quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Palavras de Sabedoria Silenciosa

“Assim será a minha palavra,que sair da minha boca; não tornará para mim vazia, mas fará tudo que eu quero e produzirá os efeitos para os quais enviei”. [Isaias,55:11]

Hoje, quando observamos o mundo que nos cerca e nosso lugar dentro dele, vemos que a linguagem é mal empregada, de uma forma alarmante, e que com isso perdeu sua realidade espiritual. Sem sombra de duvida, vivemos numa sociedade muito verbal, mergulhada no ruído ou numa prisão excessivamente verbal, que parece não ter saída. Aspiramos ao encontro de um lugar inteiramente tranqüilo para restaurar o EU e o bom senso coletivo.

Logo além da fronteira do ruído, é possível encontrar esse lugar sereno onde podemos, com toda a calma, vivenciar o centro do silencio a partir do qual nascem o som e a palavra.

O Gênero humano inventou a palavra por medo do silencio. Quanto mais abusamos das palavras, mais nos distanciamos da verdadeira natureza de nosso ser. As palavras se tornam um meio de evasão “racional” da verdadeira realidade do EU.

Agora, na encruzilhada crucial de mudanças rápidas e de ruídos interferindo em todos os aspectos da vida, procuramos um mapa de retorno que conduza a uma vida saudável, à harmonia e à verdadeira criatividade; o retorno ao caminho original do equilíbrio na natureza e em nós mesmos. Para que esse mapa seja desenhado,devemos reavaliar a forma pela qual usamos as palavras, o som e a cor nesta civilização. Então descobriremos a maneira de alcançar o equilíbrio e trabalhar pela reconciliação de todos os “ opostos “.

“Enquanto não tivermos aprendido a usar as palavras de vida, continuaremos a ser discos de cera, reproduzindo palavras numa viola”. Esta observação de Walter de La Mare mostra claramente a importância do uso conveniente da palavra, para que possamos exterminar a tendência a falar como papagaios e a pronunciar palavras sem nenhuma vida ou poder.

O propósito das palavras é expressar o pensamento. Elas são como um envoltório, a manifestação visível do pensamento invisível que nos ajuda a estabelecer a ordem na comunicação com o outro, com a natureza e com o EU interior mais elevado. Ibn Ezrah [1092-1167] dizia:”Um palavra sem o pensamento é como um pé sem músculos”.

O AMBIENTE VERBAL
A humanidade é bombardeada de forma crescente por um imenso dilúvio de palavras vindas de todas as direções. Os meios de comunicação, tanto impressos quanto eletrônicos, são um exemplo disso. Mesmo nesta época moderna dos computadores, as palavras continuam a ser o veiculo de comunicação e conhecimento, e devem ser empregadas convenientemente para que a harmonia seja mantida.

Um individuo deve escolher cuidadosamente o tipo de palavras de que faz uso - e, quanto menos as usar, melhor! As palavras são a forma exterior da realidade interior, em sua maioria são como as roupas com relação ao corpo. Graças à inspiração e a intuição, o individuo pode expressar pensamentos só com palavras essenciais, e assim manter a comunicação clara, simples e precisa.

Assim falou o sábio cabalista:”Falar pouco e fazer muito!” {Adágio dos Pais,1:15].

Somos o que pensamos. Somos o que dizemos. Não deveríamos poluir o ar com conversas inúteis porque, com nossas palavras, invocamos a presença interior e a qualidade dos pensamentos traduzido em palavras torna-se a expressão da verdade interna, a realidade do porvir.

Uma consciência acrescida do poder do silencio entre as palavras é essencial. O uso atento da palavra nos auxilia a sermos produtivos e, ao conservar a energia da palavra pelo silencio, aumentamos nossa potencialidade de viver harmoniosamente e de usar esse poder para o nosso próprio bem e o de toda a humanidade.

Um acontecimento de minha infância que ilustra a necessidade da conservação da energia das palavras torna-se oportuno neste ponto.

O modo com que meu avô ensinou-me essa valiosa lição manteve-se importante por toda a minha vida.”Antes que um individuo nasça”, disse ele, “recebe uma certa quantidade de palavras para usar na vida - como uma espécie de banco cósmico de palavras, tendo cada uma delas o seu valor. Você deve prestar muita atenção e empregar correta e comedidamente as palavras, e estar bem atento à forma pela qual as empregará para se expressar. Cada palavra que você diz é tirada de sua conta cósmica. Por isso sua língua deverá dar sete voltas em sua boca antes que uma só palavra seja emitida. Se assim não fizer, poderá zerar sua conta cedo na vida e ficar mudo”.

Essa declaração impressionou muito o meu jovem ser;ficou gravada em minha consciência como um poder positivo. Ela deve ter-me afetado a tal ponto que inconscientemente escolhi o trabalho artístico de minha vida no Teatro do Silencio. Esse conhecimento comunicado por meu avô é muito antigo e pode ser encontrado em numerosas religiões e filosofias.

PENSAMENTOS PARA A CONTEMPLAÇÃO
Ofereço a seguir alguns pensamentos para contemplação, tirados de tradições cabalísticas e sufis.

Há um provérbio que diz que cada palavra deveria passar por três portas antes de ser emitida. Na primeira porta o guardião pergunta: “Ela é verdadeira?” Na segunda ele pergunta:”Ela é necessária?” E na terceira:”Ela é boa?”.

