o uso que faz da palavra “alma”.

Cada termo que se usa para descrever os campos mental, emocional e transmental do ser humano está aberto a uma tremenda confusão, porque a mesma palavra pode ser usada emn tradições diferentes para indicar experiências opostas podem ser usadas por diferentes escritores para transmitir o mesmo significado.

Estarei usando a palavra no sentido que lhe atribuiu John Keats, a formação de um centro pessoal profundamente significativo ao longo da nossa jornada de vida. Nesse sentiedo, a alma não pode ser separada da nossa realidade somática durante a comporificação e está próxima ao significado do termo “pessoalidade”, nos escritos, por exemplo, dos filósofos existenciais como Mounier, Tilich, Tourmier e outros. Mas o termo “pessoa” também está aberto a muita confusão.

Pessoa origina-se do latim “personares”, soar através de. Nesse sentido, quando falamos plenamente a partir da profundidade de nossa experiência, voz dos nossos sentimentos interiores vinda do coração na comunicação com o outro, temos “alma”, estamos presentes com a nossa totalidade. Hameed Ali fala de “essência pessoal” para se referir a essa corporificação do nosso ser no mundo. “A alma”, escreveu Atistóteles, “é o atoprimário de um corpo físico capaz de vida”.

Mas a mesma palavra, personalidade, foi associada à palavra grega “máscara, persona,” que escondia o rosto do narrador e atavés da qual ele falava no papel que representava na tragédia. “Persona”, em Jung, é utilizada para denotar a máscara que esconde a verdadeira pessoa. Personalidade, no trabalho de Gurdjieff, é usada como sinônimo para os padrões falsos de comportamento que são desenvolvidos como contatos substitutos, de modo que é quase o mesmo empregado por Reich para a palavra “caráter” [ do grego “charaktér”:colocar num molde, estereotipar, significando nosso conjunto cristalizado de padrões de defesas, a nossa couraça psíquica].

Pessoa e personalidade, definidas desta forma, são dois pólos no espectro da totalidade, já que a pessoa é um centro organizador para a totalidade, a alma do sistema, a individualidade básica, que não pode ser dividida; e personalidade fragmenta-se muito facilmente em subpersonalidades, que são como pápeis que podemos representar para obscurecer a nossa verdadeira natureza.

A vida como vale de feitura da alma é vida como jornada do desenvolvimento pessoal, na qual os nossos potenciais podem ser cada vez mais postos em prática e compreendidos, a despeito e, às vezes, por causa das forças que atuam na direçãoo do bloqueio, do distresse e da fragmentação.

O outro termo que cria uma grande confusão no tranalho psicoespiritual é o Ego.

EU, EGO E NARCISO – Bruno Bettelheim mostrou que a palavra “ego” foi introduzida na literatura psicodinâmica como uma tradução da palavra alemã “ich”, significando EU; no lugar de uma simples palavra humana usada por Freud, que todo mundo reconhece instantaneamente, e com a qual se pode identificar, temos “ego”, um aparato psíquico com alguma pretensão à objetividade.

A psicologia do ego dedica-se a fortalecer o ego, o que quer dizer sustentar o desenvolvimento de um “eu” pessoal baseado em relacionamentos seguros, porque, sem o contato entre o eu e o tu, o eu não pode se desenvolver de modo maduro. Egos frágeis e fortes são pessoas com um sentido frágil ou fortemente desenvolvido da sua individualidade e unidade de organização. Isso significa que uma pessoa com um bom desenvolvimento do ego tem um forte sentido de eu pessoal, um eu empírico que conhece os seus próprios limites e pode operar corretamente no mundo real e no mundo do relacionamentos.

No processo de desenvolvimento do sentido de eu, há um processo que Freud chamou de “narcismo sadio”, que é o orgulho das próprias realizações da aparência e da existência e que está ligado ao prazer de estar vivo. Ele se relaciona a todas as formas de cuidado e alimentação de si mesmo. No cristianismo, somos solicitados a “amar o próximo como a si mesmo”; no budismo, a pratica da compaixão comela pela compaixão de si mesmo.

O narcisismo secundário é um processo neurótico de cisão da conexão de uma pessoa em relação a outra, ou de seres humanos em relação ao seu meio ambiente. Envolve todas as formas de conquista do homem sobre a natureza, abastece muitos dos conflitos humanos, alimenta o nacionalismo, o fanatismo, a guerr e a megalomania.

A tradição espiritual busca reduzir o domínio do ego, esperando livrar-nos da armadilha do egotismo, do qual a couraçã caracterológica não é senão expressão.

