segunda-feira, 19 de outubro de 2009

CORPO, MENTE, ALMA [Conceitos que mudam]


Que é UNIDADE?Estamos acostumados a pensar em unidade como uma coisa única, um estado ou uma condição. No entanto, a idéia de unidade provém de multiplicidade. Quando duas ou mais coisas se fundem numa coisa única, referimo-nos a esta como “unidade”. A introspecção do homem, sua pesquisa de seu próprio interior, remonta a milhares de anos. Raramente, porém, ele encararia a si mesmo como uma entidade singular.

Havia funções do ser do homem que eram marcantemente diferentes umas das outras. Conseqüentemente, o homem durante muito tempo pensou em si mesmo como uma unidade de três substancias ou qualidades. Além disso, a relação entre elas, nele próprio, é um mistério sobre o qual ele continua refletindo. Em geral, essas três diferentes qualidades do ser do homem são denominadas:
ð corpo;
ð mente e;
ð alma

Nessa trindade assim concebida, o homem tem valorizado menos o seu corpo. Tem até sentido certo desprezo por ele. Em suas religiões e filosofias, tem muitas vezes submetido o corpo a mortificações e sacrifícios. OU seja, tem por vezes negado as necessidades do corpo e o tem mesmo torturado.

A antiga escola órfica de filosofia pensava que a carne era má e corrupta. Seus adeptos acreditavam que o corpo aprisionava o elemento divino, isto é, a alma. Ensinavam que a alma estava constantemente buscando a sua liberdade. E essa liberdade era entendida como o vôo da alma de volta a sua origem divina. As escolas socráticas e platônica foram muito influenciadas por essa idéia sobre o corpo.

Filon Judaeus, do primeiro século antes de Cristo, foi um filósofo judeu nascido em Alexandria. Naquela época, as crenças religiosas estavam muito influenciadas pela cultura grega. Para Fílon, Deus transcendia tudo e era eterno. Mas dizia-se que a matéria era “coeterna” com Deus. Havia assim um dualismo: Deus, de um lado, com a matéria opondo-se a Ele, do outro lado. Fílon disse que de Deus descendiam logoi, isto é, forças. Os dois principais “ logoi” eram “bondade e potencia” ou divino poder. E Fílon os chamou de ‘mensageiros’ ou intermediários de Deus.

Fílon ensinava também que havia logoi inferiores. Estes, dizia ele, eram capturados e tornavam-se matéria. A alma [os logoi] era aprisionada nessa matéria. O corpo era matéria; logo, era tido como potencialmente mau. O homem tornou-se pecaminoso, mau, segundo Fílon, pelo mau uso de seu poder da vontade;em outras palavras, ele cedeu a seus sentidos e às tentações do corpo. Somente por meio de meditação e contemplação de suas qualidades divinas, conforme se declarava, poderia o homem elevar-se acima da matéria e do corpo. Essas idéias de Fílon deixaram claras impressões nas teologias judaica e cristã. O Novo Testamento as reflete.

Quais foram as principais causas desses conceitos adversos sobre o corpo humano? Quais são as razões psicológicas por trás deles? Mesmo em culturas primitivas, o homem considerou o corpo como uma coisa evanescente, ou seja, que está constantemente mudando. Como no caso da vida vegetal, observa-se que ele declinava e perdia sua qualidades. O corpo podia ser facilmente ferido ou destruído, inclusive pelo próprio homem. Portanto, não sugeria permanência, imutabilidade ou natureza eterna. Comparado com corpos celestes como o Sol, a Lua e as estrelas, o corpo parecia ser uma criação inferior.

Além disso, para o homem primitivo, os males e as dores do corpo pareciam enfatizar sua falta de pureza. Mesmo os apetites e paixões eram tidos como exemplos de fraqueza do corpo. Eram comparáveis às funções físicas dos animais, que o homem considerava inferiores a ele.

Mas havia ainda a segunda qualidade da natureza trina do homem. Era a parte “pensante”, os processos mentais. Agrupamos esses processos sob o temo geral “mente“, mas havia uma enorme distinção entre essas funções da mente e as do corpo. Havia uma característica intangível na parte pensante do homem. Ela não podia ser vista ou destacada. Para o homem, o aspecto mais impressionante dessa parte pensante era o de que ela era “interior”. Era algo dinâmico que movia o corpo como o homem quisesse. E esse algo interior, falava com ele. Podia mandar e pleitear, mas não era visível.

A IDÉIA DO EU
Por outro lado, o corpo atuava sobre esse algo, sobre essa parte pensante e isso levava o homem a sentir medo, surpresa, felicidade, pesar. Qual era então a parte verdadeira? Qual era a verdadeira entidade ou o verdadeiro homem? Aqui nasceu a idéia do EU encerrado numa casca. Ele era geralmente tido como inerte, passivo. O corpo era movido somente pelo mundo exterior, ou por esse algo interior. O EU, a parte capaz de consciência, era tido como o positivo, real.

