sábado, 17 de outubro de 2009

QUE É BUDISMO?


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O que conhecemos no Ocidente como budismo não é uma filosofia nem uma teologia. Da raiz sânscrita BUDH, budismo significa “despertar” ou “estar desperto”. Como a iluminação constitui a base do budismo, este oferece realmente uma SOTERIOLOGIA, ou um método para se alcançar essa iluminação. Na realidade ele oferece muitas soteriologias. Esses enfoques metodológicos para despertar a iluminação latente são o que estudiosos ocidentais confundiram com tendências sectárias no pensamento e nas práticas budistas.

O budismo poderia ser traduzido como “despertar-ismo”. O começo do budismo assenta na experiência de iluminação mística para a própria vida que teve SIDDGARTHA GAUTAMA [ c.500 A.C]. O titulo de “BUDA” ou “DESPERTO” lhe foi atribuído pó contemporâneos, e a Historia se refere a ele como “O BUDA”.

Houve época em que era comum acreditar-se que o budismo fora um desenvolvimento do que era erroneamente chamado de hinduismo. A filosofia indiana tradicional;[darsana, lit. “pontos de vista”] considera tanto o budismo como o janaismo doutrinas não ortodoxas. E “ não ortodoxas” significa que os conceitos dessas duas tradições divergem das tradições dominantes na Índia.

Há alguma evidencia de que tanto o budismo como o janaismo tem raízes na civilização do Vale do Indo, na cultura agrícola. Acredita-se, principalmente em função de evidencias encontradas em inscrições em selos, que a pratica da meditação e a crença na reencarnação tiveram origem nessa cultura do VALE DO INDO. O BUDA e MAHAVIRA [ fundador do Janaismo] eram primos distantes, mais ou menos contemporâneos, e tinham algumas crenças em comum. A mais interessante das opiniões que eles compartilhavam é a de que eles eram sucessores de uma tradição mais antiga que havia produzido antigos Iluminados.

Na época do BUDA, a maior parte das praticas espirituais na Índia era voltada para se conseguir, ou um nascimento melhor na vida seguinte, ou a libertação do ciclo de nascimentos e mortes. Assim a idéia de reencarnação é fundamental na espiritualidade indiana é a força mtivadora da busca de libertação das vicissitudes da vida.

A iluminação do Buda foi tal que ele transcendeu os limites da cultura indiana. É nuclear no pensamento budista sua insistência em que ele oferece o despertar para verdades universais; além disso, seus métodos são concebidos de modo a guiar a pessoa para despertar por si mesma. Em principio, o despertar para a verdade da vida é potencial em todo mundo a qualquer momento e não depende do budismo. Este, portanto, é um meio de despertar. Foi por isso que o budismo se difundiu rapidamente por toda a Ásia, ao passo que outras religiões dependiam da cultura indiana [e, tipicamente, só se difundiram em função da militância geopolítica].

O despertar do BUDA tirou a ênfase da forma de escapismo e busca de si mesmo envolvida no esforço de sair do mundo de sofrimento e pesar. Grande parte da motivação religiosa pode ser analisada como mera aversão a experiências desagradáveis. A iluminação do Buda penetrou na origem do sofrimento pessoal, abrindo caminho à realização individual. O sofrimento humano nasce da interação de ódio, cobiça e ilusão, tudo isso enraizado na ilusão do ego [karma-ahmkara,lit.”produção do ego”]. Mas se o BUDA tivesse parado nesse ponto, teria sido apenas mais um defensor do pensamento positivo ou da higiene mental.

Por trás da máscara ilusória da personalidade oculta-se o fato do mistério de nosso ser, da força vital que nos dá vida. Assim sendo, em lugar de tentarmos escapar ao nosso ser, o BUDA defendia a descoberta da miraculosa maravilha de nós mesmos – despersonalizada e misteriosa.

A tradição budista/”despertalista”, desde mais ou menos o começo da era cristã, tem se concentrado numa questão:
=> como alcançar um despertar irreversível ou não-retrogradável. As experiências místicas não garantem uma transformação das respostas habituais, mentais e emocionais, à vida; a maioria delas tem efeitos que decrescem com o tempo. Os budistas MAHAYANA procuravam compreender como evoluir para versões mais plenas, mais completas, de suas potencialidades.
Em suma, buscavam dominar o estado desperto, visto que podemos comparar a experiência mística normal com um breve e fugaz momento de despertar, seguido novamente de um aprofundamento no estado de sono. A questão universal era “como despertar e ficar desperto”, ou “como não cair no esquecimento dos despertares que tivemos em vários momentos”.

O budismo é transmitido de instrutor para estudantes. No sentido mais profundo, nossa vida comum é o nosso instrutor. Neste particular, um outro aspecto em que o budismo não é uma doutrina indiana ou hindu é que ele não tem gurus. A veneração de um Guru ou Mestre é entendida como espiritualidade prejudicial e debilitante; e está mais bem resumida na máxima:
=> “se eu me tornar uma muleta para você, então você será um aleijado”.
A história das religiões está cheia de déspotas, ditatoriais, autoritários, que dirigem a vida dos outros. A transferência da síndrome da aprovação paternalista ao Maximo não garante nenhum real progresso em questões espirituais; mas o pior é que ela pode mascarar um verdadeiro comportamento regressivo.

Em japonês, o titulo SANSEI é usado para instrutores. Significando literalmente “que nasceu antes”, ele expressa a transmissão da sabedoria numa liberação viva, na aplicação de princípios iluminados à vida diária, de modo que esses princípios se tornem verdades vivas para o estudante. Como um exercício, a pratica espiritual só produz indivíduos sadios e ajustados quando é seguido de um programa regular e equilibrado.

O budismo, então, é um meio ou método para se alcançar iluminação. Seu despertar liberta o individuo das armadilhas de preocupações triviais, desabrochando-o para mais plena compreensão e apreciação da vida e envolvimento da mesma. A encruzilhada evolutiva que a humanidade enfrenta hoje em dia só pode ser resolvida com êxito se abordarmos os mistérios do nosso ser, reconhecendo as potencialidades evolutivas de cada pessoa. Se o budismo pode ser uma fonte de sabedoria viável e valiosa atualmente, isto se dá somente com relação ao despertar para os mais nobres ideais no seio de toda a humanidade.
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[Texto de Kenneth C.O’Neill_ Formado em Budismo pelo Instituto de Estudos Budistas de Bekerley, Califórnia. Recebeu ordenação e transmissão do Dharma do Templo Nishi Hongam, Kyoto, Japão]




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