Alguns dos melhores exemplos do narcisismo patológico são encontrados nos movimentos espirituais, conduzidos, com freqüência, por um líder carismático e narcisista, nos quais podem ser criadas hierarquias dos mais desenvolvidos.

Se usarmos o termo “eu” para nos referirmos às formas sadias da auto-expressão e o termo ego para nos referirmos ao narcisismo patológico da ação que envolve a desvalorização progressiva dos outros, então poderemos ver que a essência e ego formam uma polaridade na matriz fornecida anteriormente. A essência corresponde ao estado destituído de falhas descrito por Longchenpa, que inclui um desenvolvimento sadio do eu pessoal; e o “ego” corrresponde ao estado falho, em que o nosso contato é reduzido, restrito e conduz a graus crescentes de isolamento, alienação, ou substitui os contatos disfarçando-os como se fossem comunicação real. Tornamo-nos envoltos no ego como uma mortalha. Ele forma o que Longchenpa competentemente chama de “fortaleza do ser fictício.”

SELF E SOMBRA _ Muitas religiões, tais como o hinduismo e o cristianismo, ensinam a imortalidade do espírito. O que significa ser imortal? A mortalidade é a morte do corpo, a queda da ordem explicada da natureza, o fim da existência empírica de um contexto especifico de espaço e tempo. Imortalidade significa além da destruição. O que não é destruído quando o nível denso do ser se extingue é o nível sutil do qual ele é uma expressão. A ordem implicada continua.

Reservamos a palavra alma para a expressão e a manifestação da nossa profundidade o contexto de uma vida especifica.

Como podemos nomear essa profundidade em si, que é indestrutível? O cristianismo usa a palavra “espírito”, que significa “respiração”, o elemento de ar invisível. O hinduismo usa o termo “atman”, que também signfica respiração, mas passou a significar “self”. Patanjali usa o termo “o vidente”, aquele que está consciente não apenas do mundo, mas dos conteúdos na mente, a testemunha que vê a partir de uma perspectiva iluminada. Adotando o ‘S” maiúsculo, ulizarei o termo “Self” para indicar a nossa essência fundamental, o EU maior que transcende a nossa individualidade pessoal.

O budismo ensinou a doutrina do “anatta”, não self. Mas quem é o self que não é, que morre, que é perecível? E se há um Self que continua, ele é “meu”? Posso reinvindicar a posse desse Self, como possuo meu carro, ou até mesmo meu corpo, ou é este “eu” que não é apenas meu “eu” que me separa de você, mas que também é este “eu”que existe quando estamos numa relação tão profunda que partilhamos um “eu”comum.

Este Self que sou, que é a minha essência, que é a semente, a flor e o fruto das minhas qualidades, é também o Self que você tem, que é a semente, a flor e o fruto de suas qualidades. A combinação de qualidades podem nos distinguir, mas as qualidades em si nos unirão. R.D. Laing escreveu um poema na sua coleção Knots que contém os seguintes dizeres:

O que é meu não sou eu
O que sou eu não é meu
O que não sou eu é meu
O que não é meu sou eu
.

As epígrafes de Laing são “koans” ocidentais confrontando o intelecto com a impossibilidade de compreendê-los racionalmente quando são alcançados certos níveis de profundidade no entendimento do mistério da realidade. A física quântica atinge um koan similar como estado quando tenta apreender o envolvimento entre observador e realidade. O conceito zen de não-mente não é do vazio, mas da plenitude a mais rica possível da presença. Talvez, no sentido de descobrir nossa identidade mais profunda, precisemos perder as nossas identidades costumeiras, um paradoxo comparável à mensagem de Jesus aos seus discípulos: para salvar a sua vida, é preciso perdê-la.

O que é excluído da luz se mantém na sombra. A sombra é o duplo negro que esquece a luz. A sombra cria a ilusão de que não há Self, há apenas ego. Nascemos da escuridão, morremos na escuridão, há apenas a passagem do vácuo para o vácuo. Essa sombra, como reconheceu Jung, não irá embora. Não podemos ignorá-la, esquecê-la ou negá-la. A luz sem sombra é uma luz artificial. O que cria a sombra é o bloqueio da luz. Tudo que ficar entre a nossa essência e a sua expressão na vida diária é a sombra. Vivemos muito de nossas vidas em eclipse. Mas a sombra precisa ser vista, ela tem fome de luz. Quando o que há na sombra é iluminado, ocorre uma sutil alquimia, o medo pode ser transmutado em excitação; a raiva furiosa, em trabalho criativo; a noite negra do desespero, no perfume sutil da esperança.