Ø Uma palavra é como uma flecha:voa muito velozmente.”
Ø “Uma palavra pode dar inicio a uma guerra; uma palavra pode fazer a paz”.
Ø As palavras são como os remédios;deviam ser dosadas com cuidado, pois uma superdose pode ser nociva.”
Ø O sábio economiza suas palavras;os todos amam tagarelar.”

O grande poeta e filosofo Ibn Gabirol[Século XI] nos lembra: “Guardai vossa língua com o mesmo cuidado com que conservais vossas riquezas”. E em Provérbios, 18:21, aprendemos que “a morte e a vida estão em poder da língua...”

QUE É UMA PALAVRA?
Examinemos e observemos agora o que é uma palavra. Na língua hebraica, DAVAR significa “palavra“. De acordo com a Tradição, a Palavra é: um agente dos domínios da Essência, um mecanismo de comunicação com o potencial criador. A palavra simboliza a força criadora da consciência, uma idéia criadora que traz ordem e forma à matéria, uma ponte entre o céu e a terra. A Palavra é mediadora criativa ente Deus e a humanidade;entre os homens; entre o homem e a mulher; entre o Mestre Interior e a personalidade-alma;entre o espírito e a matéria.

DAVAR é formada por três letras, Daleth, Beth e Resh. Cada letra contem um certo poder espiritual e cósmico de grande importância. Empregando-se o código cabalístico das letras, DAVAR significa o seguinte: “O equilíbrio e a harmonia do universo estão contidos no recipiente cósmico, e são vertidos no recipiente formado pelo veiculo humano, o corpo da criação, e no som e nas emissões das forças criadoras. Uma vez no recipiente humano, existe a escolha entre o uso e o abuso, e a lei opera em conseqüência”.

Um outro termo hebraico para “palavra” é AMOR que se soletra Aleph, Mem e Reph, no plural AMARIM. A interpretação cabalística dessa palvra é:”O Poder da vida e da morte, o sem nome, sem tempo e sem espaço, fortifica, infunde e preenche esse recipiente com águas cósmicas de vida pelo som, e inteligentemente modela os pensamentos através do envoltório do organismo humano”.

Um terceiro termo para “palavra”, em aramaico, é MEMRA que se soletra Mem, Yod, Resh, Aleph. Essa palavra é formada pela mesma raiz verbal da palavra AMOR, mas tem a letra dupla Mem. Isso duplica o elemento das águas de vida e o acentua. Uma vez que a letra MEM é o som básico de toda a humanidade, este detalhe é muito importante.

MEMRA implica também a palavra divina que se manifesta em hebraico na palavra HOKHMAH que é SABEDORIA DIVINA que guia a boca e o coração para que emitam a verdade do ser. HOKHMAH é o lado esquerdo do triangulo superior na sagrada arvore da vida da cabala, a força feminina criadora do universo.

MEMRA significa “emissão” e implica a manifestação do poder de Deus, criando o mundo pela “emissão”do som. Essa palavra age como um mensageiro e é análoga à SANTA SHEKINAH, a Presença e Sabedoria Divina em toda a criação.

“As palavras são como o corpo;seus significados são como as almas” – assim se expressa a sabedoria de Ibn Ezrah.

PALAVRAS DA SABEDORIA INSPIRADA
“O ensinamento sem palavras e o trabalho sem ação só são compreendido por muito poucos.” {Lao Tse]

“Se eu não emitir uma palavra, sou seu mestre. Uma vez que a tenha pronunciado, sou seu escravo.” {Ibn Gabirol]

As palavras são movimentos manifestados da boca e da língua que ativam todo o organismo. O individuo pode ser guiado pela sabedoria interior; o murmúrio silencioso da alma, a Consciência do Cósmico dirigida pelo Mestre Interior. Nessa atitude consciente que fala e emite palavras encontra-se o caminho da Luz e do Amor no interior de cada ser e de todos os seres humanos vivos.

Como viajantes de passagem pelo plano físico da vida, devemos estar verdadeiramente conscientes do bom uso das palavras como meio de nos comunicarmos uns com os outros, com o EU e esse plano mais elevado, e com o domínio invisível da realidade e o espaço visível da existência.

Palavras antes da compreensão são vazias. Palavras após a compreensão são poderosas; poderosas e apaziguadoras.

Dizem os Provérbios 16:24:”As palavras elegantes são como um favo de mel – doces para a alma e saudáveis para o corpo”.

Para concluir, gostaria de lhes transmitir algumas palavras de Lao Tse que poderão parecer contraditórias para alguns, mas, pela observação e reflexão, vê-se que elas penetram na verdadeira essência da compreensão.

“Palavras verídicas não são magníficas
Belas palavras não são verídicas
Os homens bons não discutem
Os que discutem não são bons
Os que sabem não são sábios
Os sábios não sabem.” [Lao Tse]

“Palavras!O caminho está além da linguagem
Pois não nele não há
Nem ontem
Nem amanhã
Nem hoje.” [ Hsin Hsin Ming – O terceiro Patriarca ZEN]

_
Texto de Samuel Avital.

_



_

Nenhum comentário:

Postar um comentário