Vemos aqui o começo do dualismo, da dicotomia, da divisão do homem em duas partes. Essa idéia da divisão da natureza do homem ainda persiste em muitas religiões e filosofias éticas. Notava-se que essa parte pensante do homem só existia no corpo vivo. Ela deixava o corpo na morte e, assim, era concebida como um atributo daquilo que dava vida ao corpo. Observava-se que a vida entrava e saía do corpo com a respiração. Respiração era ar, e o ar parecia infinito e eterno;portanto, às respiração logo foi atribuída como uma qualidade divina, pelo homem antigo. Por exemplo, em Gênesis 2:7, encontramos:” e formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida;e o homem foi feito em alma vivente”.

Mas se admitimos que a força vital é divina, então ela deve fazer muito mais do que apenas dirigir as funções orgânicas do corpo. O homem achava que ela deveria ter alguma finalidade superior a cumprir no corpo. Qualquer que fosse a forma que o homem concebesse para a Divindade, ela era considerada dotada de uma inteligência superior. Com o desenvolvimento da autoconsciência, o homem adquiriu uma crescente autodisciplina. Começou a sentir fortes reações emocionais a certos aspectos do seu comportamento. Alguns atos do homem fazia com que ele sentisse prazeres; mas esses prazeres não estavam relacionados com as sensações de seus apetites. Havia alguns que eram muito mais sutis e proporcionavam uma espécie de satisfação interior profunda. A essas sensações o homem deu o nome de “bem”;ao seu oposto de “mal”.

Foi fácil para o homem acreditar que era a Divina Essência ou substancia, em seu interior, que lhe indicava o bem. Ela era tida como INTELIGÊNCIA da Divindade no homem. Pensava-se também que essa Inteligência era uma parte superior da natureza do homem. A essa terceira qualidade do ser, o homem deu o nome de ‘ALMA’.

A RAZÃO
O homem logo se apercebeu das ilusões e dos equívocos dos sentidos. Os sentidos relacionavam-se com o corpo finito; portanto, não eram considerados uma fonte confiável para se chegar à verdade e ao conhecimento. A parte pensante do homem, sua razão, parecia proporcionar-lhe iluminação. Em outras palavras, dava-lhe respostas pessoais para muitas de suas experiências. Devido a esse poder atribuído à razão, ela era associada ao aspecto divino do homem. Dizia-se que a razão era um atributo da alma. Plotino, filósofo neoplatônico,disse que a razão é:”alma contemplativa”.

Como deveriam esses três aspectos da natureza do homem ser integrados? Qual deveria ser o poder controlador da natureza humana? Platão relacionou esses três aspectos com as classes da sociedade proposta em sua “Republica Ideal”. Segundo ele, a razão no homem deveria ser como a classe dirigente dos filósofos; a vontade, como a classe guerreira, e deveria fazer valer os ditames da razão; e o corpo deveria ser como os trabalhadores para prover o sustento da razão e da vontade.

A metafísica e o misticismo modernos, reconciliados com a ciência, repudiaram a velha idéia da Trindade e, com essa rejeição, muitas superstições, duvidas, e muitos temores, foram dissipados. Sua primeira proposição e doutrina é a de que “todos os fenômenos, a despeito de suas manifestações, estão inter-relacionados”. Não é reconhecida uma verdadeira dualidade, como de “material, de um lado, e imaterial, de outro”. Esse moderno conceito místico e metafísico também não interpreta que um estado da natureza humana é bom e outro é mau. Sustenta que essas noções são apenas relativas aos valores da mente finita do homem.

A noção de dualidade pressupõe que um estado, uma coisa ou condição,criou a outra. Por que deveria isto ser feito? Que parte de quaisquer duas partes é a superior? Ou por que uma permitiria que a outra fosse inferior ou oposta a ela? Estas questões perseguiram a teoria dualista da realidade durante séculos. Em conseqüência, a metafísica moderna propõe um estado “monístico”.

O ESTADO MONISTICO
O estado monístico, esse “UM”, é o COSMO. Ele é eternamente ativo. O ser, o Cosmo, é ativo porque é a realização do que ele é. O ser é inerentemente positivo, dinâmico. A idéia que o homem tem de não-ser, de um estado negativo, é apenas inferida de ser. É a suposição da ausência daquilo que existe. Inversamente, porém, um nada absoluto não sugere um algo.

A segunda proposição metafísica, é a de que o Cosmo não tem forma. Nenhuma coisa ou expressão, em si mesma, é o Cosmo. Como disse Spinoza, filósofo holandês, o SER É INFINITO EM SEUS ATRIBUTOS. O Cosmo, portanto, em sua eterna atividade, está sempre mudando suas manifestações. Ele é um espectro de energias pulsantes. O espectro eletromagnético e aquilo que chamamos de matéria e vida, tudo isso faz parte dele. O Cosmo é infinito em sua variedade de expressões, mas a percepção que o homem tem das mesmas, sua capacidade de tomar consciência delas, é limitada. Naquilo que o homem chama de TEMPO, algumas dessas manifestações do Cosmo podem lhe parecer constantes; em outras palavras, podem parecer ter uma forma eterna. Mas, novamente, o tempo e a mudança são relativos à consciência e à experiência do homem.