A FONTE E A CISÃO _ Durante toda a história da humanidade, o homem lutou para compreender suas origens, quer entrando em si como o fazem a religião e a meditação, quer olhando para fora, como faz a ciência. Essas vias opostas estão convergindo neste século. A conclusão dos mestres indianos no tempo dos “Upanishads” era que “Atman é Brahman”, o Self é Deus, o Vidente no Criador. E de Brahman, os Upanishads dizem:”No mundo interior, Brahman é consciência, no mundo exterior, Brahman é espaço.”

Essa é a imagem de uma fonte fundamental além da dualidade da mente e da matéria, uma origem a partir da qual as duas foram geradas. Como a ciência provou com os telescópios, como os microscópios elétricos e nos mistérios do subatômico e ultragaláctico, dos “ quarks aos quasares”, vários cientistas desenvolveram, independentemente, perspectivas surpreendentemente similares.

Essa fonte, embora a imaginemos ou intuímos nós dá um sentido do que é totalidade. O ápice do eixo vertical na matriz da essência nos fornece uma imagem para o ponto de origem do eixo horizontal. A totalidade se encontra nas raízes da estrutura subatômica da matéria. Cindimos essa totalidade para nosso risco, e criamos uma Hiroshima ou uma Chernobyl. Essa totalidade é encontrada no equilíbrio possível entre mente e matéria, cultura e natureza, um ser humano e outro.

O oposto à fonte é a cisão, a ruptura no ovo cósmico, a ilusão da desconexão, já que na realidade até mesmo os desconectados ainda são parte do todo. Implica esquecer a nossa fonte, a perda de contato com a totalidade. No budismo, é descrito como uma perda do Ser; no sufismo, como uma perda da Essência; no cristianismo como a Queda da graça. Mas Ser não pode se perder, apenas o nosso contato com ele. A Essência não pode ser perdida. Ela é indestrutível.

A graça é uma qualidade com a qual podemos perder ou manter contato – pode não depender das condições externas. Nelson Mandela emergiu, após 27 anos de um aprisionamento brutal, sem amargura no coração. Uma garota morrendo num campo de concentração escreveu: “Cada dia eu olho para a árvore lá fora e sinto fé na vida.”

INSPIRAÇÃO E EXPIRAÇÃO _ O nascimento termina com a primeira inspiração, a morte começa com a ultima expiração. A vida é um equilíbrio entre o anabolismo e o catabolismo, assimilando a alimentação e desmontando a recusa. Esta imagem de alimentação e excreção é verdadeira além do físico. Precisamos metabolizar nossas experiências para digeri-las, e beber o suco a partir delas, enquanto eliminamos os resíduos emocionais e psíquicos que não são mais úteis.

A terapia é, com freqüência, uma trilha para renunciar a velhos padrões, soltar as tensões, expressar sentimentos enterrados, soltar falsas identificações. A cura pode ser vista como entrar em contato com fontes de alimentação fisicamente, emocionalmente, mentalmente e espiritualmente. Retirar os velhos detritos é de utilidade limitada, a menos que possamos abrir canais para trazer o ar fresco, a inspiração, a nova esperança, mais luz. A terapia e a cura são o catabolismo e o anabolismo da mudança pessoal; eles precisam um do outro, como a expiração e a inspiração.

Esta é a sua polaridade, a sua dualidade. Desenvolva apenas um pólo e haverá problemas. O trabalho espiritual que busca desenvolver os centros superiores da consciência enquanto ignora ou reprime os inferiores torna-se uma pirâmide instável que fracassa num monte de areia. O trabalho terapêutico que se concentra em quebrar as defesas e abrir apenas para a dor do passado pode acabar nos deixando como andarilhos feridos.

Um verdadeiro caminho é aquele que nos ajuda a trazer a nossa luz na Terra, a experienciar a luz da terra, a espiritualidade do corpo e a corporificação do espírito. Então, a nossa passagem pelo vale de criação da alma se dará com os pés no chão. O soma que desenvolvemos ao longo do caminho se lembrará da fonte de si mesmo, e as ações no mundo serão moldadas cada vez mais pelo coração.

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Notas

[1]No original, ease and dis-ease,um jogo de palavras de difícil correspondência em português. A contraposição sossego/desassossego, que define parte dos significados que estas palavras podem ter, parece ser a que melhor se adequa ao sentido que Boadella quer lhe dar. [N.doT]

[2]O significado primeiro da palavra disease é doença. [N.do T]

[3] No original, connectedness [N. do T]

[4] Também conhecido como ordem explicita ou implícita. [N. da R]

[5] O presente texto é um excerto do capítulo “Soma, Self e Fonte”, de David Boadella, extraído do Livro Energia e Caráter [Summus Editorial], organizado por Rubens Kignel. Tradução: Maya Hantower.

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