A terceira doutrina principal é a de que, em essência, o Cosmo é o mesmo. Nenhuma de suas expressões tem qualidade superior a de nenhuma outra. Pensar num aspecto do Cosmo como divino e em outros como não divinos é raciocínio humano falaz – é julgar manifestações cósmicas relativamente a seus efeitos mortais.

A ATIVIDADE DO SER
A metafísica moderna tem uma explicação para a atividade do Ser, do Cosmo. Ela propõe que ele oscila entre dois estados, ou pólos, de sua própria natureza. Um pólo é expansão;o outro, contração. Mas essa expansão não deve ser entendida no sentido comum da palavra. Não é um acréscimo, ou seja, crescimento. Não é adição de algo a si mesmo. Como o Cosmo, ou Ser, é TUDO, não há nada que possa ser acrescentado a ele.

Podemos usar a analogia de uma bola de borracha elástica. Se a apertarmos, ela parece diminuir. Na verdade, apenas concentramos sua substancia. Quando aliviamos a pressão, ela se expande novamente:no entanto, não acrescentou nada a sua substancia para se expandir. Conseqüentemente, há polaridades opostas geradas no Ser por essa expansão e contração. Podemos pensar no estado de contração como relativo à “polaridade positiva”, A chamada expansão, por sua densidade menor, tem polaridade ‘negativa’.

É essa pulsação que produz todas as energias e os fenômenos do Cosmo. As energias que assim se produzem guardam então relação umas com as outras, como pólos positivos e negativos. Atraem e repelem, como a ciência demonstra.

Já se tem dito que a natureza abomina o vácuo;ou seja, o SER está continuamente se esforçando para existir. E isso é a própria necessidade do Cosmo. Aquilo que se apercebe da sua necessidade de ser é consciência. Por conseguinte, a metafísica e o misticismo modernos perpetuam um conceito tradicional. Trata-se de que o Cosmo é “AUTOCONSCIENTE”.

A consciência do Ser funciona de vários modos em todas as expressões do Cosmo. Há consciência mesmo na matéria inanimada. Ela está presente na estrutura nuclear da matéria e se manifesta nas polaridades positiva e negativa a que a matéria se conforma. E também no núcleo positivo da célula viva e em sua camada externa negativa.

A consciência de “UMA” energia cósmica pode dominar e ter uma outra. Por exemplo, a energia que impregna a matéria e a torna VIVA, tem grande potência. É relativamente mais positiva do que a matéria, que, por contraste, é negativa. Este aspecto superior de consciência e força, então, domina e controla a matéria. Compele a estrutura da matéria viva a se conformar a ela. É por isso que nas moléculas de DNA e RNA da célula viva o desenvolvimento se faz somente numa direção. A célula viva não retrograda em seu padrão. Só grandes interferências podem produzir uma mutação, um desvio.

Há portanto uma combinação de consciência em cada forma viva, por mais elementar que seja. Essa combinação de consciência é transmitida por um processo evolutivo. Torna-se uma crescente “consciência de grupo”, que inclui todos os estágios anteriores da consciência. Como seres humanos, temos a consciência que é a força energética básica, a centelha da vida. Mas temos também, em nosso interior, a consciência de todas as formas de vida de que o homem ascendeu.

Assim como a célula viva tem a consciência impulsora pela qual ela se esforça para existir, o mesmo acontece com o homem. O complexo organismo do homem – cérebro e sistemas nervosos – dota-o de autoconsciência. ELE SABE QUE EXISTE. Torna-se uma entidade em si mesma. Mas as variações de consciência que se manifestam através do organismo complexo do homem produzem diferentes jogos de sensações. Há fenômenos como a intuição, a razão, as emoções e as sensações mais profundas ou impressões morais.

O homem separou e classificou as diferentes sensações e os diversos sentimentos que vivencia. Como já dissemos, ele se imaginou uma tríade. Por analogia, suponhamos que temos várias cordas de metal esticadas, de diversos comprimentos, como num instrumento musical [uma harpa, por exemplo]. Se fazemos uma forte corrente de ar passar por essas cordas, elas vão emitir diferentes sons. No entanto, é o mesmo volume de ar que produz os diferentes sons. O ar apenas faz as cordas de tensões diferentes vibrarem de modos diferentes.

Analogamente, nosso organismo faz com que as variações da consciência universal em nós produzam diferente sensações. O corpo, a mente e a consciência superior do EU que chamamos de ALMA, são apenas efeitos dessa consciência ÚNICA de grupo em nós. A distinção não está na essência e sim nas funções produzidas. É como o fato de que todas as diferentes notas musicais são não obstante som. Somente quando o ser humano compreender esse conceito deixará de exaltar uma função do seu ser com prejuízo das demais.

O Corpo provém da mesma fonte cósmica divina de que provém aquilo que o homem opta por chamar de Alma. Mas o corpo é limitado no serviço que pode prestar ao ser humano global. Concluindo, como disse o poeta Alexander Pope, “o estudo adequado à humanidade é o ser humano”.

_
Texto de Ralph M. Lewis.

Nenhum comentário:

Postar um comentário